TRACK REVIEW: ITZY – ICY

Enquanto um sem-número de grupos da segunda geração do K-pop usou e abusou da imagem de garotas más e do não-muito-claro conceito “girl crush”, sempre lançando faixas poderosas e visuais extremamente chamativos, essa tendência foi enfraquecendo cada vez mais à medida que o K-pop se renovava e ganhava ampla notoriedade internacional. Grupos femininos com visuais expansivos e atitude pseudo-subversiva começaram a dar lugar a visuais mais limpos e sonoridades que abraçavam o pop-idol retrô noventista ou o bubblegum pop, tudo com uma embalagem de frescor e inocência que praticamente se tornou a regra para o recorte feminino da indústria sul-coreana a partir de 2015.

Claro que uma ou outra girlband continuou trabalhando no girl crush, uma aposta que passou a ser certeira ou errônea, sem meios termos: ou o grupo se destacava totalmente por fazer algo fora da curva, ou era engolido pela onda quase interminável de visuais clean e música de playground. O ponto de reclamação é que realmente nenhum grupo “contra-tendência” serviu um conceito girl crush bem desenvolvido, ainda mais se considerarmos que o grupo mais poderoso que carregou essa bandeira foi justamente o BLACKPINK, com suas faixas reprováveis e ideias derivativas. Eventualmente o ITZY surgiu para mudar esse cenário, sendo a primeira aventura da JYP Entertainment com um grupo totalmente voltado a um conceito poderoso e com possibilidades de renovar o estilo e expandir suas limitações no atual momento do K-pop. Enquanto eu não me impressionei muito com a estreia delas em fevereiro com “DALLA DALLA” (uma faixa divisiva e que nem sequer ganhou review aqui no blog dada a decepção), o primeiro comeback delas com “ICY” renovou a esperança de que grupos femininos focados no poder de impacto possam voltar a ficar em voga.

Englobando um som que é mais “fluido” que o lançamento anterior, “ICY” é um número que inicia de forma meio “funky”, abrindo com um slap-bass e ganhando elementos ao longo de sua construção – que considera conquistar os ouvintes de forma mais progressiva e gradual, algo diferente da proposta de grande impacto inicial utilizada em “DALLA DALLA”. Apesar de suas divergências em relação ao debut das garotas, “ICY” também possui suas semelhanças com o famigerado single, especialmente pelo fato de que ela é uma música cheia de “quebras”, com os versos sendo quebrados para um build up (icônico por sinal) com os ótimos vocais da Lia e Yeji e que depois também é quebrado em um refrão que mais parece um break e soa disfuncional e grudento ao mesmo tempo, envolvido por uma batida EDM metálica e vocais entoando uma composição recortada e espaçada. Apesar dessas quebras, após algumas ouvidas fica fácil perceber a ligação entre os elementos de “ICY”, que passam a funcionar juntos de forma muito mais rápida que o imaginável e ajudam a sanar uma possível impressão de que a faixa é uma “colcha de retalhos”.

Cheia de frases de efeito às vezes meio bobas e um tanto enfadonhas, mas que rendem alguns dos momentos de destaque de determinadas seções (como a cacofonia repetida na introdução com “I see that i’m icy“), a canção repete o estilo lírico de “DALLA DALLA”, tendo seu conteúdo voltado para a autoafirmação, que é a visão mais básica e lugar-comum do tipo de letra que precisa ser cantada por um grupo girl crush. A letra, na prática, não quer dizer nada com nada e é só um apêndice na grande festa auditiva e visual que o ITZY promove nesse single, sendo um detalhe não muito importante no conjunto e tem sua serventia real na reafirmação da imagem meio-agressiva-meio-indiferente do grupo.

No geral a evolução observada em “ICY” é bastante comedida, mas coerente com o atual estado do grupo. Com um apelo mais universal e os ajustes musicais certos para reconquistar o público que possivelmente virou a cara para as garotas no debut, o single é uma bagunça organizada que pode consolidar ainda mais as meninas no mercado e eventualmente garantir uma sobrevida para outros grupos menores que ainda acham que o estilo bad girl ainda é o caminho certo a se trilhar.