Queremos! Festival 2019: Uma noite de política, diversidade e muita música.

Agitando a Marina da Glória, no Rio de Janeiro, com muitas luzes de neon e música boa, o “Queremos! Festival” aconteceu sábado, 15 de junho, tendo dois palcos que abrigaram nomes novos no cenário como DUDA BEAT e Allie X, além de dar um espaço para nomes já conhecidos como Criolo e Gal Costa. O festival que é reconhecido por fãs de cantoras alternativas/indie – já que eles estão sempre trazendo artistas por meio de abaixo-assinado – se provou mais uma vez por ser um espaço de diversidade musical, onde todos os gêneros podem coexistir em prol de um bem maior: o amor pela música.

A diversidade cultural e musical, começava na própria line-up do evento. Nomes como Allie X, DUDA BEAT, Criolo e Baco Exu do Blues se destacavam pelas “legiões” de fãs que cantavam todas as músicas dos seus respectivos álbuns, mas também pelo fato de que cada um desses vem de um extremo bastante diferente no mundo da música. Os “fiéis” que seguiam esses cantores se dividindo entre o “Palco Rosa” e o “Palco Amarelo”, eram bastante diversificados, mostrando como a música daqueles cantores conseguiam alcançar todas as comunidades, e quem nunca escutou um desses acabava se apaixonando pela presença de palco e o show que eles davam.

Carregando a questão política do Brasil para dentro desses espaços, os artistas presentes – até mesmo os internacionais – fizeram questão de marcar presença nesse assunto, sem medo de segurarem bandeiras e usarem suas plataformas para mandar uma mensagem que realmente importasse. Allie X foi uma dessas artistas. Para muitos foi um choque que em sua primeira aparição no Estado do Rio de Janeiro, ela tenha sido tão forte com suas palavras. Se dizendo membro da comunidade LGBTQ+, a intérprete de “Paper Love” fez questão de falar que os brasileiros tinham muitos aliados no exterior, e que essa fase ruim iria passar, tirando até lágrimas de muitos de seus fãs – afinal a maioria integra essa comunidade. E não parou por aí, DUDA BEAT, a “novata” da cena que vem crescendo cada vez mais com seus “hits de sofrência”, deixou claro que “ama pra caralho” a comunidade LGBTQ+ enquanto levantava a bandeira do movimento, abraçando-a e passando um momento de seu show com ela no ombro. Criolo, por sua vez, fez questão de mandar uma mensagem de amor à todos presentes, reforçando à cada música que apenas o amor poderia vencer as barreiras e mudar o Brasil – mas essa posição já era esperada, já que suas músicas tem cunho político.

Mas não só de política viveram esses artistas, todos os shows agitaram bastante a plateia presente, isso só pôde acontecer por conta da seleção de cantores que a “Queremos!” fez no seu line-up diverso e magnífico. A novata Jade Baraldo – ex-participante do reality show The Voice – surpreendeu pela presença de palco e show elaborado, contando até mesmo com dançarinos que a acompanhavam a todo momento, além de suas músicas que tem um tom único no pop brasileiro, certeza que é um nome que surgirá ainda mais no futuro. Já no departamento de “lendas da música”, Gal Costa agitou um público mais velho que estava muito presente no festival, cantando suas músicas da época do seu auge, mas não deixando de lado as divertidas e despretensiosas como “Sublime”, e a já conhecida “Vaca Profana” cantada por todos presentes – senti um pouco a falta de “Meu Nome é Gal”, mas superei.

De qualquer modo, DUDA BEAT foi sem dúvidas uma das melhores da noite no festival. A pernambucana que confessou que o desejo de cantar naquele palco existe desde o ano passado (2018) onde ela estava como público, não deixou a desejar em nenhum momento. O público do Rio de Janeiro já conhece muito bem seu repertório, e não deixaram a desejar quando ela apontava o microfone para eles. Agitando a todos com suas parcerias como “Chega” e seu hit alternativo “Bixinho”, o clima de amor misturado com a sofrência, e a sedução de Eduarda Bittencourt estavam pairando sobre o festival, do começo até o final de seu set. Um dos melhores shows da noite cantando suas próprias músicas, mas adicionando também um cover do smash-hit da girlband do Reino Unido, Spice Girls, “Say You’ll Be There” para aquelas que gostam de um pouco de cultura pop.

A atração internacional Allie X chamou uma legião de fãs que amaram o show simplista da cantora canadense. Para muitos que conhecem o repertório, não foi surpresa que ela abrisse seu show com uma das que começaram sua carreira. A música “Bitch” abriu seu show com um teclado cheio de synth, onde a talentosíssima fez questão de demonstrar todas as suas habilidades. Sua presença de palco, seu espírito #camp – totalmente performático do seu look tropical-rosa, cheio de plumas até suas jogadas de cabelo – e as suas músicas pop infectadas de synth deixaram o público agitado. Foi o primeiro show da cantora no Rio de Janeiro, e foi uma linda “estréia” para a cantora, conduzindo sua performance com notas vocais altíssimas, provando que ela não precisa de muito para fazer um show. Também rolou um pequeno erro de comunicação que fez Allie X sair antes do previsto do palco, mas que logo foi consertado quando a gata voltou para cantar “Prime”. Suas músicas definiram o “clima” da noite que estava linda na Marina da Glória, e a personalidade dela no palco foi bastante acessível – a cantora disse tanto português que eu esqueci que ela era internacional.

O rapper já conhecido na cena, Criolo apresentou seu repertório cheio de hits como “Não Existe Amor em SP” e “Subirusdoistiozin”, além de suas músicas novas direcionados à comunidade LGBTQ+. Mas para além disso, o rapper reforçou como é importante a questão do movimento negro nesses próximos 4 anos de governo Bolsonaro, tudo sem nem ao menos falar o nome do Presidente, um dos toques bem delicados sobre o show dele. Sua presença de palco já era mais do que confirmada, e a energia que ele traz também, mas a surpresa veio da estrutura do palco, muito bem elaborada brincando com as luzes e usando tudo ao seu favor. Entrando logo antes do rapper Baco Exu do Blues, ele também reforçou a importância de apoiar esses nomes novos da música, de dar atenção à todos os nomes e chegar junto nessas produções. Esse último por sua vez, focou seu show ao redor do seu último álbum “Blvesman”, onde fez todo mundo cantar as suas mais conhecidas no nicho que marcou presença no festival.

Celebrando a diversidade cultural, musical e reforçando as identidades individuais das pessoas, o “Queremos! Festival” provou que é feito para todas as idades e para todos os públicos. Desde Gal Costa até Allie X, o que mais nos chama atenção é essa mistura doida que dá certo. Quebrando todas as barreiras possíveis, criando um espaço onde todos se divertem e se abraçam como indivíduos, ficamos na expectativa dos próximos passos desse festival, crescendo cada vez mais.