JESUSFORK: Beyoncé – The Lion King: The Gift

Quando falamos de um lançamento da entidade do pop Beyoncé, com certeza os últimos grandes acontecimentos da cultura mainstream vão brotar na sua cabeça. Foi assim que no final da década a ganhadora de 20 grammys ultrapassou o seu status quo de apenas hitmaker, e começou a trabalhar no impacto que ela queria ter para a indústria do r&b/hip-hop. Eu estava parado em casa, em uma madrugada comum quando me deparei com um álbum novo da cantora, o “BEYONCÉ”, não sabia do que se tratava mas logo depois surgiram vários clipes para todas as faixas. Já no lançamento do “LEMONADE” estava fisicamente preparado para receber a nova obra da intérprete de “Formation” – um single de aviso prévio -, o que nos diz muito sobre o que é um lançamento de Beyoncé. O nome que ela carrega, traz consigo muitas pressões consigo, ser meramente uma estrela pop não é o seu objetivo. Beyoncé como nome na cultura pop afro-americana – e em geral – dobra a realidade de uma verdadeira experiência musical, tentando sempre ultrapassar seus próprios limites com uma curadoria excelente.

Deve ser por isso que a trilha-sonora do “live action” da Disney, “The Lion King: The Gift”, é quase que um lançamento da própria. Contando com 20 faixas – incluindo interludes -, a curadoria do álbum aconteceu por conta de Beyoncé – dubladora da personagem Nala – com uma série de artistas africanos e instrumentos puxados para o continente. Para a curadora da trilha, “The Gift” é sobre ultrapassar as barreiras de storytelling, é compactuar o cinema à indústria pop que ela faz parte e tratar esse lançamento como algo simultâneo. É quase como um transmídia, onde Beyoncé traz a narrativa do filme “O Rei Leão” para as músicas que ela acredita ter um contato direto. É mais um álbum conjunto do que um álbum de Beyoncé, mas que ainda assim consegue nos mostrar as referências da cantora e o crescimento dela enquanto artista – se é que há algo para crescer nessa árvore artística gigantesca. A trilha viaja entre o pop, hip-hop e o afrobeat, inclusive a tentativa de se aproximar das referências africanas ultrapassa os gêneros das faixas quando a curadora seleciona uma gama de artistas de países diferentes do continente para integrar na produção de várias faixas como Burna Boy, Tekno e Yemi Alade, abrindo o caminho para esses novos produtores que tem muito a agregar na indústria mainstream norte-americana, assim como os nomes já conhecidos que estão presentes aqui como Pharrel Williams, Kendrick Lamar e Major Lazer.

Mesmo que algumas faixas pareçam tentativas descaradas de ganhar uma indicação na maior premiação de filmes dos E.U.A., é inegável que “The Gift” possa ter sido uma das melhores coisas a acontecer ainda esse ano. E isso vem exatamente pelo fato de termos todas as expectativas do mundo com um lançamento da dubladora de Nala – uma referência que ela coloca em “MOOD 4 EVA”. Beyoncé carrega uma série de expectativas, e essa curadoria consegue mostrá-la mais livre, experimentando coisas novas e tentando outros estilos que possam soar mais orgânicos. Acho que consigo ver algumas faixas que nunca entrariam em um “lançamento da Beyoncé”, mas estão na trilha sonora do filme. “WATER”, é uma dessas faixas, produzida por Pharrel Williams, com participação dele mesmo e Salatiel, carregada por um afrobeat envolvente onde Beyoncé usufrui da mesma narrativa de reencontro dos personagens Nala e Simba. O mesmo acontece com “BIGGER”, a primeira faixa que abre o álbum, onde a intérprete – que também é creditada como produtora – certifica-se de que todos a escutando possam ter a certeza que eles fazem parte de algo muito maior. “MY POWER” e “ALREADY” também são ótimas aquisições dessa curadoria, reafirmando o cunho empoderador das faixas e colocando o ouvinte em uma posição incontestável, explorando as viagens que Beyoncé pode fazer com o afrobeat, ao lado de artistas como Tierra Whack, Major Lazer, Busiswa, entre outros.

A cantora de “Formation” honra sua patente de ser uma porta-voz para as questões raciais dos E.U.A. e continua batendo na pauta necessária: o empoderamento de crianças negras. Beyoncé mostra que está preocupada com a percepção que eles (crianças) terão dessa trilha, principalmente porque o álbum é direcionado à uma animação, e não decepciona quando se propõe a colocar músicas com a temática dentro da tracklist. Uma das faixas conseguimos até ouvir a voz de Blue Ivy, a herdeira do trono, cantando sobre como não trocaria nenhuma garota de “pele marrom” por ninguém. “BROWN SKIN GIRL” logo desponta com as voz forte de Beyoncé e o rapper WizKid, ao lado de SHAINt Jhin.

Os aspectos de “O Rei Leão” que estão presentes no filme e nessa trilha-sonora tem muito a agradecer à repaginada do musical da Broadway sobre o clássico da Disney. A história se passava na África, óbvio, mas muito antes desses ritmos estarem em alta, a produção do musical contratou um elenco majoritariamente negro para representar características do continente através dos números musicais e dos elementos ali. A produção do live-action bebe muito dessa fonte, contratando atores negros para fazer parte da dublagem e mostrando uma diversidade pertinente que ficaria inconsistente se não estivesse presente ali. “The Lion King: The Gift” segue a mesma linha musicalmente, ultrapassando esses limites do vocal e passando a traduzir as ideias originais do clássico para os gêneros presentes na tracklist e seus intérpretes, artistas nigerianos como Tiwa Savage e Mr Eazi produzem a viciante “KEYS TO THE KINGDOM” que pode ser classificada como um r&b chill com instrumentos típicos da sua região, nos remetendo à um reggae mais suave. Beyoncé abre a porta para esses artistas, mas também não fica para trás com suas produções.

As composições de “The Gift” são todas de um momento específico da história dos leões que lutam pelo seu trono. O álbum se fecha com um solo da Beyoncé que anuncia a chegada de um novo líder, uma faixa que nos enche de esperança, mas que acaba se perdendo no meio de tantas produções orgânicas e com referências mais certeiras do que apenas um r&b-soul quase gospel. Vejo essa curadoria como um grande acontecimento da indústria, pois é interessante como Beyoncé tenta seguir os passos do rapper Kendrick Lamar, quando ele fez o mesmo para a trilha-sonora do filme do primeiro super herói negro do estúdio Marvel de cinema. Nomes desconhecidos, músicas que transitam entre o rap e o r&b, faixas que agregam substância à esses filmes e também ao mercado, pois abrem a porta para artistas que não tem as mesmas chances que esses nomes gigantes.