TRACK REVIEW: ROSALÍA – F*cking Money Man

Em um anúncio repentino de uma página completa do jornal El País, ROSALÍA anunciava no dia 3 mais um capítulo na sua jornada enquanto artista. Depois de se esbanjar nas alturas ao lado do grave hip-hop/reggaeton de J Balvin com “Con Altura” e flertar bastante com o r&b dos anos 90 em “Aute Cuture”, a cantora que está crescendo cada vez mais no mainstream inova lançando seu single duplo “Fucking Money Man”. O single consiste em duas músicas, uma a-side e uma b-side que se complementam enquanto narrativas com direito até mesmo a um clipe que nos faz lembrar dos programas de auditório onde uma pessoa tinha que fazer várias atividades em busca de dinheiro. “Milionària” e “Dio$ No$ Libre Del Dinero” mostram uma artista voltando à sua marca original com a proposta do flamenco pós-moderno e a junção dele à outros elementos na música, as duas faixas servem como partes de uma história contraditória, uma espécie de ying&yang, bem e mal, onde primeiro cantamos como queremos ter o dinheiro a todo custo, e logo depois em um tom mais melancólico nos percebemos imersos em um esquema ganancioso.

Cantando em catalã – a primeira vez que ela escreve na língua – ROSALÍA expressa seus desejos mais ambiciosos, as marcas caras e tudo que ela aspira em “Milionària”. Dificilmente de entender para quem não tem muito contato com a língua, ROSALÍA segue desinibida e despretensiosa, com um tom até “engraçado” escondido em seus catsuits de leopardo, envolvida numa faixa divertida que dá progressão à ostentação desenfreada da cantora que vem desde o seu r&b-90s de “Aute Cuture”, mas dessa vez estamos para além de só as grifes caras. “Un dia per Mumbai i al següent a Malta”, ela canta sobre viajar de um país ao outro só por diversão, gastando o dinheiro que ela tem e também representando o desejado sonho das pessoas de classe mais pobre: se tornarem milionários.

A quase-crítica na primeira música ganha um tom obscuro e melancólico na sua b-side. “Dio$ No$ Libre Del Dinero” recupera as forças que ROSALÍA ganhou com seu flamenco pós-moderno e volta à um nicho de produção pelo qual a própria se destacou com o “EL MAL QUERER”. Obviamente que a ganhadora de dois Grammys Latinos não faz o mesmo que fez enquanto formulava o seu trabalho de conclusão de faculdade, suas inspirações vem muito mais de um lado quase bíblico e artisticamente ousado que muitas não teriam coragem de ir atrás. O pecado capital da “ganância” – ou avareza – está muito relacionado ao “ganhar dinheiro”, e uma música que clama literalmente que “Deus nos livre do dinheiro”, é uma literal repreensão do que ela estava fazendo em sua primeira canção, uma mensagem que a coloca enquanto pecadora. Nota-se que um só pode viver complementando a outra. ROSALÍA cita reis, figuras poderosas e líderes de Estados mostrando como eles estão sendo comandados pelo dinheiro, não só eles como também a sociedade em que vivemos hoje, movidos pela ganância. Um lugar em que ela também se insere, pois no próprio refrão repete “sonhando, fazendo, tendo e buscando” – o dinheiro. E é claro que os acordes de synth ao lado do flamenco melancólico da cantora só poderiam ter mãos de El Guincho na produção, fazendo com que o público relembre o por quê nos apaixonamos por ROSALÍA e sua proposta narrativa completamente revolucionária no mercado. – um ótimo experimento com vozes distorcidas também.

Atualmente, ROSALÍA vive um sucesso crescente, mostrando-se como uma artista excepcional, versátil e que acima de tudo tem coragem para ousar, viajar e voltar para seus gêneros de raíz sem vergonha de mostrá-los. O vídeo de “Con Altura” tem se tornado um grande viral, inclusive no Brasil, e sua turnê passa por vários países da Europa nesse momento. Parece que o futuro de ROSALÍA é realmente milionário.