TRACK REVIEW: Charli XCX & Christine and the Queens – Gone

Até tempo desses a Charli XCX poderia ser facilmente considerada como um exemplo da recente tendência de cantoras da cena alternativa que não conseguem mais lançar um álbum completo desde o período amaldiçoado de tempo entre 2013 e 2015 – tendência essa que até hoje mantém longe das prateleiras de CDs nomes como Sky Ferreira e FKA Twigs. Ainda assim ela sempre deu um jeito de lançar música através de EPs ou mixtapes colaborativas que, eventualmente, tornaram-se a melhor parte de seu trabalho a fizeram alcançar um novo patamar de aclamação da crítica, que agora costuma creditar ela como “o futuro da música pop” e alcunhas similares.

Esses lançamentos quebraram um bom galho para a artista, mas ainda se encaixam em uma fase conturbada da carreira dela onde nenhum lançamento mais “oficial” ganhava o aval de sua gravadora para ver a luz do dia, incluindo um álbum inteiro engavetado três anos atrás. Agora essa fase finalmente passou e parece que as coisas estão começando a entrar nos eixos com o anúncio definitivo de seu terceiro álbum de estúdio, o “Charli”. Previso para o dia 13 de setembro desse ano, o disco teve a sua divulgação encabeçada por alguns singles que não extraíam o melhor da criatividade da artista ou simplesmente tinham um cunho duvidoso, como a parceria com o cantor Troye Sivan em “1999”, uma divertida mais previsível trilha sonora da Forever 21 que nem de longe poderia se equiparar aos esforços da Charli nas mixtapes “Number 1 Angel” e “Pop 2”.

O mesmo aconteceu com a parceria com a Lizzo em “Blame It On Your Love” que, além de desperdiçar o hype em torno da convidada (e até um pouco seu talento), não entreteu muito a fã base assídua da Charli, ainda mais pelo fato de que o single é uma fraca versão “original” de uma das melhores músicas que a cantora já lançou, a fabulosa e autotunada “Track 10”. Esse caminho conturbado, mesmo quando as coisas pareciam estar se resolvendo no mundinho XCX, minaram as boas esperanças para o sucessor de “Sucker” – o último álbum de estúdio da gata -, mas “Gone” parece ter vindo para mudar as nossas perspectivas sobre esse panorama.

Performada primeiramente em 30 de Maio, no festival Primavera Sound, a parceria de Charli XCX e Christine and the Queens chegou junto com pré-venda do álbum, sendo a terceira de uma extensa lista de colaborações que recheia a tracklist do material. “Gone” é uma música upbeat composta pelas duas intérpretes com a produção de Noonie Bao, A. G. Cook e Nömak, nomes familiares na discografia de Charli XCX e que facilmente agradam os fãs do lado mais PC Music da artista. O pop sintético da faixa é inconfundível, sustentado por uma letra complexa que cria um cenário onde o eu-lírico está olhando tudo ao seu redor e definhando, colecionando decepções com pessoas próximas, ciclos de amizades ou relacionamentos etc.

Apesar da atitude animada da composição, com versos dançantes e refrão antêmico, o que “Gone” realmente quer passar é aquele sentimento identificável de se sentir sozinho mesmo rodeado de várias pessoas conhecidas. “Eu me sinto tão instável, odeio essas pessoas para caralho / A forma como eles estão fazendo me sentir ultimamente”, se torna um aviso ao lado do grave pulsante e quase “elástico” que preenche a música inteira. A sonoridade de Charli sempre esteve alinhada nesse nicho “pop perfection”, com algumas extravagâncias oriundas da personalidade da artista e de suas escolhas de produtores, mas “Gone”, em especial, nos remete a uma faixa que poderia muito bem figurar na tracklist de um álbum de Robyn (ninguém menos que a mãe do conceito de “pop perfection”).

A química entre Charli e Christine é incontestável e até amplificada no clipe, com uma boa dinâmica de vocais divididos na maior parte da estrutura da canção – que flui sem muitas surpresas até o final, quando um break percussivo e metálico preenche os últimos minutos cheios de distorções que só uma produção do A.G. Cook poderia servir. Com essas qualidades, “Gone” transita com facilidade pelo nicho do pop mais alinhado ao mainstream (mas não tão óbvio) que a gravadora da Charli tanto quer que ela faça e também pelo pop futurístico e geniosamente manufaturado pelas mãos de colaboradores da PC Music que os fãs dela tanto apreciam (e que no fim das contas virou meio que uma marca registrada da gata). Sendo assim, esse é sem dúvidas o cenário mais viável possível para uma carreira que vai e volta no intuito de revolucionar os padrões da música pop dançante.