Coringa é uma reinvenção dos blockbusters de super-heróis

Incel é uma referência a membros de uma subcultura norte-americana online que se definem incapazes de encontrar um parceiro romântico ou sexual, apesar de desejarem terem outras pessoas para o ato. O famoso “incel” ou celibato involuntário, também parte do princípio brasileiro descrito como “criado por mãe”, meninos que nunca atingiram a masculinização desejada imposta pela sociedade. “Coringa” nada tem a ver com essas pré-definições, na verdade, o vilão renomado da DC Comics em seu primeiro filme solo foge de qualquer pré-definição tentando encontrar sua própria significância no meio de uma cidade entregue à violência. Os “incels” são parte de um movimento quase de extrema direita, e Joaquin Phoenix discursando na TV ao vivo sobre como Gotham – cidade fictícia conhecida por todos os amantes de Batman – vira as costas para você se você for pobre, não tem nada disso.

Coringa, do diretor Todd Phillips, é uma história original e fictícia sobre o icônico vilão nunca antes vista no cinema. A versão de Phillips sobre Arthur Fleck, interpretado de maneira memorável por Joaquin Phoenix, mostra um homem lutando para se integrar à sociedade despedaçada de Gotham. Trabalhando como palhaço durante o dia, ele tenta a sorte como comediante de stand-up à noite… mas descobre que a piada é sempre ele mesmo. Preso em uma existência cíclica, oscilando entre a realidade e a loucura, Arthur toma uma decisão equivocada que causa uma reação em cadeia, com consequências cada vez mais graves e letais, nesta exploração ousada do personagem.

Ao invés de ser um conto sobre até onde os “incels” podem chegar, “Coringa” de Todd Philips pode ser mais encarado como uma nova fábula sobre o impacto de uma arma na vida de uma pessoa mentalmente despreparada para isso. O ousado roteiro de Scott Silver – o mesmo do indicado 7 vezes ao oscar “O Vencedor” – ao lado do próprio diretor levam o personagem em lugares interessantes de serem explorados. Para os apaixonados pelo vigilante de Gotham, essa é uma história nunca vista antes, onde a reinvenção dessa onda de blockbusters super-heroicos aparece tão brilhante quando a maquiagem branca na face de Arthur Fleck (Joaquin Phoenix). O filme, que não é para crianças, mostra o quão violenta uma cidade em crise pode ser, e como as pessoas que são abandonadas pelo seu governo acabam se agarrando ao primeiro feixe de esperança presente, adotam seus símbolos e agem da maneira moralmente correta para eles, até o momento onde são chamados de palhaços e vestem, definitivamente, essa máscara, no metrô de Gotham e em frente à prédios importantes.

O filme “Coringa” não tem nada do que os justiceiros sociais chamariam de “problemático”, na realidade, parece até injusto quando esses rumores foram apontados por várias pessoas. Sabemos que o personagem em si, representa tudo de ruim e ele é um psicopata, com um relacionamento abusivo com uma personagem querida dentro das HQs. Mas aqui, nessas duas horas de duração, Arthur Fleck é uma pessoa comum, vítima de suas próprias ações que vão desencadeando eventos ainda mais fortes. Em momento nenhum Todd Philips dá a entender que tudo que ele faz, ou que ele incita, está correto. Na realidade, em todo momento há um embate moral entre personagens e o próprio Coringa, onde eles mesmos repreendem suas ações. Além do antagonista se abster de qualquer manifestação política, dizendo abertamente que ele não acredita em nada daquilo. Todos estavam aqui batendo palmas para o Heath Ledger quando ele interpretou seu “Coringa”, e por ser uma história de origem, Joaquin Phoenix faz um trabalho ainda melhor ao explorar a conturbada mente do personagem e seus distúrbios – que são responsavelmente tratados como tal.

Violento, visceral e cru, “Coringa” não poupa seus momentos de puro gore, onde há sangue espalhado em sua maquiagem de palhaço ou na parede de um vagão do metrô. O mais assustador na história são os momentos onde nos deparamos com um movimento repentino do personagem. Também poderia dizer um pouco de algumas cenas que são editadas tal qual cenas de um clipe musical de super heróis, mas para além disso, “Coringa” pega a cultura contemporânea de adaptações cinematográficas e coloca em uma nova roupagem, se afastando de qualquer clichê e sendo, em sua maioria do tempo, quase que um começo de uma nova tendência de outros lados da história unilateral do “lado bom”.

Todd Philips explora muito bem a violência de Gotham, personifica-a em uma imagem e mostra muito explicitamente o começo de uma história trágica, do que viria a ser um chefe do crime. “Coringa” fala principalmente da importância de políticas públicas decentes, de imagens políticas que não nos façam de palhaços. O filme estreia dia 3 de outubro em todos os cinemas do Brasil.