O revolucionário rap feminino: como rappers negras estão mudando o mainstream

O ano é 2002, Missy Elliot e Lil Kim são nomes extremamente requisitados na música pop, a indústria ama o rap – sempre amou -, e por quê não ter nomes de duas mulheres empoderadas entre os colaboradores do seu álbum de sucesso? Mas nada disso foi permanente. Aquelas músicas que tocavam no top 10 de algum programa da MTV, ou até mesmo na vh1 hits, onde Lil Kim entregava seus versos magníficos em uma colaboração entre outras 3 cantoras de sucesso – alô Lady Marmalade -, foram pouco a pouco sendo substituídas por homens do mesmo nicho ou outros novos nomes que gradualmente iam deixando seu marco na mesma indústria. Claro que alguns dos nomes de sucesso de antigamente continuam sendo notadas na atualidade, mas por um bom momento, a mídia deixou de receber essas cantoras causando uma escassez imensa que só foi ser suprida no início da década de 2010.

Com uma entrada estrondosa no mercado, Nicki Minaj revolucionou – de certa forma – a maneira como estávamos tratando suas parceiras de gênero, e por tabela, revolucionou também o mercado da época. Seu nome estava/está ao lado de outros gigantes da indústria como Beyoncé, Kanye West e até mesmo Alicia Keys. A Nicki Minaj era a grande aposta de sua gravadora – o selo Young Money do Lil Wayne, palavras que ela grita em suas músicas até hoje – e eles não estavam errados. Afinal, depois de uma grande seca no nicho de rappers femininas, Nicki Minaj estava ali para suprir toda essa falta. Era quase como um monopólio musical, a barbie do rap estava tanto ali quanto aqui, e em alguns momentos até se perdia nas viagens entre o rap e pop que ela fazia ao longo de seus primeiros discos. Mesmo assim, hits como “Super Bass” e “Starships” elevaram seu nome à um novo patamar, e naquele instante, em meados de 2012, Nicki Minaj era A sensação do rap. Com todos os prós e contras sobre a personalidade da artista, ou até mesmo suas escolhas duvidosas ao longo desses anos de “reinado”, seu império acabou sendo deixado para trás. Mais uma vez o mainstream achava uma nova obsessão e o rap feminino era deixado de lado.

O irônico, e trágico, de toda essa história, é perceber que ao mesmo tempo que essa segunda leva do rap feminino veio e foi tão rápido, o rap interpretado por vozes masculinas continuou se perpetuando cada vez mais, até ao ponto de termos artistas assim que dominam as plataformas de streaming cada vez mais, quebrando recordes de nomes lendários como o da banda “Beatles”. É sempre mais difícil para as mulheres, e infelizmente o mundo do rap é completamente dominado por essas figuras masculinas que acabam trazendo a mesma música, o mesmo ritmo e os mesmos conceitos. Seguindo essa premissa, Nicki Minaj não é mais a mesma de 2012, ela não tem tantos hits quanto antes mesmo que seu nome continue aparecendo uma vez ou outra – assim como o de Missy Elliot.

A nova leva de rappers se resume em uma palavra: diversidade. A pluralidade do mercado nesse momento se fez a partir de hits virais e as já citadas plataformas de streaming, mas também com o movimento de progressismo que continua fortíssimo na juventude atual que consome essas faixas. Todo mundo alguma vez já dançou dublando as palavras agressivas de Cardi B em “Bodak Yellow”, a música que definitivamente definiu o ano de 2018 por várias semanas consecutivas no topo das paradas, com um vídeo que já está perto da marca de 1 bilhão de visualizações – e muitas delas é de vocês que estão lendo. Becalis Marlenis Almanzar é vítima de várias críticas, do racismo velado da indústria, ainda mais por ter um passado como stripper, mas a ativista social engajada com várias outras causas lidera essa nova leva, ao lado de outras artistas que andam lado a lado com a hitmaker, colocando várias de suas músicas no top 5 da Billboard, e protagonizando até mesmo um pequeno “feud” com Nicki Minaj – prova que a mídia mainstream ao menos está de olho na mesma e seu impacto cultural já foi notado. Grammys, vendas e outros aspectos que seguem vindo, Cardi B é uma força na cultura mainstream, e uma responsável por colocar o rap feminino em voga outra vez. Mas a pluralridade dessa nova leva não é somente mérito de Cardi B, afinal esse aspecto vem em todos os sentidos, o que significa muitas coisas quando temos o nome Lizzo na jogada.

Imagine uma menina gorda, negra e periférica dos Estados Unidos, com os olhos brilhando ao ver Lizzo vestida de noiva, muito igual à performance icônica onde Britney Spears e Christina Aguileira – brancas e magras – se beijam no palco do VMAs, tocando sua flauta na forma mais empoderada possível, soltando sua voz depois de cuspir vários versos incríveis de um sleeper hit que só está tendo reconhecimento agora. Essa é a nova mensagem das rappers, ou pelo menos dessa rapper em questão. Seu álbum “Cuz I Love You” é um manifesto sonoro, cheio de ressignificações, empoderamento e o talento da artista que por vezes atinge notas altíssimas, mas mostra para todos que seu rap é de respeito. Muitas pessoas podem não compactuar com os ideais de Lizzo, ou podem encher a caixa de comentários do youtube com coisas insignificantes, mas o mainstream já pegou Lizzo para cuidar, continuar crescendo e a gata demanda que seu espaço seja ali, entre todas as celebs magras que dominaram a indústria por anos. Muitos podem até odiar a ideia de que ela seja uma das representantes dessa nova era de rappers, mas todos vão se pegar cantando “Juice” até não aguentar mais.

O mais importante dessa nova leva é que não temos apenas um nome representante do rapper feminino. A indústria e seu racismo velado, terão que abrir espaços para mulheres negras que estão o tempo todo ressignifcando seus espaços dentro desses meios, e até mesmo trazendo de volta nomes que já estiveram em alta. Megan Thee Stallion, uma das próximas sensações do rap, recentemente lançou a música “Hot Girl Summer”, contando com a participação de Nicki Minaj, o que verifica à rapper uma certa confiança para o público, já que a veterana era uma das únicas da sua época, da mesma maneira que Lizzo tem uma faixa ao lado de Missy Elliot. Megan por sua vez, ainda está fazendo pouco barulho, mas as apostas na gatinha do rap são grandes, já que ela lançou seu primeiro álbum oficial agora, e uma de suas músicas antigas “Big Ole Freak”, vem se tornando um viral na internet.

Independentemente do que acontecer, é importante que o público apoie esses novos nomes para que uma nova geração se levante e faça o mesmo. Lizzo, Cardi B e Megan Thee Stallion seguem ao lado de muitas outras que há décadas atrás não tiveram o reconhecimento merecido, diversificando o rap feminino cada vez mais e disputando frente à frente com os homens dominantes do gênero. Cada vez mais, os charts, as paradas, os canais de TV e as parcerias musicais, contam com esses novos nomes, pavimentando o caminho cada vez mais para que outras artistas negras se inspirem e se sintam contempladas a fazerem o mesmo.