Era Uma Vez em Hollywood É um filme de Tarantino

O ano é 1969 e estamos no fim da era de ouro de Hollywood. Esse é o cenário estabelecido em Era Uma Vez em Hollywood, o mais novo filme de Quentin Tarantino, sendo esse o 9º de sua carreira. O filme, que serve como uma carta de amor a esse período de Hollywood, conta a história de um ator de TV famoso dos anos 50 (interpretado por Leonardo DiCaprio) tentando reviver seus anos de glória, o seu dublê e fiel camarada (interpretado por Brad Pitt) e como a vida dos dois acaba se cruzando com o culto que era liderado por Charles Manson e os assassinatos que eles cometeram na época, sendo o de Sharon Tate (intepretada por Margot Robbie) um dos principais deles.

O filme de Tarantino não é nem de longe um filme ruim, mas as suas falhas se espalham ao longo de seus 160 minutos de duração, que acabam sendo completamente excessivo no fim das contas e tornam a experiência um pouco menos agradável do que deveria ter sido. A montagem do filme, também, soa como um episódio de Family Guy, o que não é um elogio aqui, já que é completamente all over the place. Há uma história aqui que está sendo contada mas que não parece querer nos dizer nada exatamente e possui completa intenção de uni-la com os assassinatos da família Manson para poder falar sobre isso de uma forma que não fique tão “na cara” e não pareça tão exploratório como filmes como The Haunting of Sharon Tate, em que Hilary Duff interpreta uma versão completamente ficcional de Tate em que os eventos foram reimaginados para dar um plot a um filme de terror.

O maior problema aqui, no entanto, é que Tarantino parece não saber como trabalhar com suas personagens. Rick Dalton, Cliff Booth e Sharon Tate são imprescindíveis para a trama e a distribuição de tela é desigual. Por mais que estejamos acompanhando, no fim das contas, a historia de Rick (que é intrínseca a historia de Cliff e se mistura com a de Sharon), não é justificativa o suficiente para que sua personagem feminina de maior relevância seja quase muda. Vemos muito de Sharon mas não a ouvimos. E com Rick e Cliff há uma dinâmica muito boa que merecia muito mais espaço do que teve. Dicaprio e Pitt estão ótimos por si só mas estão melhores ainda quando dividem a cena e podemos observar quão diferentes suas personagens são, mesmo que um seja dublê do outro.

Se não bastasse isso, as outras personagens inseridas na trama muito mais parecem como cameos de celebridades (ou filhas de celebridades, como foi reportado que 4 atrizes contratadas são filhas de gente influente na indústria em uma excelente materia sobre nepotismo em Hollywood) do que personagens de verdade. Vemos alguns rostos conhecidos aqui e ali durante as cenas mas não nos parecem querer dizer nada, por mais que sejam pessoas igualmente importantes para a trama.

OS PARAGRAFOS A SEGUIR CONTEM SPOILERS

O que mais incomoda, no entanto, são pequenas coisas que envolvem o tratamento distinto que Tarantino dá a seus personagens e a forma como ele os separa entre quem ele quer que o público goste e quem ele quer que o público deteste. Centrando-se num acontecimento marcante e violento a uma mulher, que é a morte de Sharon Tate, que o filme ganha a vida, não importa o que venha antes ou o que a narrativa esteja tentando mostrar. Tudo que está na tela levará à morte de Sharon Tate e isso é um fato.

A conclusão do terceiro ato é extremamente violenta e muito dessa violência representada no filme é, além de fantasiosa, porque representa algo que não condiz com a realidade dos criminosos, extremamente violenta com mulheres. Uma delas tem seu crânio esmagado e a outra é queimada viva. Por mais que as duas sejam representadas como vilãs dessa história, por serem da família Manson, esse tipo de misoginia é expressa em filmes de Tarantino desde que o mundo é mundo mas aqui parece vir de uma maneira ainda mais desnecessária do que antes. O personagem de Brad Pitt é visto como um mocinho, por mais que tenha matado a sua mulher e se safado dessa e o filme o vanglorie por ter feito isso. Ele derrota uma versão caricata de Bruce Lee como se fosse brincadeira de criança e somos convidados a torcer pelo personagem mesmo com tudo isso acontecendo e quando ele derrota essas duas mulheres dessa forma tão grotesca somos novamente convidados a aplaudir tudo que está em cena. É podre pensar por esse ângulo e ver como a percepção dos fatos, na visão de Tarantino, é manipuladora a favor da realidade que ele procura colocar em tela e faz com que esse tipo de violência gratuita seja motivo de comemoração, no final das contas. Por mais que, no fim de tudo, saibamos onde tudo irá acabar: na morte de Sharon Tate.

No mais, como dito anteriormente, não é um filme ruim, apenas não possui uma real intenção além de querer chocar. Estreia hoje, dia 15, nos cinemas de todo o Brasil.