BICHAFORK: BANKS – III

Por muito tempo a cantora BANKS ficou conhecida por sua incrível sensibilidade de escrever músicas que tivessem uma dualidade muito específica: elas serviam para empoderar algumas pessoas mas ao mesmo tempo arrancar lágrimas de muitas delas. Seus dois primeiros álbuns, concisos e repletos de synth, cumpriam esses deveres muito bem, e isso acabou se tornando a marca musical da artista. “The Altar”, segundo álbum da cantora, saiu há quase 4 anos atrás, com músicas incríveis que agradaram a crítica especializada, e os fãs da própria, pela qualidade única de entregar canções ambíguas. Mas uma coisa sempre me chamou atenção sobre a personalidade de BANKS, o que mais nos atraía sobre a cantora era exatamente o cuidado com o corpo de trabalho que ela colocava para fora, sempre crua e “na sua cara”, algumas palavras eram difíceis de se engolir mas nada que uma batida diferente e um pop puxado ao synth não resolvesse. Por isso, as expectativas quanto à seus trabalhos foi crescendo cada vez mais, e após um longo hiatus o “III” finalmente chegou para nós.

O terceiro álbum de estúdio da cantora veio depois de um single avulso que não surtiu muito impacto ou efeito na carreira da cantora – e também rumores de que ela estaria trabalhando com Marilyn Manson. “Underdog”, a gente querendo ou não, nos apresentou um lado da BANKS que estava sempre andando de mãos dadas com sua faceta sentimental, e serviu de um pequeno amortecedor para o que estava ainda por vir. “III”, ou três, ou three, ou só “III”, explorou ainda mais esse lado da cantora, mas sua originalidade artística não foi atingida em maneira nenhuma, sua dualidade paradoxal e as composições complexas continuaram presentes em várias faixas. A certeza que o terceiro álbum nos passa, é de que ela provavelmente já vive intrínseca à isso, e a vida de Jillian Banks provavelmente não é tão fácil quanto todos nós pensávamos – se os temas abordados nos álbuns anteriores já foram pesados, imagine só onde ela foi se meter nesse pequeno hiato na pré-produção disso tudo.

O r&b alternativo de BANKS, misturando-se à sua synthwave típica continua forte em vários momentos do “III”, assim como o uso de vozes distorcidas. O produtor BJ Burton foi encarregado de fazer o “trabalho sujo” de deixar algumas dessas faixas um tanto quanto “sujas” também, não só pelo seu tema mas por essa marca artística de BANKS. A cantora canta de vezes em que se meteu em vários momentos de relacionamento abusivo, onde se relacionou com pessoas que a levava aos céus, e também relembra de momentos narcisistas tanto dos seus companheiros quanto dela. “Stroke” e “Gimme” funcionam quase como contrapontos de sua personalidade “problemática”. A primeira nas mãos do produtor citado mais cedo, é uma das melhores faixas do álbum, onde conseguimos sentir toda a potência musical de BANKS enquanto produtora de “bops vampirescas” – um termo que acabei de inventar -, onde somos inseridos em um cenário um tanto sombrio, fazendo menções musicais ao claro “dark pop” que ela sempre gostou de investir. É o mesmo caso de “Gimme”, onde ela dá-se por completa, abrindo as questões: ela está cantando sobre ela mesma ou vestiu a pele de um namorado obsessor que sempre demanda mais?

BANKS abre muito bem o seu terceiro álbum, em uma sequência que cria o cenário nas nossas cabeças com as luzes vermelhas que já parecem típicas da “bruxinha do pop”, onde tudo é um campo minado perigoso e você nunca sabe qual trauma pode gatilhar. Até os temas fazem contradições com as suas músicas antigas, como “Godless” que vem para trabalhar Jillian Banks saindo de pedestal de “Goddess” – seu primeiro álbum – e estando no altar como fiel dentro de um relacionamento, onde seu companheiro é a única verdade que você sabe. “Você não acredita em um divino/Mas você não pode falar que acredita no meu?”, BANKS suplica no início do seu refrão, sustentada pelo bass que segue a linha do r&b alternativo atmosférico característico dessa primeira parte do CD.

Todas as músicas do “III” acabam sendo referência de um espaço sentimental de Jillian Banks que acabam por parecer o mesmo, mas sua essência única está guardada nesses momentos de introspecção onde o “dark pop” ainda aparece mas de forma mais sútil. Por vezes, seu terceiro álbum parece estar de fato dividido em três partes, em alguns momentos as sequências tão únicas feitas em outro momento da tracklist, parecem ter sido esquecidas no resto do álbum. É óbvio que faz parte da relação do artista com sua música crescer no meio disso tudo, mas é quase como se algumas músicas não pertencessem na curadoria feita para o “III”. Mas ainda continuam excelentes produções que mostram musicalmente o lugar de BANKS na indústria. E isso começa a aparecer no momento que “Look What You’re Doing To Me”, colaboração com Francis and The Lights começa a tocar, não parece ser uma música típica de um álbum da cantora, e as que vem depois passam a ficar um pouco desconexas mesmo que algumas produções sejam boas. Isso pode ter acontecido muito mais pelo fato de ter sido um álbum com demos de outras épocas, ou pela questão de algumas dessas faixas serem apenas providas de um pop inofensivo e nada mais.

As faixas que tendem a não fazer nada demais nos ouvintes estão bem separadas na última “parte” do “III”. Eu acredito que o pop de “Alaska” tenha sido um diferente approach da própria cantora enquanto testava coisas novas dentro de seu estúdio, a música é divertida, despretensiosa mas não tende a causar o mesmo impacto das primeiras faixas, ou até mesmo de algumas das baladas espalhadas pelo projeto de Jillian. Mas ainda assim, o refrão pode ficar preso na cabeça de quem ouve, e a questão toda da música as vezes seguir cortes bruscos vem bastante de uma atmosfera diferente que ela quer criar aqui, algo mais “trippy” e “dreamy”, mas que preservasse seu trip hop com elementos novos. E acredito que o mesmo possa ter acontecido com outras faixas que seguem essa linha, “Propaganda” e “The Fall” acabam não tendo o impacto “na-sua-cara” típico da BANKS, muito menos as questões mais fortes e complexas das suas composições, e isso pode desagradar aos fãs assíduos daquele som diferenciado que ela traz à indústria.

Mas isso não acontece com as baladas propostas aqui. O “III” é provavelmente o álbum da cantora que mais tem faixas desse gênero, e é por isso que talvez sua produção tenha levado tanto tempo para acontecer. “Sawzall” é uma faixa de puro r&b alternativo, em uma esque bastante trippy onde BANKS é acompanhada, de início, por alguns acordes de uma guitarra, mas logo se junta à outros instrumentos, e uma bridge maravilhosa onde ela se repete falando “eu doei meu amor” – se vocês me perguntarem essa seria um ótimo encerramento para o “III”. Nesse mesmo esquema r&b alternativo, temos “Hawaiian Mazes” que busca a paz interior de BANKS em deixar um relacionamento ir. A cantora disse que estava tirando férias no Havaí e essa foi sua inspiração para a faixa que ainda puxa um pouco para o que acontece no mainstream, nos remete até um pouco do som que Mariah Carey costumava fazer nos anos 2000. Mas claro que Jillian Banks teve a certeza de adicionar sua própria perspectiva musical sobre a produção, transformando tudo isso em uma faixa bastante dreamy, quase que uma passagem de avião para o mesmo lugar que ela estava com tantos barulhos de ondas batendo na maré e os violinos que ajudam para a criação do cenário.

O terceiro álbum de estúdio de BANKS é recheado de uma versatilidade muito boa da cantora. Pode não ser tão conciso quanto seus dois primeiros, ou superado algumas questões bastante originais do “The Altar”, mas as faixas presentes aqui mostram uma BANKS mais visceral, reconhecendo suas posições nesses relacionamentos e até mesmo vestindo a pele de outros. Mas a primeira sequência do álbum foi tão forte que a segunda parte do álbum acabou não tendo o mesmo impacto, essa sensação se perdurou desde as músicas mais puxadas para o “pop” até o finalzinho dele. Por isso, acredito que esse não foi o melhor trabalho de BANKS, mas ainda assim o “III” continua um bom álbum, longe de ser um corpo de trabalho ruim, só gostaria que a cantora tivesse seguido com a mesma força do começo.

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BANKS, “III” (2019)

Gêneros: Synthpop, trip hop, r&b alternativo

Destaques: “Godless”, “Gimme”, “Hawaiian Mazes” e “Stroke”

Nota: 7,6