Midsommar traz luz ao horror folk

Quando um vaso se quebra na sua frente, os segundos entre sua queda e o seu estado passado são aqueles que mais contam para os eventos póstumos. O vaso em questão, pode não ter seu valor prescrito em cima de uma mesa, sendo usado de forma decorativa, seu valor sentimental é ditado pelas gerações de digitais que são impressas nele, dos momentos que todos ao seu redor viveram enquanto ele estava ali, e tudo isso vem ao conjunto quando tal objeto está prestes a se quebrar. Em “Midsommar”, nos deparamos com todo o processo da queda do vaso, do seu princípio afetivo, até o momento em que o que sobrou para nós foram meros pedaços. Encabeçada por um terror antropológico – uma nova tendência holywoodiana -, a obra, que tem sua estreia marcada para 19 de setembro, usa e abusa do “prestes a acontecer”, usufruindo da expectativa para os novos processos que vão vir como sua ferramenta, prendendo qualquer um na trama imagética de ocultismo, transportando qualquer um para a atmosfera “mística” que as grandes árvores suecas escondem durante o verão.

Repaginando o que realmente o “folk horror” para uma nova década de glória, Ari Aster nos leva para uma remota vila sueca, acompanhando a viagem de Dani (Florence Pugh) e Christian (Jack Reynor). Comprometidos há 3 anos e meio, ou 4 anos – vocês entenderão quando verem -, o casal se depara com o relacionamento desmoronando cada vez mais, consumindo um ao outro em uma dinâmica cheia de questões duvidosas. Unidos por uma tragédia que destrói a família de Dani, a universitária, que ainda passa por um processo de luto, convida-se para a viagem de seu namorado e seus amigos universitários. O que parecia ser um simples passeio, começa a ficar cada vez mais estranho cada passo que damos para dentro do vilarejo sueco, onde seus moradores pacatos à cada segundo se tornam ainda mais bizarros. Gradualmente, as aventuras do grupo de terror quase-clichê – a loira, o galã, o único personagem negro – vão se tornando viscerais, perturbadoras e esteticamente lindas. Surge da mente de Ari Aster um conto de fadas sobrenatural, em um local onde o brilho das manhãs é quase que eterno pois o sol nunca se põe.

Além de todas as coisas que “Midsommar” é de ruim, ele é muito maior nas suas qualidades. Quando chegamos no destino de nossa viagem, na primeira vez, é como mergulhar dentro de uma etnografia e passar horas estudando-a. O sistema é detalhado, o mundo sobrenatural de Ari Aster é exposto pedaço por pedaço, e a relação que a personagem principal tem com ele é quase assustadora. Ela assiste tudo como terceira pessoa, e dessa forma o mundo parece ser muito mais fácil para ela. Mas assim como o luto pelo qual ela está passando, o sentimento de “perda” não pode ficar sempre à nossa margem, em alguns momentos ele vem correndo em forma de um reflexo mal visto no canto do banheiro iluminado pelo fogo manso de uma tocha, ou como um martelo opressor que vê nossos miolos e não se satisfaz com apenas aquilo. “Midsommar” por muitas vezes é a “espera”, a espera de que tudo vai passar, de que esse sentimento não vai mais estar aqui e que essas substâncias alucinógenas vão nos fazer melhor – elemento muito usado durante o longa -, por nos tirarem de órbita, nos colocando no meio de uma sociedade “hippie”, mas quando a cratera por baixo disso é revelada, é feia, mal cuidada e sufocada. Por isso que muitos podem achar que o filme não alcançou um objetivo tão alto quanto “Hereditário”, mas diferentemente desse, o último longa de Ari Aster é o pico do “folk horror”, o ponto mais alto que a nova onda de terror poderia alcançar, é agoniante na medida certa e pode te fazer pensar por muito tempo que ele não vai a lugar algum.

O filme não peca em nos mostrar detalhadamente como é feito uma “etnografia”, ou o trabalho escrito feito por um antropólogo. Na realidade, ele mostra tão bem que nos transporta até para maneiras de fazer coisas tão simplórias mais explícitas do que gostaríamos, como um chá de cogumelos ou uma mistura qualquer, além dos seus efeitos vomitados na tela. “Midsommar” se cobre de uma ambiguidade muito característica, do que queremos ou não queremos ver, de onde podemos chegar e onde podemos adquirir certas informações. Nesse quesito, alguns podem pensar que certas coisas estão sendo privadas de nós por não terem explicação no roteiro, mas a verdade absoluta é que Ari Aster nos mostra o que precisamos para entender o papel de cada um ali dentro, em quesito de “worldbuilding” ele faz o possível e o impossível para transportar o telespectador para o ensolarado campo sueco, mas nos atiça quando mostra vários elementos que não podem ser ultrapassados por nossa mente – ou pelos personagens que estão dentro do longa. “Midsommar”, como as substâncias presentes nele, é a confirmação de todo fato ao mesmo tempo que é a negação dele, “eu fiz isso?”, “o dia já passou?”, “eu vi aquilo mesmo?”, e quanto mais nos aprofundamos na sociedade construída ali, mais ficamos sem saber do que se trata aquelas montanhas que estão lentamente se distorcendo – efeito da famosa erva medicinal ou dos raios solares?

E o tempo inteiro estamos acompanhando a trajetória de uma heroína. Por mais que não seja 100% focado em Dani, a história inicia, se desenvolve e termina nela. Estamos vendo o seu desenrolar e amadurecer e principalmente a sua libertação em forma de narrativa. Tudo o que vai acontecendo é intrínseco a isso e faz jus a sua jornada e deixa o final do filme ainda mais poético. Dani sofre a todo momento, seja com seu relacionamento fadado a desgraça, com sua tragédia familiar ou com os costumes suecos que a deixam em um estado completamente ansioso e a beira de um surto nervoso. É daí que ela tira forças para entender o que há de errado com ela e como ela deve fazer para mudar isso. Nada disso seria possível sem a força de Florence Pugh, que cativa com sua Dani e é extremamente paupável e consegue carregar nas costas um papel pesado e cheio de nuances narrativas. Se Midsommar é 50% do que é, é por causa de Pugh.

A versão de cinema do filme é completa e redondinha e faz jus a todo o hype dado a Midsommar. Vale a pena assistir na telona e se desligar de tudo e abraçar todos os costumes suecos bizarros que vão aparecendo na tela de tempos em tempos.