TRACK REVIEW: Pabllo Vittar – Flash Pose (ft. Charli XCX)

As paredes de um “ball” da comunidade lgbtq guardam segredos valiosos. Um desses segredos é como tantos personagens icônicos já dançaram ao som de um house específico dos anos 80 em Nova Iorque – a cidade mais reconhecida por essas práticas. O gênero house tomou conta de vários lançamentos que definiram a comunidade até a chegada de Madonna com “Vogue” e Janet Jackson com suas músicas que transitavam entre o r&b e hip-hop, literalmente reformulando o que conhecíamos por “música lgbtq”. Mas essa essência não mudou muito nesses nichos mais “fechados”, o house e suas variações permaneceram no coração de vários integrantes dessa comunidade, inclusive da cena da “drag music” contemporânea dos Estados Unidos, encabeçada por RuPaul – a dona do reality “RuPaul’s Drag Race” – sempre lançando um novo álbum cheio de batidas que falam quase nada, mas que são perfeitas para conseguirmos o famoso “vogue the house down”.

São nesses parâmetros que “Flash Pose” foi criada pelas mãos de uma das maiores popstars brasileira Pabllo Vittar, e a queridinha do alternativo Charli XCX. A parceria não é nada nova, esse encontro já foi proporcionado pela mixtape “Pop 2”, na faixa “I Got It”, mas agora temos o início da carreira internacional da artista drag que tomou a internet nos últimos 3 anos. Tendo em vista a dominação da comunidade lgbtq mundial – e quem sabe até o mainstream -, Pabllo Vittar canta despretensiosamente em um single house, unindo suas referências da drag music internacional, além de fazer uma menção honrosa aos famosos tambores metálicos que ressoam nas faixas mais famosas de Charli XCX. A sensação da internet e dos streamings brasileiros quer que você bata uma foto para ela, com muito flash e que capture a essência do que chamamos de “close”.

Muitas das faixas de drag music tem versos falados, marcantes e divertidos, “Flash Pose” parece caminhar na mesma trajetória, andando de mãos dadas com lançamentos como os de RuPaul e da famosa rapper Azealia Banks que usufruem das mesmas referências dos anos 90 para entregar músicas novas. Meio vergonhosa de se escutar em uma primeira vez, a introdução do single tem como objetivo marcar-se pela sua “breguice instantânea”, como se fosse uma marca da drag queen que canta no ritmo brasileiro “brega” e quis incorporar isso de alguma maneira na sua viagem internacional. Depois desse primeiro contato, a música fica mais “leve”, divertida, onde conseguimos imergir nesse cenário de passarelas de marcas caras e uma competição de bailes de vogue. Claro que tudo isso fica mais intenso quando a essência “party girl” de Charli XCX entra na faixa, com um break perfeito onde ela intensifica os desejos da drag de ser “capturada em um frame” – um sentimento ressaltado inclusive pelo barulho repetido de câmeras fotográficas – com a produção do Brabo Music Team que se aproxima até mesmo da famosa produtora SOPHIE, pela batida metálica que ressoa ao fundo, o que pode ser lido até mesmo como uma infecção da veia artística de Charli na música da drag.

O primeiro single do EP “111” de Pabllo Vittar parece como um filho parido de Azealia Banks com RuPaul que andou demais com o nicho alternativo de Charli XCX. A essência divertida da faixa mostra que ela sabe muito bem o que fazer internacionalmente, procurando caminhos mais palpáveis pelo seu público. A drag sabe que o mundo não consome drags como o cenário pop brasileiro, muito pouco aprecia as produções musicais delas lá pelos Estados Unidos. Mas o nicho alternativo está aberto à faixas que estejam dialogando com a arte drag, e “Flash Pose” é exatamente isso, uma faixa alternativa de house, puro pop que se apresenta para o público como um novo caminho da “drag music” para o mundo.