JESUSFORK: A volta triunfal de Lady Gaga à música dançante no “Chromatica”

Quando a Terra não está em seu perfeito estado, e há mais do que o necessário para instaurar o caos entre a sociedade – com os eventos recentes e a pandemia mais duradoura da história -, Lady Gaga oferece uma rota de escape enfeitada com deep house dos anos 90/2000, colorida mas completamente trágica. “Chromatica”, seu sexto álbum de estúdio e um dos lançamentos mais esperados do ano, conta com a popstar clamando novamente as pistas de dança, nem que para isso ela tenha que criar seu próprio mundinho com traumas e dance pop, revivendo seus melhores momentos desde 2011 até agora.

A dramaturgia sci-fi que Chromatica oferece é uma experiência “transmídia” mesmo sendo impressa e compactuada apenas em áudio – salve algumas exceções de clipes musicais -, onde nós embarcamos em uma dessas naves feitas de puro cgi em busca de um novo planeta para fugir completamente da nossa realidade, sustentado por interludes com instrumentos clássicos, orquestras e elementos de deep house até não dar mais. É uma épica festa pop que nós teremos dentro dos nossos quartos – visto que nenhum clube está aberto devido a pandemia -, ouvindo Stefani Germanotta, a pequena italiana nova iorquina batalhando contra seus traumas. Uma odisseia épica ao planeta “Chromatica” que traz de volta um dos ícones do dance pop. 

Claro que o álbum não é nada revolucionário, suas influências são enraizadas fortemente nos ritmos que já fizeram sucesso nos anos 90 e nos mais comprados discos de summer eletrohits, mas a astúcia de trazer de volta esse gênero em um trabalho conciso é ambiciosa, ainda mais quando percebe-se que no mainstream pouco se fala de dance pop purista como Lady Gaga costumava fazer. Sendo com influências de um eletrodisco (“Enigma”) ou com um pop desconstruído cantando sobre estresse pós-traumático em uma estrutura desconstruída que soa como a Lady Gaga em sua primeira era de ouro  (“911”), a cantora traz de volta a grandiosidade das pistas de dança em músicas pop por simplesmente serem pop. 

Como compositora, Lady Gaga não rodeia o público de mensagens metafóricas, decidindo por uma abordagem direta ao ponto. Muito diferente do que acontecia na bagunça, “ARTPOP”, dessa vez conseguimos ver uma progressão bem clara do que “é” Lady Gaga e para onde ela pode ir, sendo o seu álbum mais pessoal até então, sem precisar recorrer aos próprios clichês das carreiras de estrelas do pop com guitarras unplugged, banhada em baladinhas mela cueca – inclusive os da própria em “Joanne” – o que inclusive é proibido no planeta Chromatica. Mesmo que algumas dessas músicas pareçam quebrar o ritmo dos bpm’s, Lady Gaga tem momentos como “Man In The Mirror” (Michael Jackson), onde ela conversa com si própria sobre não estar se divertindo aquela noite com tudo que se passa (“Fun Tonight”) e também onde ela consegue se livrar de traumas de abuso sexual que sofreu quando era ainda uma jovem adulta de 19 anos, em uma faixa de duplo sentido sobre clamar a pista de dança outra vez (‘’Free Woman’’). O que vem logo depois de sua parceria incentivada por vários elementos de deep house com outra artista que também passou por situações traumáticas no showbiz, Ariana Grande (“Rain On Me”), onde Lady Gaga relata que preferia estar “seca” mas ao menos está viva. 

Na grande odisseia rumo a Chromatica, onde Lady Gaga já nos presenteia com uma faixa-abertura reforçando que “my name isn’t Alice, but i’ll keep looking for wonderland” em um deep house delicioso, a nova iorquina parece retomar seus maiores acertos da carreira como forma de se auto-referenciar. Claro que por toda a confusão que seu quarto álbum, “ARTPOP” causou, pouquíssimo da vida útil do ícone pop pôde ser visto, uma progressão ainda na música eletrônica dance foi quase que impossível, visto que uma limpeza de imagem era extremamente necessária, seja pelas polêmicas com R. Kelly (“Do What U Want”) ou pela forma que ela foi vista de acordo com a mídia, por isso o Chromatica é mais do que um álbum, é uma forma dela mostrar o que viria dali pra frente. Inclusive suas tramas com a fama e a mídia, temas recorrentes na carreira da cantora, aparecem mais uma vez aqui, de uma forma quase-boba mas que serve uma bridge anti-climax que pode recuperar qualquer um de volta para a faixa, onde Stefani reclama da narrativa pronta que muitos jornalistas tentam dar para esses artistas (“Plastic Doll”). 

O segundo ato inteiro de Chromatica trata-se de uma série de percepções que o público tem sobre Gaga e que ela gostaria de quebrar completamente. Lady Gaga traz a sua melhor característica de pop-falado pela qual todos se apaixonaram, soando um pouco off-beat em uma produção de BloodPop e Madeon – o primeiro sendo produtor de todo o álbum e um nome já conhecido por Gaga -, fazendo dessa “disfuncionalidade” da música o ponto alto dela, adicionando camadas profundas do que significa uma música pop ou a marca artística de Lady Gaga, e a relação pessoal da artista com um dos narcóticos que ela costumava recorrer em momentos de dores crônicas (“911”). O estigma de “Ser Lady Gaga” é por vezes tratado em um tipo de “Enigma” onde ela mesma gosta de se rebelar, mudar, e reverter completamente as expectativas do público quanto ela, em uma faixa que parece que já ouvimos antes (oi David Bowie) mas que se torna um eletropop e faz de Lady Gaga uma dessas estrelas pop sem medo do ban quando o assunto são os vocais. Ela grita, mostra sua potência e nada disso parece forçado, apenas uma expressão artística sobre o “ser”, onde ela ainda parece se descobrir artisticamente – mesmo que honestamente essa seja sua melhor característica. O que segue nessa estética disco-eletrônica (“Replay”) é um dos pontos altos do álbum, como se ela trouxesse de volta as alegorias do seu segundo álbum, “The Fame Monster”, mas dessa vez ela não tivesse tanto medo assim de encará-los. Isso porque em toda sua carreira, Gaga nunca tenha sido tão direta assim em suas composições, principalmente quando essa música trata-se do seu PTSD.

O bedroom k-pop criado por BloodPop em “Sour Candy”, parceria com BLACKPINK que mais parece uma forma de inserir Lady Gaga no grupo como a quinta integrante – visto que ela só começa a cantar no meio da música, o que é um ponto interessante para mim -, pode soar como uma música que já ouvimos antes, aliás é a terceira a usar o mesmo sample do house-clássico “What They Say” de Maya Jane Coles, mas é uma boa tentativa de recriar o clássico “Show Me Love” de Robin S, em uma letra bastante #trendy que compara o humor das intérpretes à uma bala azeda, dura por fora, doce por dentro – complementada pela voz robótica de Lady Gaga no refrão que é um toque mais que necessário pra música. Mas no quesito de colaborações, obviamente Elton John leva o prêmio pela sua participação no planeta Chromatica. Ao revelar a tracklist, ninguém esperava que “Sine From Above” seria tão angelical, ou que seria uma experiência tão otherworldly como ela foi. A faixa “eurovision” do Chromatica, onde contamos com um break pós-refrão puramente edm, mostra Lady Gaga e Elton John relatando suas experiências com religião, e mais precisamente a artista com sua convicção de que Deus é na verdade uma onda de som. E não é por menos, já que somos arrebatados no final por um “outro” que chega no momento perfeito, é cyberpunk, é eletrônica, é deep house, é o que a gente não esperava e foi mais do que uma tentativa ambiciosa na produção do álbum – além de claro colocar sir Elton John em uma faixa dance pop. 

O álbum de Lady Gaga só não consegue ser muito bem sucedido em vender “1000 Doves” – claramente uma balada – como uma música eletrônica. A remixagem da faixa pareceu algo que o Calvin Harris faria, mas ainda assim sua composição nos mostra lados mais solitários da estrela do pop.

Chromatica fecha tão grandiosa quanto seu início, vemos outra faceta de temas já ressaltados pela artista ao longo de sua carreira, e ainda nesse próprio álbum (“Fun Tonight” e “Plastic Doll” tem relação direta com a fama e como Gaga lida com isso). Ao longo dos anos, Lady Gaga foi vítima das mais bobas fofocas, de alegações sobre ela ser hermafrodita, até o envolvimento da cantora com seu co-star em “A Star Is Born”, Bradley Cooper, além de claro ser considerada satânica pela produção de músicas com referências claras ao cristianismo. Chromatica prova que ela não está 100% disposta a se livrar da controvérsia com a Igreja, colocando os jardins suspensos da babilônia em uma homenagem escancarada à “Vogue” de Madonna, uma de suas maiores influências. Talvez não tão obscura quanta “Judas” ou “Bloody Mary“, “Babylon” relaciona a mitologia da cidade da Babilônia (castigada por Deus com línguas confusas, prejudicando a comunicação dos nativos de lá segundo a Bíblia), com o aspecto da fofoca em sua vida em uma tentativa de demonizar-lo. Tudo isso em um linguo de ballroom dos anos 80/90 de Nova Iorque – cidade do voguing -, e um coral de igreja ao fundo maravilhoso, declarando essa faixa sua música mais gay de todos os tempos. 

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