Como Steven Universo desafia papéis de gênero em 30 minutos

Quando um cometa mágico atinge a cidade de Beach City, personagens sobrenaturais aparecem integrando a vizinhança e com elas outros eventos sobrenaturais. Steven Universo é uma animação do Cartoon Network – emissora de TV fechada no Brasil -, criada por Rebecca Sugar que desde 2014 vem quebrando muitos padrões narrativos da televisão, aliando-se à comunidade LGBT em muitos desses momentos. Corajosa, determinada e inovadora, a criadora do projeto não parou apenas em um casamento lésbico, “Steven Universo” redefine vários papéis da sociedade e o que eles realmente significam para nós. O melhor disso tudo é que ela normaliza narrativas não só para o público jovem-adulto, mas também para o público infantil que consome a série.

Com episódios pequenos que não chegam a bater 30 minutos de duração, “Steven Universo” é uma série que mistura comédia e musical, onde seguimos os eventos que acontecem em uma cidade fictícia chamada Beach City. Nessa cidade estão as “Crystal Gems”, seres de outro mundo, vivendo em um templo antigo à beira-mar protegendo a humanidade das ameaças que se resumem a monstros e outros aliens da mesma espécie. As Crystal Gems são: Garmet, Ametista, Pérola e Steven – mais tarde são adicionadas outras personagens que também entram no nosso tema -, esse último sendo um garoto meio-humano que herdou sua pedra preciosa de sua mãe Rose Quartz, ex-líder das Crystal Gems. Redefinindo os valores das Gems a todo momento com sua “humanidade”, Steven tenta entender seus poderes crescendo ao lado de seus amigos, seu pai e um leão misterioso que o acompanha em aventuras quase-sinistras – se não fosse por todo o esquema de cores chamativos da série.

A série de Rebecca Sugar já esteve envolvida em várias polêmicas, e muito disso vem pelo fato de que toda sua mitologia e background vem aliado à comunidade LGBT mesmo que às vezes isso apareça de forma bem sútil. As “gems” – criaturas que foram nascidas em outros planetas -, respondem à um tipo de estereótipo de personagem que está ainda tentando aprender sobre a sociedade e qual é o papel delas nesse lugar, já que todas as principais são lidas como mulheres – mesmo que “estranhas”. Pérola, Garmet e Ametista estão sempre interferindo em assuntos “sociais”, desafiando esses papéis e mostrando que todas as formas de amor também são válidas. Um desses momentos fica mais claro quando ao longo da produção somos apresentado à “fusão” de duas Gems femininas, criando uma mais forte e maior. Esse tipo de aspecto da série, foi censurado em muitos países, considerando essa “fusão” um elemento muito adulto e até mesmo impróprio. Rebecca Sugar faz duas Gems – que são na maioria das vezes fêmeas – dançarem juntas, entrarem em sincronia e por meio o “amor” que elas sentem uma pela outra tornam-se uma Gem mais poderosa ainda.

E não foi apenas esse aspecto da série que foi censurado. Com referências visuais à animes da mesma emissora como “Sailor Moon” e “Revolutionary Girl Utena”,as Gems são a representação de uma exaltação do poder feminino, e no grupo principal temos uma personagem específica que é portada como a mais “poderosa” entre as três: Garmet. A personagem citada é fruto de uma dessas fusões, um traço que é revelado apenas no final na primeira temporada. Rubi e Safira são representadas como um casal lésbico que se apaixona em um momento de crise do império do planeta em que viveram, para além disso, elas são vistas como um aspecto “bizarro” da criação da sua espécie, porque se fundiram e vivem fundidas na maioria do tempo – são poucos os epis em que estão nas suas formas originais. Elas têm que enfrentar toda a sociedade Gem lutando por um amor puro que uma sente pela outra, o que acaba sendo demonstrado em vários números musicais. Esse aspecto do relacionamento das personagens foi censurado em vários países, inclusive aqui no Brasil, o que gerou uma série de petições para a Cartoon Network transmitisse o conteúdo sem nenhum tipo de corte – resultando em uma transmissão quase simultânea com os EUA.

A criação de “Garmet” representa tudo que a série quer colocar em pauta. Os criadores da série confirmaram que ela é uma personificação do amor e da bondade, do laço forte e do relacionamento que Rubi e Safira compartilham. A personagem é uma das maiores tentativas que Rebecca Sugar tem de desafiar as narrativas LGBT inserindo representatividade na série, sem nunca parecer algo vazio. O relacionamento de Garmet é mais do que concretizado quando temos o primeiro beijo e casamento lésbico do canal Cartoon Network no 24º episódio da quinta temporada de Steven Universo. Momento que gerou várias polêmicas, mas normalizou o tema que parece ser tão “tabu” e ainda teve um alcance maravilhoso para seu público infantil – que neste ponto já tinha se tornado uma mistura entre o citado e o jovem-adulto.

Mas os questionamentos da criadora não acabam por aqui. Há outros personagens que também fazem essas “fusões” e são completamente julgadas por isso. Peridot é uma das que julgam, mas acaba tendo um momento de redenção onde aprende que foi ensinada errada – fazendo alusão à homofóbicos que “se convertem” -, e logo depois é pega nutrindo sentimentos por uma outra Gem. Temos também a construção da relação entre Pearl e Rose Quartz – a líder e melhor amiga. Essa relação beira entre o companheirismo e a paixão platônica, o que é tratado sem nenhum tabu, com cenas de confissão e momentos passionais. Além disso o império das Diamantes está sempre reforçando comentários metafóricos sobre a nossa sociedade, e com como lidamos com certas questões.

O nosso personagem principal é, ao lado de Garmet, um dos maiores desafiadores de papéis de gênero. Steven usa uma camisa rosa, sua pedra preciosa é rosa e ele não costuma ligar para essas cores “pré-definidas”. Mas para além disso, em vários episódios conseguimos ver como Rebecca Sugar aprofunda o “papel” de um menino jovem de 13 anos como herói principal. Steven não é um menino regular, ele é inocente, gentil e sensível, esses tipos de características ficam fortemente aparentes ao longo da série, ele não responde à masculinidade tóxica de outros personagens de outras séries, e isso é uma boa maneira de mostrar às crianças que elas não precisam ser agressivas, ou raivosas, ou “másculas” para serem meninos.

Steven Universo é pautado em uma reversão completa do que a sociedade espera de um menino, e o que a sociedade espera de personagens dessa faixa-etária também. São várias as séries que usam esses traços como chacotas, por exemplo em “Padrinhos Mágicos” temos Timmy Turner que é motivo de piada por usar rosa. Também temos no próprio Cartoon Network, séries do começo dos anos 2000 onde personagens masculinos que se portavam femininamente eram sempre retratados como motivo de piada. A sensibilidade de Steven acaba sendo um dos traços mais fortes dele, Rebecca Sugar explora isso até os momentos mais cruciais da narrativa da série, onde essas características fora do padrão são exaltadas em favor do personagem e de todos na série.

No Brasil, Steven Universo faz sucesso não apenas com as crianças mas também com jovens-adultos. Carentes de um desenho que suprisse as necessidades deixadas por Sailor Moon, ou pelos mais famosos do Cartoon Network, Steven Universo chega para suprir essa lacuna, preenchendo-a com muita cor, mitologia complexa e episódios engraçados que acabam sendo uma forma de escape para muitas pessoas. Para os mais velhos, a série pode ser uma forma de enxergarem seu passado enquanto crianças, ao mesmo tempo servindo como a melhor forma de normalizar discursos e vivências LGBT que temos para novas crianças que consomem a série, crescerem cada vez mais aliadas à causa. A série vai ganhar seu primeiro filme ainda esse ano.