Camila Cabello canta sobre amores reprimidos em "Shameless" e "Liar"

Romance sempre vem de várias formas, de várias interpretações e de acordo com diferentes atos. Camila Cabello mostra, em sua nova empreitada de lançar um single duplo, como ela quer que o público que a acompanha leia as diferentes formas de um “romance”. “Shameless”, a faixa desinibida – que ganhou até um clipe -, segue uma premissa “sem vergonha” onde um par assuma que o sentimento sondando-os é o amor, e que eles querem viver essa história juntos, muito diferente do que ela tem feito na carreira até então, nos remetendo um pouco do álbum descartado no início de sua trajetória, a faixa é sustentada por uma guitarra sufocada, implorando para estourar a qualquer momento, mas que dá espaço para outros acordes se unirem. Já em “Liar”, conseguimos ver que a cantora nomeada ao Grammy de “Pop Vocal”, segue viva em sua estética latina onde ao mesmo tempo que consegue negar os sentimentos por uma pessoa, ela mostra que o interesse só cresce dentro dela.

Mesmo que com menos de 5 anos na carreira solo, sua jornada tem histórias de um espectro gigantesco entre escolher a opção artística e o que rende comercialmente.. “Havana” foi um smash hit gigantesco, mas que reformulou tudo que Cabello seria enquanto artista – pelo menos na época -, todo seu álbum foi descartado e um novo trabalho tomou a frente. “Shameless” é basicamente uma evolução da Camila descartada. A dualidade que a segue até hoje continua firme e forte, seu “pop rock” orgânico e “cru” durante a faixa, reproduzido por um baixo abafado ao lado de acordes de guitarra típicos das produções do quarteto “The Monsters & Strangerz”, não esconde o r&b alternativo quase copiado de uma faixa rejeitada da cantora BANKS. A esque de “Shameless” é um pop-rock sujo quase como uma cobra que se rasteja no chão ao ouvir a rouquidão atípica de Cabello – um aspecto que não esperava ver até muitos anos após o início de sua carreira -, convidando o ouvinte à viver um romance proibido, desinibido, onde um precisa mais do outro do que ele realmente quer. A composição aponta para um jogo de duas faces, onde a intérprete tenta negar suas emoções “nuas” que vão crescendo gradualmente durante a nutrição do sentimento dentro dela, além de nos direcionar para uma bridge atmosférica quase-mística, nos fazendo pensar o que há de realmente proibido nesse mundo de romance – nome do novo álbum da cantora.

Em “Liar”, a Camila Cabello de “Havana” renasce mais uma vez. A faixa é um pop despretensioso, mas que por vezes chega a ser “genérica”. Seu tingimento jazz até pode disfarçar o que ela realmente é, assim como as palminhas flamencas que nos remetem à ROSALÍA, mas sua composição e seus elementos não deixam a música ter um “q” diferente como o de “Shameless”. Aqui Cabello está interessada em fazer um jogo de sedução, onde até seu sotaque muda um pouco para a “repaginada” latina de sua carreira, mostrando que não importa as circunstâncias que ambos estão atualmente, ela quer agora e ela vai conseguir. Sustentada por um saxofone – o ponto alto da faixa -, a produção do mesmo time do outro single não consegue sair muito bem do que ela fez até agora, e claro que entendo a importância de se manter fiel às suas raízes, mas em “Liar”, Camila Cabello não nos remete à mesma “inovadora” de “Havana”, é um “jazz-pop” latino com um tom de reggaeton cansado.

Seguindo por esses rumos, talvez Camila Cabello siga firme nesse “mundo de Romance” para apresentar vários lados do que pode ser uma história de amor, e os rumos que uma pode tomar. Sempre servindo um pop mais comercial, e o outro em que ela parece estar se identificando no momento, se distanciando cada vez mais do seu passado obscuro no grupo Fifth Harmony.