Lady Gaga: The Fame Monster

Há 10 anos atrás, Lady Gaga lançava o EP que começaria o seu império pop sombrio.

Quando o pop havia achado sua nova messias, nós achávamos que dali nada mais poderia nos surpreender. Foi quando a mesma personagem lançava seu manifesto pop que tudo mudou: o EP “The Fame Monster” de Lady Gaga bebeu das fontes mais sombrias, recuperando referências de ícones esquecidos ao mesmo tempo em que colocava um novo pé na história da cultura pop que ainda estava por vir. Há 10 anos atrás, com seu pop nu e cru, Lady Gaga abria as portas do seu mundo obscuro da fama, mostrando estar caindo em suas próprias tentações, mas ninguém esperava que tais tentações fossem ser tão definidoras do que era e do que foi pop ao longo da década.

Mais irreverente do que nunca, Lady Gaga era vista como “a estranha”, não só pela suas roupas de alta costura, assinada pelos melhores designers norte-americanos e europeus, mas também pela gama de polêmicas que Gaga colecionava: ser hermafrodita, sangrar no meio do palco do VMAs, não merecer de fato tanto sucesso. Se com “The Fame”, a cantora que era “ninguém” no meio da indústria se tornava um nome de sucesso, com hits nas suas costas e músicas pop que literalmente salvaram a indústria na época em que foram lançadas, no “The Fame Monster”, a intérprete de “Bad Romance” resolveu mergulhar nos medos que a fama trás, e fez isso através de um pop infectado pelo europop, com um toque especial de synth. Em “The Fame”, Lady Gaga – que já foi acusada de ser o próprio satã em forma de cantora – assina um pacto com alguma força da escuridão para colocá-la no topo, e em “The Fame Monster” ela sofre todas as consequências de estar lá.

Lady Gaga se abre totalmente para seu público, explora em seu repertório músicas que expressam sua essência ao máximo. Era sobre o que ela costumava ser, e sobre o que o “monstro da fama” estava fazendo com ela. E não apenas “Lady Gaga”, mas também personagens icônicos da cultura pop: Marilyn Monroe, Judy Garland, ylvia Plath, JonBenét Ramsey, Liberace, Jesus Cristo, Stanley Kubrick e a Princesa Diana, figuras citadas em “Dance In The Dark”, a quarta faixa do álbum e uma das melhores da carreira da cantora, influenciada por uma guitarra eletrônica e um dark-pop oitentista que fazem uma sintonia perfeita ao lado da distorção na voz. Por trás da poesia de tudo, e dos monstros que a aterrorizavam, escondia-se na verdade uma jovem-adulta insegura com seus feitos, dançando no escuro e chorando por amores não correspondidos. Mesmo com 24 anos, Lady Gaga escrevia suas letras com a vivência equivalente de uma mulher feita na vida. A cantora era muito jovem para estar revolucionando o pop da maneira que estava, e muito magra para ser considerada uma mulher “desejável”, e muito estranha para preencher a lacuna de Britney Spears ou Madonna. No meio de tudo que os outros achavam sobre Gaga, ela desabrochou, criou seu próprio nicho e esse nicho se tornou o mainstream, olhando admirado para as produções e o alcance artístico que a própria tinha.

O “The Fame Monster” mostra Lady Gaga em sua melhor forma. Passeando pela estrada de acordes eletrônicos construída muitas vezes por ela ao lado de outros produtores como RedOne, Darkchild e Fernando Garibay, a cantora constrói seus maiores medos ao mesmo tempo em que desmitifica-os, um processo catártico envolto de sua voz que estava começando a ser um dos seus pontos fortes – diferente do que vimos hoje em dia, onde ela é sua maior aliada. Por vezes em estrofes muito faladas como “Teeth” que mesclavam essas duas alternativas, seu estrelato como uma estrela pop de músicas repletas de “spoken words” se consolidava ainda mais, numa maneira que nos fazia recordar de faixas de sua veterana, Madonna, ou de lançamentos da cena underground dos anos 80. Lady Gaga elevava seu alcance como estrela pop, para além de músicas “vazias” – mesmo que muito boas – sobre dinheiro e fama, para um mergulho dentro de sua própria vida. Por isso mesmo conhecemos a dona de um agudo espetacular, um indivíduo por baixo do sangue esparramado no palco, que canta sobre a morte de seu familiar com instrumentos de uma banda de rock ao fundo – “Speechless”.

De “Alejandro” até “So Happy I Could Die”, a estrela do pop que já indicava ser diferente das outras, confirmou as previsões. Servindo hits e faixas que seriam perpetuadas uma década depois de seu lançamento, Lady Gaga estendeu seu alcance, aumentou seu império e provou para todos que ser uma artista podia ser muito mais que finalizar uma demo. Abrindo-se para seu público, mostrando tudo que acontece dentro da sua cabeça, provando que ela pode redefinir o pop para além de apenas batidas “dance”, o “The Fame Monster” cria uma atmosfera transportadora, não exatamente para um filme de terror, mas para um mundo cheio de mistérios, rituais e clubes undergrounds que você nunca quer sair.