BICHAFORK: Pabllo Vittar – "111 – 1"

Pabllo Vittar em espanhol, e em inglês, brilha tanto quanto Pabllo Vittar em português.

7,3

Do brega-funk ao pc music espanhol, Pabllo Vittar segue sua agenda de reinvenções rítmicas. A drag queen que está no cenário musical desde 2017, deu suas primeiras empreitadas do que muitos chamam de “carreira internacional” ao deslanchar os trabalhos do seu novo álbum com a parceria de Charli XCX no single “Flash Pose”. Diferentemente do house metálico que mostrou no primeiro single, “111” resgata a característica principal que a personagem “Pabllo Vittar” colocou no mainstream brasileiro: uma junção de ritmos do nordeste, saudando suas origens, às referências que apenas um LGBTQ poderiam dar.

Muitos duvidavam do que sairia desse novo álbum da cantora, talvez pelo primeiro contato que tivemos ser muito longe da excelência musical que Pabllo vinha trazendo em seus últimos lançamentos. Confesso que antes mesmo de ver a tracklist, eu mesmo duvidei um pouco do que estava por vir. Não sabíamos se eram 3 musicas em idiomas diferentes e apenas uma em português – seu hit brega-funk com Psirico, “Parabéns” -, ou se todas viriam na mesma vibe de “Flash Pose”. Mas tudo foi clareado depois de uma entrevista onde a própria drag afirmou que seu álbum que seria dividido em duas partes, continuaria trazendo sua característica musical: ser um instrumento de referências brasileiras, de todos os estados.

Do MA chegando a LA, a primeira parte do “111” já abre com o single “Parabéns”, uma manobra muito bem pensada pela equipe da drag e por ela, já que o nome do álbum diz respeito à data de aniversário da artista – 1 de novembro. Seu brega-funk com a inusitada participação de Psirico, um nome bastante famoso na região do Nordeste por seu sucesso nos anos 1990 e começo de 2000, tem toda essência de “Pabllo Vittar” embalada em uma faixa de menos de 3 minutos. A música que abraça a nova febre do nordeste, o brega-funk, não poderia deixar de fora toda a sagacidade humorística da drag com suas frases de efeito enquanto Psirico repete a primeira estrofe. “Parabéns” soa como algo novo, algo que embalaria não só os seus fãs mas também muitos outros que só ouviriam um “anúncio” do spotify e correriam pra procurar. O refrão grudento é grande catalisador de uma gama de pessoas que escutariam a faixa só por ele.

O novo álbum de Pabllo também significa uma nova faceta para a estrela drag, o “funk” mesmo sendo um ritmo muito abraçado pela música drag brasileira, pouco teve destaque dentro da carreira de Pabllo. O “111”, como a própria disse, vai fundo nas raízes da cantora e a traz para um panorama atual e inovador, isso porque muitas faixas combinam perfeitamente com as facetas da drag. Desde quando era conhecida por suas paródias humorísticas, Pabllo Vittar fez do gênero forró, um espaço confortável onde ela poderia transitar tranquilamente. “Amor de que” nos refresca a memória sobre isso. Conversando com seu prometido sobre ter um tipo de amor diferente, Vittar cai nas composições tipicamente do nordeste onde esses temas são mais comum do que imaginamos. O paradoxo na faixa é a presença do “eu-lírico” ser na verdade uma mulher, muitas das composições do forró dessa temática sempre vem de homens, e a drag adiciona um twist muito interessante. Claro que Brabo Music, o time de produção da Pabllo que esteve presente até em uma música da Charli XCX, entra com um mecanismo atmosférico transportador nos colocando em uma noite de verão, com apenas uma caixa de som e um microfone onde vemos Pabllo cantar.

Os ritmos do “111”, pelo menos na primeira parte, tendem a mostrar a drag em suas variadas facetas, mesmo que ela se encontre mais em ritmos brasileiros do que “norte-americanos”. Deve ser por isso que “Ponte Perra” foge completamente do reggaeton datado que andamos escutando nas maiores paradas da América Latina, ou dos que estão sendo produzidos por estrelas brasileiras que acabam deturpando completamente o brilho, e a unicidade, das próprias. A música que concretiza a ideia do “111” ser um álbum trilíngue, traz uma produção da Brabo Music fugindo completamente dos seus parâmetros, algo que poderia estar nos álbuns de artistas da cena Pc Music, ou produções da SOPHIE. A batida metálica unida ao espanhol “caliente” de Pabllo, ditam o tom da faixa que fecha a primeira parte do seu álbum muito bem. Mesmo assim, não posso deixar de notar como a moda da “fast music” tem ficado cada vez mais intensa no Brasil. Antes, músicas que repetiam as estrofes e prolongavam sua duração, tinham no mínimo 3 longos intensos minutos. Em 2019, parece que a cada lançamento a duração “padrão” tem ficado cada vez mais curta. A música mais duradoura da drag queen tem menos de 2 minutos e 40 segundos, uma pena para quem realmente a aprecia e quer ver mais das produções da Brabo Music, parece que em alguns momentos eles não conseguem decifrar para onde ir e acabam pegando o caminho mais curto: finalizando a faixa. Para muitos esse pode não ser um problema crucial, mas em alguns momentos isso fica cansativo, a ponto de sabermos que a faixa foi feita para as plataformas de streaming onde conhecemos muito bem o flood de reproduções.

Independentemente de qual lugar do mundo ela estiver, Pabllo Vittar deixa claro que suas raízes continuarão sendo enaltecidas, e aquele menino gay do nordeste vai brilhar intensamente em qualquer idioma. A drag queen não perde sua característica em nenhum ritmo, sempre se adaptando e mostrando seu melhor, provando que nada pode apagar o que a colocou aqui em primeiro lugar: seu carisma. Seja nas melismas, ou nos agudos, ou até mesmo durante as frases faladas entre refrões, sua música sempre nos lembra quem ela é e mais importante, que uma drag queen é um dos maiores nomes do pop no país que mais mata LGBTQs.