JESUSFORK | “111” é a festa de aniversário mais diversa de Pabllo Vittar


Em um cantinho do Maranhão, cidade do nordeste brasileiro, no dia primeiro de novembro, nascia um fenômeno do pop nacional: Pabllo Vittar. E para comemorar essa data tão especial, afaste os móveis da sala e conecte seu bluetooth na caixa de som mais próxima de você, pois a sensação drag separa na segunda parte do seu álbum “111” uma seleção de músicas em espanhol e português – além dos hits em outras línguas dentro da parte 1 -, que agregam à experiência uma viagem por ritmos e batidas que só a artista poderia entregar. 

Mesmo com os hits já conhecidos da drag, como “Parabéns (feat. Psirico)” e “Amor de Que”, a fome por novo conteúdo da popstar foi tão grande que levou hackers a vazarem a segunda parte do seu novo álbum, o que fez com que seu planejamento todo tenha sido adiantado em prol dos streams nas plataformas. Dessa vez, com o elenco de lendas como Ivete Sangalo e Thalía. As inéditas quatro faixas – além de “Clima Quente” que havia sido usada como single promocional da Coca-Cola, tá bom pra vocês? – fazem uma mistura do mundinho perturbador e delicioso da drag queen, cheia de referências ultra abrasileiradas e com uma cereja especial no bolo: sua dualidade artística entre ser uma estrela que abraça ritmos brasileiros ao mesmo tempo em que não deixa de convidar para sua festa outros ritmos e um sotaque espanhol caliente

Tímida (feat. Thalía)” e “Salvaje” são as únicas músicas em espanhol dessa leva, dando o tom ao início de carreira internacional de Pabllo. A primeira é delicioso PAGOFUNK – a junção do funk e do pagode – chiclete, com elementos de produções da Brabo Music que também estão nos maiores sucessos do gênero no país, onde a drag e a icônica “maria do bairro” afirmam que não são tímidas na intimidade. A surpresa de “Tímida” é ver como Pabllo Vittar encaixa-se perfeitamente com Thalía, uma lenda mexicana que se popularizou no brasil em meados das décadas de 1990 e 2000 por suas novelas televisionadas pelo SBT – na época a maior importadora de novelas do México. A drag que teve sua infância marcada por tantas influências que a tornaram complexa artisticamente, sem dúvidas foi ainda mais marcada pela dublagem brasileira de Thalía e a persona – que até hoje tem hits no seu país natal – que estava sempre protagonizando um drama mexicano. Já “Salvaje” se une à “Ponte Perra” onde parecem até que ocupam espaços de faixas que deveriam ser em português, mas que servem seu propósito muito bem em expandir o catálogo versátil da drag. 

Ponte Perra” e “Salvaje” são duas músicas fora da curva, faixas que fazem o ouvinte se questionar: será que eu realmente gostei disso? A resposta é muito óbvia, enquanto Pabllo se contém para um break alá pc music tomar conta de toda a estrutura da faixa na primeira, na segunda tudo começa em um piano suave que já dita o mood para os próximos dois minutos – aliás, duração máxima que o time da Pabllo parece conseguir alcançar. Tudo em “Salvaje” grita um pop criativo, onde ela continua repetindo que ela é uma “selvagem”, ela não perde suas características nem mesmo quando está fora da sua “mother-language”, e ainda nos serve uma paradinha no final com direito a bis do refrão. 

Mas nem só do espanhol se sustenta o elenco de músicas pop-cômico da drag queen – graças a deus. As parcerias com Jerry Smith e Ivete Sangalo, respectivamente “Clima Quente” e “Lovezinho”, replicam elementos do seu álbum anterior “Não Para Não” com extrema naturalidade, o que alavanca Pabllo Vittar para um “habitat” próprio onde ela sabe exatamente o que fazer e quando fazer com suas parcerias. Abraçando ritmos como axé, r&b, brega e funk, ela nos entrega parcerias dignas de dominar as rádios – se elas não fossem dominadas por homofóbicos que boicotam a drag a todo vapor. “Lovezinho” seria facilmente um hino do verão, com a voz do ícone do axé brasileiro que parece encaixar perfeitamente nessa faixa com um duplo sentido subliminar que só quem é muito perspicaz vai pegar. 

Mas nenhuma dessas faixas se compara a criatividade imensa, ao trabalho artístico avançado e à sagacidade de Maffalda, Rodrigo Gorky, Pablo Bispo e Zebuafalda que foram direto ao ponto com “Rajadão”. Já avisando previamente que sua missão enquanto artista é de sempre se reinventar, Pabllo Vittar não havia nos avisado que seria de forma tão gigantesca quando essa faixa de dois minutos e trinta e oito segundos. “Rajadão” começa exatamente como toda criança viada começou sua vida, religiosa, um hino, um louvor: “A previsão do tempo diz que o céu fechou / O poder da vitória vai curar a dor / O temporal agora vai cair em mim / A chuva da vitória vai reinar no fim”. E depois, como se já não bastasse, ela transforma esse culto em uma tempestade de benções transformando a gospel music em um trance pronto para ser exportado para as pistas de fritação, o que dialoga com a personalidade da drag. É Ana Paula Valadão remixando um dos seus louvores com “Carte Blanche” de Veracocha, não obstante cantando para seus fiéis.

Mesmo que muito perspicaz, enquanto obra completa, o “111” tem partes em que seu diálogo se encontra confuso, com interferência clara entre uma “seriedade” – se é que devemos falar isso de qualquer música do mundo – e o pop-cômico da drag queen. É engraçado como apenas ela poderia juntar Charli XCX e Psirico em um mesmo álbum, da mesma forma que uniu Thalía e Ivete Sangalo, mas “Flash Pose” parece não encontrar um diálogo tão claro com as outras faixas, é quase como se essa fosse uma tentativa da Brabo Music – que honestamente deveria ter sido deixada para outros produtores – de tentar alcançar a produção metálica de Charli. De qualquer maneira, a mistura que faz de Phabullo Rodrigues, A Pabllo Vittar, parece ser uma fórmula de um experimento perfeito, que pode ser abraçado por várias tribos sem medo algum.

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