Divino Amor traz uma distopia religiosa envolta em neon e synthpop

Um gênero em quase ausência no cinema nacional de larga escala em contraponto à sua enorme ascensão no cinema mundial é a distopia, que pouquíssimas vezes encontrou espaço para ser adensada nas narrativas dramaticamente realistas que a produção cinematográfica brasileira mainstream vêm produzindo. No cinema internacional, especialmente em Hollywood, a distopia já foi utilizada à exaustão antes mesmo de ser considerada um gênero em si ou de possuir essa nomenclatura, sendo explorada tanto em sagas adolescentes famosas (“Jogos Vorazes”, “Divergente”), quanto em obras definidoras indústria cultural, tais quais “Blade Runner”, “Matrix” ou “Mad Max”. Em território brasileiro, as produções que mais flertaram com os parâmetros do gênero estiveram concentradas em períodos obscuros, como durante a Ditadura Militar, ou em longas isolados que não criaram uma “tendência distópica” por si só. Finalmente em 2019 a distopia achou espaço para tomar raízes em grandes produções nacionais – aproveitando o fato de que o Brasil anda vivendo a sua própria distopia. Dois dos filmes brasileiros mais alardeados em festivais internacionais esse ano utilizam do mote distópico para desenvolver suas narrativas, como o aguardado “Bacurau” de Kleber Mendonça Filho e “Divino Amor” de Gabriel Mascaro, que estreou ontem (27) no país.

No caso de “Divino Amor”, o filme se distancia das grandes distopias cinematográficas famosas, geralmente focadas em semblantes totalitaristas ou cyberpunk, e se aproxima de um subgênero da distopia que a cultura pop ainda não mergulhou tão de cabeça: a distopia religiosa. Mesmo em outros âmbitos fora do cinema, a distopia religiosa ainda possui exemplos bastante tímidos nos dias de hoje, com sua obra máxima sendo possivelmente o livro de Margaret Atwood “O Conto da Aia” e sua posterior adaptação “televisiva” pela rede de streaming Hulu. Enquanto “Divino Amor” não possui grandes semelhanças narrativas com a criação de Margaret (que apesar de ser uma distopia religiosa, ainda pende muito pro lado da distopia totalitarista), ambas as obras dividem alguns pontos-chave em comum, criando universos distópicos adaptados à própria realidade religiosa dos países em que foram produzidas, possuindo uma forte dose de suspense futurístico gerado pelo lado mais obscuro que os escritos cristãos possuem e refletindo com maestria a atual popularização de ideologias conservadoras que frequentemente se apoiam em interpretações pouco cuidadosas do cristianismo.

“Divino Amor” se passa em 2027 e conta a história de Joana (Dira Paes), uma funcionária de cartório que lida com casos de divórcio e que geralmente se utiliza da burocracia e de sua habilidade com o público no intuito de reverter esses casos. Essa força de vontade de Joana em “salvar” casamentos é advinda da fé, já que a personagem participa, juntamente com o seu marido Danilo (Júlio Machado), de um duvidoso ramo da igreja evangélica conhecido como Igreja do Divino Amor, um espaço religioso exclusivo para casais e especializado em remendar casamentos em crise. Ao redor dessa proposta interessante, a construção de mundo do longa é cheia de ideias ambiciosas, apresentando um Brasil coerentemente mais tecnológico e dominado de forma ampla pela ideologia do cristianismo evangélico (apesar de ainda se declarar como um Estado laico). A força do evangelicalismo no roteiro é tão forte que o carnaval é desbancado por festas de música eletrônica gospel e as igrejas se tornam parte fundamental na vivência dos cidadãos, expandindo seus negócios para ideias realmente corporativistas, a exemplo de alguns elementos como um “drive-thru de oração”. Apesar da construção muito sólida de certos aspectos, o mundo de “Divino Amor” parece um tanto claustrofóbico após uma análise mais apurada, especialmente porque ele não mostra em nenhum momento o “outro lado” da coisa, como, por exemplo, a vida de personagens que não são ligados a esse novo padrão de vida cristão – ou se é que eles existem.

“Divino Amor” trata a sua história de forma muito mais situacional do que exatamente “linear”, com boa parte de seus 100 minutos de duração parecendo uma exploração vagarosa do universo criado sem grandes situações apoteóticas ou dramáticas acontecendo até pelo menos o ato final do longa. Essa exploração citada joga estranheza após estranheza na cara do espectador, abrangendo elementos criativos/excêntricos mais simples (como o supracitado “drive-thru de oração”) e também momentos de pura tensão cinematográfica, como algumas cenas de sexo longas e demasiadamente realísticas que surgem e saem da tela sem aviso, ajudando a macular vários dos pontos religiosos/divinos que são citados na trama.

O grande conflito do filme diz respeito à impossibilidade do casal protagonista em gerar um filho. Joana e Danilo tentam de tudo: tratamentos médicos convencionais, soluções alternativas, até a própria fé em si, sem grandes resultados – e a convivência dos dois na Igreja do Divino Amor parece ser exatamente produto da esperança da resolução desse problema mas ironicamente acaba servindo para que o problema suba de nível. O ato final é carregado de simbologias e trabalha de forma muito mais “enxuta” do que atos finais comuns, apesar de ainda ser cheio de acontecimentos. Ele ainda deixa uma ótima sensação ambígua sobre o filme ser uma crítica ácida ao modo como o evangelicalismo é levado no Brasil mas ao mesmo usar de uma solução narrativa que sugere que certos preceitos da moral cristã são positivos e foram apenas mal interpretados ao longo do tempo.

A atuação da Dira Paes no papel da Joana é cheia de entrega e carrega “Divino Amor” do começo ao fim com um magnetismo ímpar que é amplificado pelo fato de que, no contexto da história, Joana não é exatamente uma “mocinha”, tendo quase alguns tons de anti-heroísmo a depender do ponto de vista. Em contraponto, a atuação do Júlio Machado é bem mais morna e não consegue passar a dramaticidade que é pedida durante o clímax do filme, por exemplo, enfraquecendo várias das cenas próximas ao final. Boa parte dos momentos de impacto do ato final também é afetada pela forma corrida e/ou robótica como algumas coisas acontecem, ficando a cargo do público decidir o quanto isso afeta todo o resto da experiência ou não.

Uma das melhores questões da obra é como ela consegue traduzir o tom futurístico intrínseco em toda a distopia em elementos simples em seu âmbito imagético. Boa parte dessa “sensação” de futuro é passada através do neon, que preenche vários cenários-comuns do longa, especialmente a Igreja do Divino Amor, contribuindo ainda mais para que esse local em específico dê uma impressão de estranheza e mistério. Construções arquitetônicas imponentes e com geometria mais “limpa” e moderna são utilizadas como solução eficaz para situar o espectador em um ambiente que realmente poderia fazer parte do futuro, dando uma espécie de verossimilhança para essa demanda do gênero distópico e evitando que o filme precisasse procurar soluções custosas como imagens em CGI na composição de cenário. Com socos de synthpop aqui e ali preenchendo a atmosfera geral, “Divino Amor” é uma exitosa exploração da distopia à Brasileira, abordando as possibilidades da religiosidade cristã no futuro por dentro (algo diferente de “O Conto da Aia, que conta com um ponto de vista externo) que permite ao público a conflituosa experiência de observar esse prognóstico de futuro de perto, mergulhar em sua loucura e tirar suas próprias conclusões ou ser simplesmente guiado pelo comentário social dual que o próprio filme tece.

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