As 100 Melhores Músicas da Década – Parte 3 (50-26)

 Vocês pediram (na verdade NÃO pediram), e o JESUS USAVA CHANEL finalmente voltou com a terceira parte da nossa aguardadíssima lista das 100 MELHORES MÚSICAS DA DÉCADA DE 2010. Como o blog anda com uma rotina bem regular de posts desde o último mês, basicamente optamos por lançar essa lista de forma mensal – ou seja, a próxima e última parte dela vai rolar pontualmente no mês que vem. Nessa parte 3, a penúltima parte dessa série cansativa, nós comentamos as músicas das posições 50 a 26. A gente tá cada vez mais perto do pódio e, pelos artistas que aparecem aqui, acho que já dá pra ter uma noção de quem vai dar ou não as caras no nosso top 25 em agosto.

Sempre reafirmamos isso, mas é bom lembrar que essa é uma lista idealizada totalmente pelos integrantes deste blagh e obviamente ela reflete muito mais nossos gostos pessoais, vontades próprias e escolhas duvidosas do que uma possível verdade absoluta – é tudo deliberadamente decidido pelo nosso feeling musical não muito confiável. Essa última parte traz como destaque: subestimadas músicas de girlbands britânicas, PC Music, Forró Universitário e obviamente muito pop asiático.

PARTE 1 | PARTE 2

Ansioso pra saber as próximas posições? Vamos ao ranking!

50. Kali Uchis – Loner (2015)

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O mundo do pop latino nunca mais foi o mesmo desde que a Kali Uchis surgiu em algum momento no meio da década passada com sua personalidade que se resume a ser uma latina gostosa, solitária e sem paciência pra quem tá começando. “Loner” é o terceiro single do EP de estreia da artista (o subestimadíssimo “Por Vida”, que ganha uma capa nova no Spotify a cada semana) e traz uma atmosfera lenta de R&B e soul music retrô como plano de fundo perfeito para uma letra sobre decepção amorosa onde a Kali conta que prefere ficar sozinha a se submeter a um amor mal resolvido e potencialmente abusivo. Óbvio que o tema é altamente clichê (a própria gata inclusive cantou sobre esse mesmo assunto no single “Solita), mas é notável como a Kali consegue abordar ele de um jeito convincente – você sente a decepção na voz dela durante todos os 3:32 da faixa, e é quase como se desse pra imaginar claramente a cantora rolando os olhos diante da situação narrada. Aliás, a voz da Kali, situada num meio-termo genial entre o suave e a voz rasgada, é uma das melhores características de “Loner” junto dos backing vocals meio chorados que dão o tom da música.

49. Mutya Keisha Siobhan – Flatline (2013)

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Se você é um gay de 80 anos (30 anos, em idade normal) e com um pouco de histórico de música pop, com certeza deve ter conhecido ou ao menos ouvido falar nas Sugababes. O grupo foi um dos maiores nomes dos girlgroups britânicos dos anos 2000 e teve diversas encarnações até encerrar as atividades em 2009. Anos depois, em 2013, suas três integrantes iniciais resolveram as diferenças entre si e formaram uma nova girlband com o criativo nome “Mutya Keisha Siobhan” – literalmente os nomes delas. O single de estreia desse reboot foi a faixa “Flatline“, um pop/R&B sutil e ensolarado produzido pelo lendário Dev Hynes, também conhecido como Blood Orange. Contando com elementos oriundos daquele bom pop retrô dos anos 80 e 70 que o Dev Hynes é perito em produzir, como guitarrinhas funkeadas e teclados espaçados, juntamente com aquele feel de pop britânico que as meninas do grupo sabem trazer como ninguém, “Flatline” é um número musical que soa como o passado e o futuro do som das girlbands do Reino Unido ao mesmo tempo. Dentre todos os elementos bons da música, o destaque vai pra união das vozes das garotas (é importante pontuar que a primeira formação das Sugababes representa provavelmente a melhor linha vocal de uma girlband contemporânea), que harmonizam com uma naturalidade assustadora e trazem um trabalho de gogó sem excessos e capaz de deixar qualquer fã antigo do grupo morrendo de orgulho. (Link)

48. Little Mix – Move (2013)

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Falando em girlbands do Reino Unido, enquanto a década de 2000 foi super frutífera para esse tipo de grupo, a década passada não foi assim tão positiva nesse sentido. Apesar dos pesares nós pelo menos tivemos o Little Mix – que é um grupo meio divisivo mas que ainda assim conseguiu levar o legado dos grupos femininos britânicos à frente. Enquanto a discografia das gatas é bem safe (precisariam comer muito arroz e feijão pra ter as sacadas geniais da discografia das Girls Aloud, por exemplo), um ou outro momento musical delas consegue sair da caixa e se destacar. Um desses momentos é “Move“, primeiro single do álbum “Salute” (2013) e que é nada mais do que um pop enérgico e que brinca com uma construção musical cheia de subidas e descidas. O groove dessa música é inegavelmente viciante, com um ritmo rápido e baterias “estaladas” que às vezes parecem geradas bucalmente mesmo, tudo isso englobando uma letra birrenta mas divertida sobre a necessidade que o corpo sente de dançar (e quem em sã consciência poderia recriminar uma faixa pop sobre isso?). Aliás, vale ressaltar que “Move” trabalhou exaustivamente com o instrumento cowbell (ou “tamborzinho” pra nós brasileiros) muito antes da Dua Lipa sequer imaginar que iria criar “Don’t Start Now” algum dia.

47. Perfume – Spring of Life (2011)

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O Perfume teve uma carreira tão lendária nessa última década (apesar de alguns percalços), que foi realmente difícil pensar em qual música representaria a iconicidade do trio japonês aqui nessa lista. Mas convenhamos que “Spring Of Life” é o melhor resumo do que as gatinhas balzaquianas fizeram nos últimos 10 anos: afinal, ela reúne os melhores elementos do techno-pop que virou a marca do grupo, além de uma composição basicamente sem arestas e visuais futurísticos que traduzem fortemente a identidade do Perfume. Produzida (como qualquer faixa do trio) pelo FODÃO da indústria japonesa Nakata Yasutaka, “Spring of Life” é construída com versos bem melódicos e mais introspectivos (se é que dá pra classificar assim) que são quebrados por um refrão alto, catchy e cantado a plenos pulmões pelas vozes autotunadas das garotas. Em vez de uma bridge convencional, somos agraciado por um solo de sintetizadores psicodélicos – e é a partir daí que reparamos que todos os elementos da música são “cintilantes”, já que ela possui uma textura musical que dá quase pra ser “vista” ou “sentida” de tão sinestésica que é a sua produção.

46. Pabllo Vittar – K.O. (2017)

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Nem sempre um hit é equivalente a qualidade musical (e recentemente as duas coisas andam sendo quase antônimos), então é impressionante como a Pabllo Vittar conseguiu unir essas duas coisas em “K.O.”. Quando chegou com suas paródias bem humoradas de músicas do Diplo e Beyoncé, ninguém achava que o nome Pabllo Vittar iria muito além de simplesmente cantar no palco do programa da TV Globo “Amor & Sexo”, mas o lançamento do seu primeiro álbum “Vai Passar Mal” revolucionou a drag music brasileira para sempre, e de quebra ainda impulsionou o cenário pop brasileiro. “K.O.” é um forró/arrocha-pop, com versos perfeitamente rimados onde Pabllo Vittar canta sobre um amor que a nocauteou até a “lona” – de uma forma apaixonante -, e a drag não teve outra escolha a não ser ceder. Dentre vários hits, esse foi seu maior e mais bem pensado: marcou a década, o cenário drag e o que poderia ser o nosso pop tupiniquim, que estava ganhando uma cara própria na época. No meio de tantos sertanejos, funks e mpb’s água-com-açúcar, Pabllo Vittar deu um twist e trouxe à tona um ritmo marginalizado do nordeste que, apesar de viver nas periferias, clamava por um lugar concreto no nosso pop mainstream.

45. AlunaGeorge – Your Drums, Your Love (2012)

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AlunaGeorge sempre foi uma dupla pop extremamente subestimada. Tudo bem que os lançamentos deles começaram a ficar meio sem graça da metade da década pra cá, mas o álbum de estreia deles, o “Body Music”, é simplesmente um dos momentos mais definidores da música pop-eletrônica nos últimos anos de acordo com o mundinho JESUS USAVA CHANEL. Munidos de uma sonoridade bem própria e da voz de bebê singular da Aluna Francis (que muitas vocalistas de EDM tentam emular), o duo fez sua estreia no mundo musical em 2012 com o single “Your Drums, Your Love“, que até hoje é a melhor fatia do catálogo deles. “Your Drums, Your Love” é um R&B futurístico com influências de vários gêneros da música eletrônica britânica, como UK Garage e Future Garage. É por cima de um instrumental quase hipnótico, cheio de graves pulsantes e as leves batidinhas de tambor (referenciadas no título da música), que a voz infantil da Aluna guia o ouvinte por uma composição pausada cheia de frustração amorosa e que explode em um refrão arrebatador e de doer o coraçãozinho. O instrumental da música aliás é tão bem produzido que você tem a impressão de que ele é “tátil”, e não é à toa que por essa e outras músicas eles resolveram nomear o primeiro disco de “música corporal”.

44. Selena Gomez & The Scene – Love You Like a Love Song (2011)

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Uma das reclamações mais recorrentes desse blog é sobre subgêneros farofeiros da música pop. A gente reclama de tropical house, future bass, trap… mas veja bem, nenhum gênero recebe mais o nosso ódio do que o famigerado dubstep (ainda mais agora que ele tá voltando com tudo pelo menos na Ásia). Porém, se o dubstep for bem feito a gente não reclama e até traz a música em questão para a nossa lista de melhores da década!! “Love You Like A Love Song” da Selena Gomez e sua ex-banda fictícia é o exemplo perfeito disso: a música surgiu simplesmente no ápice do uso do dubstep na música pop mainstream, lá por 2011, e usa o grave barulhento do gênero como elemento principal de seu refrão – mas de uma forma tão bem encaixada e sem aqueles excessos comuns do gênero que você nem consegue encontrar motivos pra reclamar do que tá sendo ouvido. Para além do dubstep, a faixa tem todo um clima retrô e letra realmente brinca com fator nostalgia ao evocar a “mitologia” das canções de amor e como elas são centrais nas nossas construções como ouvintes de música (afinal, o que seria um bom romance sem uma boa canção de amor embalando ele?), onde a Selena solta o gogó (com direito a high note!) sobre estimar o seu amado tanto quanto ela estima essas canções de que formam as trilhas sonoras das nossas vidas.

43. Frank Ocean – Pyramids (2012)

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Em nove minutos e cinquenta e dois segundos de duração, “Pyramids” narra a história de uma rainha negra do Egito antigo e as narrativas de mulheres negras norte-americanas. Frank Ocean se concretizou como um artista culturalmente impactante durante toda essa década (mesmo demorando séculos pra lançar álbuns), e “Pyramids” é mais do que uma prova do seu potencial. Quando Ocean narra a história da figura histórica africana Cleopatra, ele faz isso em uma batida funky, com synths retirados diretamente dos anos 80, com instrumentos que beiram o miami bass e suas particularidades, e de repente tudo que a faixa era, deixa de ser. A intro de um minuto de transição nos teleporta diretamente para o “futuro”, ainda com o auxílio de auto-tune, para pontuar o presente. Frank Ocean narra a vida de uma mulher negra que é subjugada enquanto trabalha “na pirâmide” da prostituição. Com direito a um trap atmosférico, e um break de  “air guitar”, Ocean destila seus versos de forma maestral para um artista de primeira viagem (afinal, esse momento musical épico era “apenas” mais um single do álbum de estreia do artista).

42. Ayesha Erotica – Literal Legend (2017)

Essa década foi tão longa que nesse meio-tempo a Ayesha Erotica surgiu, lançou singles icônicos e já se aposentou. E se você ainda não conhece a Ayesha Erotica, faça o autofavor de ouvir o episódio do PRE:CAST JU½C onde falamos sobre quem ela é. “Literal Legend” é provavelmente uma das faixas mais conhecidas da gostosa, um single solto lançado no soundcloud dela lá pelas idas de 2017 e que resume um pouco o tipo de som freaky e caótico que ela fez durante a sua (infelizmente) curta carreira. A música bebe 1000% da fonte do electroclash dos anos 2000, parecendo algo que a Peaches ou a Miss Kittin produziriam naquela famigerada década caso elas tivessem as nossas referênciasatuais, e é basicamente um statement musical onde a Ayesha já abre falando “Hey, this is Ayesha Erotica, the world’s number one coke whore” por cima de um instrumental eletrônico barulhento e recortes vocais repetitivos. No meio disso ela encontra espaço para fazer um número enorme de referências à cultura pop em um rap frenético e cheio de ótimas sacadas como “I could give you Björk, but I don’t think you’d understand it” e, após esse começo catatônico, a música ainda se metamorfoseia em um miami bass vindo diretamente dos anos 90 onde a Ayesha investe em um rap ainda melhor – e vale lembrar que todas essas coisas acontecem em apenas uns dois minutos e quarenta de duração, dando sempre aquela sensação de “já acabou?” assim que você termina de ouvir a faixa. (Link)

41. TWICE – TT (2016)

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Em 2016 o TWICE deu a sorte grande ao conseguir um sucesso altamente ressonante com o público coreano ainda em seu primeiro comeback. A faixa “CHEER UP” virou uma febre nacional (e até mundial) por causa de uma parte específica de sua letra (algo mais ou menos parecido ao “omo!” de “Tell Me” das Wonder Girls), e essa foi uma das primeiras vezes que a gente ouviu falar do bendito “efeito viral” no K-pop – algo que virou item essencial no gabarito dos girlgroups bem sucedidos. Com esse sucesso em mãos, a tarefa de casa dos produtores do TWICE era a de replicar e maximizar essa casualidade no próximo lançamento das garotas. “TT” foi o resultado dessa tarefa de casa, e foi um resultado MUITO bem sucedido visto os que singles criados para repetir o êxito de músicas anteriores geralmente são derivativos e descaradamente sem criatividade. Apesar de ter sido milimetricamente produzida para o sucesso (com uma frase de efeito boba e facilmente replicável pela coreografia que a acompanha), “TT” não parece nenhum momento feita só por fazer: a frase de efeito é um momento importante na música, mas ainda assim a faixa tem versos, refrões e um instrumental bem sólidos e que funcionariam por conta própria mesmo sem o “I’m like TT” presente ali. Bom… de qualquer forma tem como resistir ao carisma boboca de fazer dois “Ts” com a mão e cantar aquela letra estúpida embalada por uma sonoridade fofa e com surpreendentes elementos do deep house? É claro que não.

40. Solange – Loves In the Parking Lot (2012)

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Nos fundos de um estacionamento, depois das luzes apagarem, Solange, ainda “novata” no mundo da música (mesmo depois de ter lançado uns cds com capas horríveis e que ninguém ouviu) convoca todas as referências de um bom R&B-funky dos anos 80 para criar o hino do payback “Lovers in the Parking Lot”. Mesmo com a batida bastante envolvente (mais uma produção do Dev Hynes), assim como sua composição, percebemos as pontadas melancólicas de um piano solitário que traduzem fielmente o mood da cantora – que agora paga as consequências de seus atos infiéis durante um relacionamento. Uma confissão em forma de música, Solange foge do clichê das músicas românticas e não se isenta da culpa que ela teve em estragar um relacionamento, mas tenta reparar os danos com uma faixa upbeat que nos faz duvidar um pouco sobre o real tema abordado. “Lovers in the Parking Lot” é um manifesto de arrependimentos, o choro pelo leite já derramado e a súplica de Solange para que esse relacionamento volte. E sabe, dá uma saudadezinha dela fazendo esse pop/R&B nostálgico no começo da década ok.

39. Lana Del Rey – Video Games (2011)

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A gente não tava totalmente pronto quando a Lana Del Rey surgiu como um furacão com suas coroas de flores, seus ducklips e seus filtros do VSCO Cam em 2011 mudando toda uma cultura de consumo de artistas de nicho – rotulados como “alternativos” para melhores resultados. O mais legal desse momento é que a musa de direita não trouxe uma música simples e bobinha em sua estreia “oficial” no mercado musical, mas sim uma balada pop longa, extremamente emotiva e classuda. De tantas faixas de amor que são cantadas por aí, “Video Games” é um exemplo extremamente especial, já que ela não descarta os clichês de uma música de amor mas ainda assim tem um diferencial, um charme decadente a mais que a separa de todas as faixas de amor anteriormente cantadas. A música é cinematográfica em basicamente todos os seus aspectos: seu instrumental é orquestrado e cheio de violinos celestiais, enquanto sua letra descreve com ares roteirísticos os acontecimentos banais de um dia banal e como a artista consegue enxergar através dessas cenas os mínimos detalhes que a fazem amar o seu daddy. Tudo é arrematado em um refrão cheio de entrega amorosa e de poesia descaradamente piegas, mas que ainda assim guarda pequenas surpresas e imprime com maestria a identidade que a Lana desenvolveria dali pra frente.

38. IU – Palette (feat. G-DRAGON) (2017)

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De tantas músicas coreanas que cantam sobre emancipação e jogam aleatoriamente a idade do artista em questão (e a própria IU já fez isso anteriormente), “Palette” é a que passa mais verdade. A faixa é um pop/R&B com um leve ar etéreo e uma letra confessional que é basicamente catártica: nela, a IU explica com bastante confiança o seu processo de amadurecimento, o que a agrada e o que não a agrada, tudo para passar a mensagem de que agora ela conhece um pouco mais sobre ela mesma e que se sente confortável sendo quem ela é. O legal de “Palette” é como a IU não teve medo de ser bem direta e autorreferente na letra (dá até pra encontrar menções a singles antigos na letra), trazendo uma reflexão com ar de positividade que a gente dificilmente encontra no K-pop. Ah, e por mais que eu não goste muito do G-DRAGON, não dá pra negar que o rap dele nessa música é um momento-chave, e ele consegue (raro no caso do K-pop, ainda mais em colaborações) fazer suas rimas conversarem com a mensagem pretendida pela IU.

37. Girls’ Generation – The Boys (2011)

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T…R…X. O ano é 2011, e a indústria do K-pop está começando a se internacionalizar mais fortemente. No meio de tudo isso, o Teddy Riley, lendário produtor americano que já trabalhou com Michael Jackson e Lady Gaga, é cooptado pelas empresas sul-coreanas e se envolve em produções diversas, sendo uma delas com o grupo mais quente da segunda geração: o GIRLS’ GENERATION. O grupo de nove/oito gostosas pode até ter desandado anos depois, com escândalos de membros e infidelidades dentro do clã, mas “The Boys” marcou o início dos próximos dez anos do K-pop, fugindo dos conceitos mais “normies” que assombravam a Coreia do Sul. Um dos primeiros “hinos empoderados” do gênero, a faixa pôde ganhar vida porque o SNSD não costumava seguir tendências – aliás tudo que tocavam virava ouro – e por isso o Teddy Riley teve a liberdade de criar um pop “girl crush” carregado de uma bateria estrondosa e um bass tão estranho que soa como uma sirene tocada em tom grave. A faixa até tem uns momentos meio cringe, mas ela envelheceu geralmente bem (se você desconsiderar o clipe) e mostrou tudo que tinha que mostrar: as garotas finalmente se apoderaram do título de maior girlgroup da Ásia que os fãs sempre julgaram que era delas. Nenhuma composição do grupo costumava ser tão “forte” quanto essa, e pelo fato de estarem fazendo números tão grandes – ou até maiores – que certas boybands, decidiram que era o momento de finalmente pesar a mão no girl power e chutar os garotos para escanteio.

36. Clairo – Bags (2019)

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A Clairo é uma gatinha que canta bedroom pop e que ganhou certa fama por ter (de acordo com as más línguas) pais ricos que conseguiram fazer ela ter certo nome no mundo da música. Mas quem se importa se ela é uma artista plantada pela indústria musical quando ela faz músicas tão boas? O melhor momento do catálogo musical da Clairo é a faixa “Bags“, primeiro single de seu álbum de estreia, o “Immunity”. A Clairo é conhecida por fazer um pop confortável, perfeito para escutar em um dia chuvoso ou um fim de tarde tenro, e “Bags” é a maximização dessa sensação, pois é uma faixa acolhedora mas que ainda assim consegue passar uma melancolia charmosa e envolvente. Inspirada por cenas de suas primeiras experiências amorosas com garotas, a música traz a Clairo em um tom de diálogo, passando as suas frustrações de forma conversacional e, apesar de serem frustrações bem reais, ela parece falar tudo com um tom bem casual e meio apático, o que reflete um pouco o cansaço e a vergonha que a gente sente em abordar esses assuntos com os nossos interesses amorosos decepcionantes. O instrumental com elementos de banda, bateria com um feel orgânico e guitarra bem presente, dão à música uma atmosfera de trilha sonora de filme adolescente independente, e tem descrição musical mais perfeita do que essa?

35. Kelela – Rewind (2015)

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A lembrança é composta por imagens fortes que nos marcam em determinados momentos ou que surgem como flashes aleatórios em nossas cabeças. Em “Rewind”, Kelela romantiza perfeitamente a necessidade que nós sentimos de rebobinar certos momentos e a leve frustração que temos quando percebemos que isso não é possível. A faixa pinta um cenário bem claro: a Kelela lembra de um intenso momento de flerte e paixão à primeira vista numa festa, e apesar de ser um momento aparentemente banal, isso é passado na letra como a sensação de estar profundamente apaixonado, envolvendo-se constantemente em sentimentos pesados – você fica sugado, e sem ar, mas quer repetir aquilo indefinidamente. “Rewind” é sustentada por um miami bass sólido (e que até soa futurista) pontuado momentos suaves rasgados por um refrão relativamente pesado onde a Kelela grita que infelizmente não pode voltar no tempo para reviver seus sentimentos. Em seus versos, a faixa consegue traduzir muito bem os arrepios de tensão amorosa/sexual: nervosismo de contato, sinais mal interpretados, o embaraço desenvolvido em um flerte e a sensação desamparadora de que você talvez nunca mais veja a pessoa novamente. Essa é uma daquelas músicas que, caso fosse descoberta antes por um público maior, com certeza seria um hit mainstream sem precedentes… mas como sempre o público perdeu o timing.

34. Kanye West – Runaway (feat. Pusha T) (2010)

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As notas de um piano qualquer se tornam pontadas pontiagudas na interpretação de Kanye West em “Runaway”, um dos singles do melhor álbum do Yeezy, o “My Beautiful Dark Twisted Fantasy”, de 2010. As vozes ecoando levemente ao fundo e a distorção da voz do artista em certa parte da faixa são provas de uma genialidade musical avançada do dono de vinte e um grammys. Pode-se tirar tudo de Kanye West, mas por baixo de toda a grande camada de polêmica em que ele se encontra vivendo, existe um gênio da música. “Runaway” abriu a década com uma maestria incomparável: nela, o Kanye brinda aos idiotas, ironiza sua vivência e transforma esses elementos em uma tragédia grega de arrepiar a espinha de qualquer ouvinte. Ele toma as ideias clichês dominantes no gênero rap sobre poder, sexo, dinheiro e respeito, transformando-as em um manifesto que as despe de todo o glamour. “Runaway” é a concretização da ideia de que Kanye vive em seu próprio mundo, mas que para além disso, ele é um dos maiores que temos no rap (até perdermos ele pra igreja evangélica assim como a Andressa Urach… acho que esse é o destino de qualquer celebridade polêmica mesmo). 

33. T-ARA – Roly-Poly (2011)

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O K-pop no início da década era obcecado por uma ideia de música futurística (tirando grupos como Wonder Girls e talvez o Secret, mas esses eram exceções), com suas boybands e girlbands vindo com músicas cheias de elementos pesadamente eletrônicos, muito autotune e clipes em cenários luminosos e com carrões saídos diretamente de 2030. Com esse panorama, quem imaginaria que a maior música de 2011 seria logo uma faixa retrô totalmente inspirada em “Os Embalos de Sábado à Noite” e que traria com força aquela nostalgia dos clubes noturnos dos anos 70 e 80? Foi isso que o T-ARA fez com “Roly-Poly“, um número musical que acabou se tornando definidor para a segunda geração do K-pop. O single e bobinho e poderia muito bem ser um comercial de gelatina ou algo do tipo, mas contém dentro de si todos os elementos essenciais para a construção de uma boa faixa pop camp mas memorável: um instrumental crescente, um refrão capaz de grudar na cabeça eternamente e um bom espaço para uma coreografia capaz de ser replicada por qualquer pessoa. Por conseguir gabaritar tão bem esses requisitos, “Roly-Poly” conseguiu seu espaço na memória dos fãs de K-pop e virou uma faixa altamente replicada – vários grupos (e até o próprio T-ARA) já surfaram nas ondas do sucesso retrô que o single trouxe.

32. After School – Shh (2014)

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Em 2014 o After School já era, para todos os efeitos, um grupo morto… mas isso não impediu que elas lançassem um dos maiores BOPS da década, ok. “Shh” foi mais um single japonês das garotas (logo, não recebeu a devida atenção do público que acompanha o K-pop), mas dessa vez elas deram um switch na imagem e sonoridade e nos apresentaram uma música mais sóbria e classuda, porém toda pontuada por um pop eletrônico com ares underground e totalmente inspirado por gêneros que fazem sucesso entre o público cool britânico – como o deep house e o UK garage. Todo esse arrojo sonoro (essa foi com certeza uma das primeiras faixas do K-pop a flertarem com o deep house) é responsabilidade direta do produtor da canção, o FODÃO da indústria japonesa Shinichi Osawa, também conhecido como MONDO GROSSO – e que já apareceu aqui na segunda parte dessa lista. Como o seu próprio título deve deixar claro, “Shh” é uma música sobre amor proibido, e ela se aproveita desse tema descarado pra colocar as integrantes do grupo cantando em tom de mistério, fazendo trocadilhos linguísticos como “shh shh shh shh secret love” (não existe o som de “si” em japonês, e a sílaba equivalente a esse som se pronuncia como “shi”) e intercalando suas vozes em versos lânguidos e refrões suaves pontuados por graves borbulhantes, já que o instrumental de “Shh” faz parecer que a música está se solidificando e se derretendo o tempo todo. (Link)

31. Charli XCX – Track 10 (2017)

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A carreira da Charli é cheia de erros e acertos, mas não dá pra negar que um acerto crucial no direcionamento musical da gata foi a atitude que ela teve de se associar a produtores relacionados à gravadora PC Music. O ápice da parceria dela com os autoproclamados futuros da música pop (risos) foi a mixtape “Pop 2”, uma grande colagem de sonoridades eletrônicas pontuada por composições pegajosas e fora da caixa e também por participações diversas que agregam ou não ao material. É bom falar nessas participações porque a melhor faixa da mixtape é justamente uma das únicas faixas que não possuem um artista convidado jogando uns vocais aqui e ali. “Track 10” é na verdade um remix da faixa “Blame It On Your Love” e que estranhamente foi lançado de forma oficial antes mesmo da faixa original (!). É um remix mais lento, etéreo, com um desenvolvimento calmo mas que ainda assim não dispensa elementos eletrônicos, estranhos, vocais autotunados e todas as coisas que as produções safadas dos artistas da PC Music poderiam utilizar. O instrumental dessa versão consegue viabilizar o bom desenvolvimento da letra e toda a sensação que a Charli XXX descreve de estar tão perdidamente apaixonado que ela nem sequer consegue lidar direito com a magnitude desse amor (!!!). Os dois minutos finais, onde a bateria momentaneamente some e ficamos apenas com a voz digitalizada da femmebot por cima de eletrônicos diversos é com certeza um dos instantes mais arrepiantes da discografia inteira da artista.

30. Lorde – Sober (2017)

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Óbvio que o JESUS USAVA CHANEL não vai fazer uma lista de álbuns da década (imagina a trabalheira que um rolê desses ia dar?), mas caso essa lista um dia viesse a acontecer, não há dúvidas de que o “Melodrama” da Lorde estaria em uma posição privilegiada. E qual faixa melhor para resumir esse cultural reset emotivo e alternativo da Lorde do que “Sober“? Cantada com uma angústia confessional por alguém que com certeza não consegue lidar com os próprios problemas amorosos sem uma boa dose de sarcasmo, “Sober” descreve o desmoronamento de um relacionamento enquanto as duas partes dele fingem que nada está acontecendo – eles estão tão perfeitamente vidrados em um modo de vida hedonista que a diversão se torna a desculpa perfeita pra fingirem que não se importam com o amor indo pro ralo. Como boa compositora que é, a Lorde consegue descrever a perfeita dualidade entre os momentos de ebriedade em que nada atinge os personagens da música e os momentos de sobriedade onde a realidade bate e a vontade de acabar com tudo aquilo surge fortemente… e ela ainda dá a entender que tudo isso é cíclico, esses humores vêm e vão sem uma conclusão. O instrumental de “Sober” tem um surpreendente sabor meio tropical, com instrumentos bem sutis, só ganhando “corpo” no refrão, quando somos atingidos por instrumentos de sopro tão urgentes quanto a vontade da Lorde de jogar tudo pro alto, mesmo que isso custe as noites de sono dela.

29. Kacey Musgraves – Slow Burn (2018)

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Slow Burn” é a faixa de abertura do aclamado e Grammyado álbum “Golden Hour” da Kacey Musgraves, e um dos momentos musicais mais singelos e envolventes de toda a carreira também igualmente aclamada da gata texana. A faixa introduz o ouvinte ao dia ensolarado e cheio de afeição que dá cenário ao álbum da melhor maneira possível. Por vezes, revela muito em poucas palavras – “Texas is hot, I can be cold/Grandma cried when I pierced my nose” – e expressa em sentenças simples uma imensidão sentimental de auto-respeito e lucidez – “I know a few things but I still got a lot to learn/So I’m alright with a slow burn”. Assim como o nome e a temática da faixa sugerem, seu desenvolvimento é lentinho, acendendo devagar e nunca dando espaço para exageros. Kacey sabe que as melhores coisas acontecem de forma gradativa e explana isso de forma bem sonora nessa faixa. É como se Sandy, Sufjan Stevens e Shania Twain tivessem se juntado para escrever uma das melodias mais agradáveis da década.

28. Dal Shabet – B.B.B. (Big Baby Baby) (2014)

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A oitentista “Big Baby Baby” veio em tempos definitivos para o falecido Dal Shabet. O grupo, que parecia ter problemas em encontrar uma sonoridade identitária na bagunça de sonoridades que é o K-pop, achou nas interseções e sub-gêneros dos anos 80 um grande nicho para se enfiar. “B.B.B.” – não confundir com o reality brasileiro -, produção do grande Sinsadong Tiger, encontra uma curva criativa onde as meninas do grupo queimam completamente a imagem bubbly-fresh-inocente a qual pertenciam antes. Como uma versão mais refinada de “Bling Bling”, a faixa nos remete a um tempo nostálgico que já foi usado e abusado no K-pop, mas que aqui revive com uma nova referência: a do som pop sintetizado mais dark e experimental que era criado na década de 80. O synthpop retrô nos convence de que o grupo Eurythmics na verdade viajou no tempo para roubar seus synths, e que o smash hit “Sweet Dreams” na verdade sampleou o Dal Shabet!!! Para além disso, o pré-refrão nos remete à algo que Salt ‘n Peppa faria, uma versão alterada de “Push It”. Em suma, “B.B.B.” foi um grande frankenstein dos anos 80 e de fato iniciou o grande saudosismo à época, provando que o grupo não merecia morrer tão cedo (mas que descansem em paz sabendo que esse legado está são e salvo). 

27. KARA – Lupin (2010)

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Em 2010 o KARA estava no auge do sucesso após o viral retumbante de “Mister”. E o que elas queriam fazer logo depois disso? Mais uma faixa farofa com dancinha de funk e suspensórios? Claro que não! O foco do KARA passou a ser, pasme, ensinar aos sul-coreanos um pouco de cultura literária. As saudosas gatinhas se apropriaram de toda a dimensão sedutora e gatuna do famoso ladrão ficcional Arsène Lupin (das obras do autor francês Maurice LeBlanc) para desenvolver “Lupin“, uma faixa enérgica e com um clima dark e misterioso que traz as garotas em looks sapatônicos inspirados pelo clima retrô da literatura de mistério e aventura europeia do início do século XX. Produzida pelo incrível grupo de produção Sweetune, assim como a maioria das faixas do grupo, “Lupin” é um pop bem imediato, com som de tambores, sintetizadores circulantes, instrumentos de sopro e recortes vocais. O mais legal da música é que, enquanto seus versos são bem explosivos e super fortes, seu refrão é mais “crescente”, dando uma acalmada na música para depois ir se desenvolvendo até desembocar em um break instrumental chiclete. Ah, vale lembrar que essa faixa tem (junto com “Copy & Paste” da BoA) uma das melhores introduções de uma música do K-pop, nos atingindo em cheio com um monólogo em inglês falado pela integrante Nicole e que é sucedido pelo gancho vocal implacável da música (quente, quente, rala rala) – quase não dá tempo de respirar.

26. Janelle Monáe – Q.U.E.E.N. (feat. Erykah Badu) (2013)

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Muito antes da Janelle Monáe lançar o seu definidor álbum “Dirty Computer” e sair do armário como uma panssexual gostosona e poderosa, ela já flertava com a subversão e a quebra de tabus em músicas variadas de seus ótimos dois primeiros álbuns. “Q.U.E.E.N.” (que originalmente se chamaria “Q.U.E.E.R.”, mas o mundo ainda não tava pronto pra uma faixa com esse título), em parceria com a Erykah Badu, é um número musical subestimado mas é, de longe, o momento mais importante de quebra de padrões da Janelle na última década. A música tem com certeza a melhor letra dentre todas as faixas rankeadas nessa lista até agora – ela é ácida, irônica na medida certa, sassy e convidativa ao mesmo tempo, soltando frases que saltaram direto para o textbook das melhores músicas pop dos últimos anos (“Mesmo se isso deixar os outros desconfortáveis / Eu vou amar quem eu sou”… sentiu essa, Alexandrismos?) e que nunca são banais dentro de seu contexto. Some isso com toda a narrativa afropunk da Janelle – que não é deixada de lado aqui – e também com os vários excessos que a música se atreve a tomar sem ter medo de soar meio extra: os vários vocais de fundo que “conversam” com o ouvinte, a “interlude” que é a participação da Erykah Badu (que entra num volume mais baixo do que o resto da música e com um instrumental meio jazz), o rap no final que muda totalmente o direcionamento da faixa e dá a ela alguns tons extremamente épicos… até transição com outra faixa ela faz: é simplesmente um pacote completo. “Q.U.E.E.N.” não é um mero single, mas sim um momento na música pop e uma afirmação confiante da capacidade artística da Janelle, que a partir daqui fica impossível de ser duvidada.

E é isso por enquanto. Ah, claro, que se você curtiu, discordou ou concordou com a lista, a caixa de comentários tá aberta e você pode opinar nela. USE-A! E não esquece que a gente tem também uma playlist abaixo com as músicas que rankearam nessa parte da lista – dessa vez excetuando as faixas “Flatline”, “Shh” e “Literal Legend”, que não estão disponíveis em nenhum serviço de streaming mas que possuem links para serem ouvidas em suas respectivas descrições. A gente se vê na próxima e última parte do top, até lá!

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