Euphoria: A adolescência proibida para menores de dezoito anos.

Se conhecendo através de algum aplicativo de relacionamento e xaveco, “Sharp Objects” (HBO) e “Skins” (Canal E4, da Inglaterra) tiveram um filho, numa relação extraconjugal onde “Heathers” (o filme de patricinhas maldosas original, dos anos 80) é o parceiro traído. O filho, herdando o senso de moda e a propensão genética ao uso de drogas de seus pais, é “Euphoria”, nova série do canal HBO, estrelada pela querida – e já icônica – Zendaya.

A acompanhando na salada mista de drama e psicodelia estão outros jovens atores e atrizes, encarnando personagens no auge de sua vida classe-média-suburbana, completamente na contramão de todos os conselhos paternos de moral e bons costumes. A premissa se assemelha, de fato, à série britânica de jovens boca-suja, “Skins”, que se estendeu de 2007 a 2013, e foi justamente essa a primeira impressão quando divulgadas as primeiras prévias da nova empreitada norte-americana. Entretanto, a narrativa agora se encontra não apenas numa diferente época visual, mas também imersa em outra geração.

Ambos os parâmetros – o visual e o geracional – posicionam “Euphoria” num ponto diferente, passível de semelhanças, mas não de ligações propriamente diretas com seu predecessor do arquétipo rebeldes-sem-causa. Aqui, assistimos a propostas estéticas que se aproximam do gênero art house de projetos midiáticos mais recentes (o dedo da produtora A24 metido no projeto nos confirma, responsável por “Hereditário”, “Spring Breakers”, “Moonlight”, entre outros), e acompanhamos adolescentes com um acesso muito maior à aplicativos de celular – e vivendo de maneira muito mais influenciada por eles, também.

Euphoria”, originalmente exibida em Israel no mesmo formato seriado, mas sem grandes impactos por si só nessa primeira versão, retrata os tragos, goles e injeções para além do seu consumo – algo que “Skins” fez, mas, honestamente? Não muito. A série atual não se acanhou do behind the scenes por vezes despercebido em produções do mesmo naipe. De onde vem, e quem produz, a droga que você consome ao som de mais um hit trap da internet? O que acontece quando a realidade te alcança em uma overdose? Quem fica pra trás, e quem tenta seguir como pode, em meio aos restolhos de mais uma festa? A personagem de Zendaya, Rue, uma viciada em drogas em recuperação, não deixa que o foco expositivo da série se perca.

Ao longo de sua temporada, “Euphoria” não se privou dos vômitos e gritos e abusos, e mostrou as quedas tanto quanto o glitter. Tal essência crítica a respeito do próprio tema que aborda não é inédita numa produção audiovisual. Lembremos de trabalhos como “Pânico”, slasher clássico de Wes Craven, e o mais recente “The Bling Ring”, de Sophia Coppola, que trazem aos holofotes, sem perder o apelo estético muito conscientes de si mesmos, os resultados de uma cultura pop que se revela mais capitalismo que produção cultural, permeada de violência, inseguranças, fachadas e hipocrisias – tudo embalado e endereçado para a geração que a consome: nós, seus frutos.

Entre corredores que giram no melhor estilo “no tears left to cry”, homossexuais sigilosos fora do meio, tutoriais de maquiagem diretamente do ano 3099 e uma consistente mensagem de alerta ao que parece perfeito (sem soar como um sermão que não daríamos atenção), “Euphoria” já galga logo em sua primeira temporada uma audiência fiel, que captou sua proposta e está mais do que satisfeita em consumir seu conteúdo semanalmente, embalados por muitas luzes e trilha sonora produzida pelo rapper Labrinth. A série já está, inclusive, renovada para o seu segundo ano.

Euphoria” vai ao ar todo domingo, no horário nobre do canal, em toda sua glória transgressora e emmy material.

TEXTO PELO COLABORADOR GABRIEL FOLENA, @FOLENODRAMA