Mordemos a maçã que o GFRIEND nos ofereceu em “Apple”

Depois de incontáveis aberturas de animes disfarçadas com o mínimo de arranjos pop-rock, ou inúmeras versões da sua música de debut “Glass Bead”, o grupo GFRIEND decidiu que estava na hora de assumir uma nova identidade. Afinal, todos os grupos da sua geração já tinham passado por uma transformação visual drástica há algum tempo e elas eram realmente as únicas que ainda levavam alguns elogios do conservadorismo sul-coreano por reciclar a mesma música trezentas vezes e manter assim as chances de um hit top 50. Nada muito ousado, nada muito arriscado, mudando só aqui ou ali quando resolviam lançar algo pro verão (o que rendeu músicas questionáveis), o GFRIEND continuou nessa linhagem por muitos anos, até finalmente acordarem com “Apple”.

Isso tudo foi possível por conta da Big Hit ter comprado a Source Music, a empresa responsável pelo GFRIEND. Conhecidos por darem uma liberdade artística muito maior para todos os seus atos, isso acabou ajudando a que as meninas se soltassem mais e participassem mais na confecção desse comeback, com algumas membros ajudando na composição das faixas e tudo o mais. Numa indústria que muda tão rapidamente e se reinventa a cada momento que passa, é importante que essas mudanças aconteçam e a do GFRIEND veio num momento ótimo. As meninas já provaram seu talento, que sabem dançar, que sabem cantar, então está na hora de arriscar e fazer o que elas acham que é bom para a carreira delas. Ter esse controle é certamente mais importante do que disputar pelo #1 nos charts (e é claro que essa conversa vem porque a música não animou tanto os coreanos assim, mas nada disso deixa de ser verdade!!!!!!!)

Produzido pelos mesmos nomes que participaram de faixas como a da Sunmi e do novo grupo-irmão, BTS, o GFRIEND voltou com uma pegada extremamente oitentista e madura, com synths espalhados pela extensão da música, um pre-refrão um tanto sedutor e uma pequena homenagem aos acordes de guitarra que participavam das suas aberturas de anime lançadas até então. Isso sem contar que a intro da música, certamente inspirada em algum hit do Engenheiros do Hawaii, já mostra que a mudança veio com força. “Apple” tem a maturidade do que seria uma continuação da música “Fingertip”. A própria maçã já mostra tantos significados que podem até mesmo remeter a liberdade de Eva no paraíso, ou algo cristão-controverso pra irritar bastante os internautas sul-coreanos que não conhecem nada além da bíblia. Certamente a música é ousada, um tiro no escuro, mas também não deixa de ser igualmente boa e viciante. Sem contar na letra da faixa que deixa as coisas bem mais picantes. Vira e mexe as gatinhas falam sobre como a “maçã” está chamando elas, que o cheirinho da “maçã” é delicioso e que essa tentação é como nenhuma outra, o que certamente indica uma bela de uma metáfora sobre homoerotismo (ou apenas sexo mesmo você escolhe!!). Aliás, todas as músicas dessa nova leva do k-pop precisam introduzir um tema mais assim para dar um ar de #misterio e #ousadia na coisa toda, afinal de contas a implicação de que a música seja LGBT-friendly é mais low-profile do que a confirmação disso, o que deixa tudo mais crocante e acaba soando como uma música sexy de Kylie Minogue, se saindo ainda melhor que a encomenda.

O MV também é um deleite e que ajuda a intensificar ainda mais todo o sentimento da música. Muito bonito, “Apple” mostra toda a sua força em suas cenas que tratam da dualidade dos conceitos delas. Quando as florestas estão queimando, as meninas estão vestidas de branco, mantendo um olhar distante, inocente, puro, e quando as cenas cortam, elas já estão no meio de um castelo, todo escuro, e elas estão vestidas de preto, uma coisa bruxinhas de salem, mesmo sem mencionar bruxaria (mas elas mesmas nomearam assim). O desabrochar e a mudança, que são muito bem representadas em MVs como Black Swan do Rainbow, aparecem com força aqui, mas de forma bem sutil, deixando bem claro que as meninas estão buscando um outro estilo e estão mudando. Além disso, é o primeiro MV do GFRIEND onde elas apresentam uma storyline que não seja totalmente focada em caras e trejeitos das meninas, dando a entender que elas não são mais amigas e sentem saudades disso respectivamente. Homoerotismo é o caminho para tudo. Nota que desde que decidimos falar sobre queerbaiting no nosso podcast, a indústria coreana resolveu nos presentear com ainda mais pautas sobre isso. Ou vai me dizer que a cena de Eunha e Sinb beijando/mordendo a maçã juntas não é subtexto queerbaiter lésbico?

O fato é que ninguém, pelo menos não fora da fanbase do GFRIEND, esperava que “Apple” fosse acabar sendo uma música tão boa como essa e que mudasse a estética do grupo de uma maneira tão drástica mas que funcionasse perfeitamente e caísse como uma luva no colo de todas as 6 integrantes, que se saem muito bem nos papéis que desempenham nesse comeback (afinal a ladainha de mudar a imagem do grupo vêm basicamente todo comeback delas, imagine how tired we are). O resultado nos charts e tudo o mais não importa daqui para frente, até porque se arriscar traz sim consequências que podem ser tão boas quanto ruins, mas “Apple” é certamente uma das melhores músicas lançadas nesse ano do k-pop e é interessante do começo ao fim. Vale muito a pena dar uma conferida e se apaixonar. Claro que sem menosprezar a outra parte chata da carreira do grupo, que sempre serviu em seu conceito e conseguiu perfeccionar algo que já estava quase que em decadência na Coreia.

NOTAS EXTRAS:

  1. Esse foi O COMEBACK da SinB… cata os looks e o rostinho novo da mona.

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