bibliopoc #9: "Red, White & Royal Blue" – O novo clássico contemporâneo shakespeariano de romances gay

Um romance proibido sempre atrai os curiosos, mas um romance proibido onde não só duas pessoas estão em risco, como também a reputação de toda uma nação, é ainda mais crocante. Junta tudo isso ao fato dos personagens serem membros da comunidade LGBTQ+ e temos “Red, White & Royal Blue” – ainda sem título em português. O livro conta a história de um romance intrigante que acontece entre o primeiro filho da primeira presidente mulher dos Estados Unidos e o príncipe da Inglaterra. Nos corredores da Casa Branca, e nos Castelos mais cobiçados da Europa, o casal constrói uma amizade que aos poucos vai se transformando, enquanto os dois jovens-adultos vão se descobrindo e tentando entender também sua sexualidade. É debaixo desses tapetes e entre essas salas que nos deparamos com um backup político de figuras queers que sempre estiveram entre nós, se escondendo e tentando sobreviver um sistema sujo que sempre tentou sufocá-los.

O livro “Red, White & Royal Blue” gira em torno de um romance de dois jovens, Alex Claremont Díaz e Henry. Mas esse não é qualquer rom com gay, é um rom com sobre filhos de potências mundiais poderosas, adicionando todo um significado profundo sobre o perigo do envolvimento entre os dois personagens. O primeiro encontro da dupla acontece em um casamento real na Inglaterra. Quando as fotos de um incidente entre Alex e Henrique de Gales vazam, os tabloides internacionais põem em risco as relações internacionais entre a maior potência do mundo e a Inglaterra. O plano para o controle de danos entra em vigor da seguinte maneira: ambos teriam que fingir uma amizade seguindo uma agenda de eventos com fotógrafos, assegurando para todos que nada passou de um pequeno acidente bobo. Mas Alex está muito ocupado tentando arranjar um emprego na campanha de reeleição da mãe, enquanto lida com os inimigos sanguinários dela, e Henry tem que ainda posar para ser um Grande Príncipe, nos moldes europeus. Mas a convivência entre eles vai aumentando cada vez mais, até o momento em que um não consegue se ver sem o outro, e o romance às escuras começa, nos corredores da Casa Branca e nos castelos da Inglaterra.

Para quem gosta do gênero esse livro é um prato cheio. Com referências à todas as produções de qualidade que já saíram desse nicho, o livro de Casey McQuiston nos relembra que um bom “romance” é sempre acompanhado de uma amizade concreta. E nada melhor do que uma base para construir todo o afeto do livro em várias páginas, até estarmos implorando para que os dois se assumam de uma vez. O livro é todo contado na perspectiva do filho da presidenta dos E.U.A., Alex, e ele não se dá conta da paixão que sempre sentiu pelo outro até o momento que não dá mais para fugir do sentimento. É uma longa caminhada, pois Alex começa odiando Henry por uma questão que ambos tiveram enquanto crianças, mas o sentimento “encubado” sempre esteve ali, mas além dele não assumir que está apaixonando-se pelo seu “pior inimigo”, ele também tem o fator de estar descobrindo sua sexualidade, e McQuiston faz isso muito bem.

O livro “Red, White & Royal Blue” não se prende a clichês quando o assunto é sexualidade. Coisas típicas de livros onde vemos um personagem que nega o tempo todo que é gay, ou que tem várias dúvidas quanto à isso – ou nem mesmo usa palavras para descrever sua sexualidade -, aqui não passam nem na fachada. Ao abrir o livro e se imergir nas quase 500 páginas, você vai encontrar Henry um príncipe gay assumido para si mesmo, mas que não pode se assumir ao mundo – e mesmo assim sua sexualidade nunca é duvidada -, e Alex que aos poucos revela sua bissexualidade com tranquilidade. A “problemática” de ser LGBTQ+ – ou seja os problemas sociais acarretados no subjetivo de um indivíduo – não aparece muito aqui, pois são dois personagens que se orgulham e sabem suas histórias, até porque essa problemática parece ser mínima quando se tem o fator de serem filhos de potências mundiais na mesa.

Casey McQuiston trabalha tão bem ao redor disso que não temos espaço para o clichê de “será que somos gays”, ou “será que eu quero um relacionamento gay”, ela vai direto ao ponto, é objetiva e entrega uma história de amor muito bem construída, não deixando de se lembrar das figuras passadas. Em algum momento de “Red, White & Royal Blue” encaramos figuras históricas em momentos frágeis, onde estão se declarando pelos seus pares e muitos deles são membros da comunidade LGBTQ+. Isso se torna uma grande questão para o enredo, pois quando esse relacionamento finalmente acontece, e ambos estão decididos que se amam, eles ficam se questionando sobre qual o lugar que a “história” irá colocá-los. O que nos leva a questão: quantas figuras históricas que eram da comunidade LGBTQ+ não tiveram essa parte de suas vivências completamente apagadas? É bom relembrarmos e procurarmos quem eram essas pessoas, e o livro faz um ótimo trabalho sobre isso.

A rom-com também tem inspirações muito claras na obra shakespeariana mais famosa de todos os tempos, “Romeu & Julieta”, mas me parece até redundante falar isso, já que histórias de amor entre famílias rivais já se tornaram tão comuns à cultura pop. Temos todo esse momento de adrenalina, onde torcemos para eles não serem pegos, ou para ninguém descobrir nada que está acontecendo, e essa “vibe” é muito bem construída. Parece até que McQuiston nos transporta para dentro dessa relação, onde jogamos um “terceiro partido”, numa posição quase protetora desses dois homens que se arriscam até demais – o que é ótimo para quem adora um voyerismo. Falando em riscos, esse Young-adult contemporâneo é explícito até demais para os padrões de um livro assim, o que é ótimo ao meu ver, não pelo pornô mas sim pela coragem da autora de mostrar que dois homens fazem sexo e são tão complexos quanto os casais de histórias heterossexuais.

O livro “Red, White & Royal Blue” é uma ótima carta de amor às comédias-românticas, com a adição de termos uma narrativa gay linkada à várias outras narrativas gays históricas que ja aconteceram nos Estados Unidos e Inglaterra, por vezes parece até que eles carregam o fardo de “assumirem a coroa” dos seus antecessores. E mesmo assim, a história consegue ser uma cheia de perigos deliciosos, aventura e o enredo “inimigos que viram amantes” que deixa tudo ainda mais crocante, não é mesmo? A versão brasileira do livro vai ser lançada no segundo semestre deste ano, pela Editora Seguinte da companhia de Letras, mas para quem já fez o fisk, o livro se encontra disponível em eBook e nas livrarias virtuais em inglês.