PRIDE MONTH: 5 filmes LGBTQ que ficaram fora do radar

É oficialmente o 🏳️‍🌈 Mês do Orgulho LGBT 🏳️‍🌈 e o JESUSWORECHANEL não podia deixar de comemorar a ocasião com uma série de posts especiais cobrindo a inserção LGBT nos vários nichos da cultura pop que nosso blog costuma abarcar. Celebrado em junho devido às revoltas de Stonewall e pondo em pauta o orgulho da diversidade de orientações e identidades sexuais, o Pride Month abre por aqui com esse post sobre filmes que já vinha sendo planejado há algum tempo mas que só agora arranjou a desculpa perfeita para sair do papel.

O status de “nicho” é quase inerente quando tratamos de produções cinematográficas de viés LGBT, mesmo no atual cenário da indústria do cinema onde temáticas e protagonismos nesse terreno estão finalmente desembarcando em praias mainstream – como os recentes sucessos moderados de público “Moonlight”, “Call Me By Your Name” e “Love, Simon”, sem contar nos títulos mais modestos em público mas amplamente abraçados pelas premiações, como “Uma Mulher Fantástica”, ou pela crítica, como “The Miseducation of Cameron Post” e “Desobediência”. Por essa existência já um tanto quanto segregada, além de demais problemas como dificuldade financiamento e distribuição, é comum que obras interessantes de temática LGBT acabem passando sem muito impacto ou quase que totalmente despercebidas pelo grande público ou até mesmo pelo público interessado por cinema.

Com isso em mente, o JESUSWORECHANEL listou cinco filmes LGBTQ dos últimos anos com níveis variados de desconhecimento (e também de temática) no intuito de mostrar que o Cinema Queer anda mais prolífico do que nunca, com um quantitativo considerável de obras que desafiam gêneros cinematográficos, exploram novas dimensões de imagem e narrativa e trazem representatividade para subdivisões da própria sigla que geralmente são relegadas ao coadjuvantismo ou simplesmente invisibilizadas na grande tela.

FACA NO CORAÇÃO (2018)

Ok, talvez “Faca no Coração” não seja um dos títulos mais desconhecidos daqui, afinal ele estreou no Festival de Cannes de 2018, onde concorreu à Palma de Ouro e eventualmente saiu com críticas mistas pela imprensa internacional. A obra é o segundo longa-metragem do diretor francês Yann Gonzalez, conhecido por um longo catálogo de curtas e pelo seu ótimo filme de estreia, “Os Encontros da Meia-Noite“, além de ser irmão do Anthony Gonzalez do M83 e enfiar uma trilha sonora assinada pelo projeto em quase todas as suas produções. “Faca no Coração” joga fora as convenções comuns de filmes LGBT recentes (romance, coming of age, romance-E-coming-of-age) para homenagear um gênero mais incomum e – até onde eu lembre – que nunca sequer flertou com filmes desse nicho, o terror de assassino italiano, ou giallo… nada além do gênero ao qual a versão original de “Suspiria” é geralmente associada.

Pontuado por aspectos oníricos em toda a sua construção, o longa se passa no verão de 1979 em Paris, onde uma série de misteriosos crimes sangrentos começa a assombrar os atores de uma produtora capenga de filmes pornôs gays. A onda de assassinatos logo chama a atenção da diretora desses filmes, Anne Parèze, que é jogada em um turbilhão de acontecimentos que envolvem a investigação desses crimes e também os dramas que permeiam seu relacionamento fracassado com a editora de suas películas pornográficas, a irredutível Löis. Apesar de uma ou outra derrapada de tom (o drama amoroso lésbico da protagonista nunca é passado com naturalidade e parece distrativo em boa parte do filme), Yann Gonzalez é bem-sucedido em converter a imagética fetichista e estilizada dos filmes giallo para o mundo do erotismo gay, com cores neon que deixariam Dario Argento orgulhoso e uma boa dose de objetificação masculina que é divertida e nunca parece gratuita – apesar do tema abordar a pornografia. Os humores variantes, que vão do erótico ao drama pastelão e ao suspense, dão uma estranha unidade kitsch para “Faca no Coração”, que exige uma boa capacidade de abstração para ser apreciado mas nunca falha em surpreender.

PRINCESS CYD (2017)

Indo para o universo dos filmes indie americanos, “Princess Cyd” é uma peça iluminada que pega elementos do coming of age mas trata eles de forma menos óbvias – tudo pela mente do diretor Stephen Cone, que é basicamente especializado em filmes desse gênero. O longa foca na personagem-título Cyd Loughlin, que passa a morar por um tempo com sua tia materna Miranda por conta de alguns problemas de relacionamento com seu pai. Com um background conturbado mas uma forma leve de encarar várias questões da sua adolescência e amadurecimento, vemos Cyd como uma personagem interessante e com uma aura até meio misteriosa (apesar de toda a película ser focada nas vivências e pensamentos dela).

O ponto-chave do filme é a relação da Cyd com a Miranda, duas personagens com semblantes diferentes mas que acabam se completando em uma relação por vezes harmoniosa e pela qual o roteiro consegue de forma equilibrada mostrar novas dimensões dos arquétipos de sábio e aprendiz. Já a parte LGBTQ fica por conta das descobertas amorosas e sexuais da Cyd, que adquire um fascínio curioso pela personagem Katie – essa atração entre as personagens é tratada com uma naturalidade ímpar, que reflete as características de um bom filme de amadurecimento mas também respeita as decisões e o modo de pensar peculiar da personagem Cyd. O estranho tom otimista que “Princess Cyd” possui do início ao fim (mesmo quando lida com vários temas pesados como abuso sexual, suicídio e depressão) é o que traz ao longa uma característica amplamente divisiva: o espectador pode enjoar disso em algum momento dos 90 minutos de duração sem grandes acontecimentos narrativos do longa ou abraçar a forma afável como a vida da Cyd acontece por baixo da luz suave que emana em quase todos os quadros da obra.

BIXA TRAVESTY (2018)

Bixa Travesty“, como pontuado por sua própria protagonista e diretores Kiko Goifman e Claudia Priscilla, não é um filme sobre a Linn Da Quebrada, mas sim um filme com a Linn Da Quebrada. Tendo seu ponto de vista documentarial focado na artista subversiva paulistana, o longa é um retrato da vivência travesti/transsexual no Brasil em sua dimensão política, artística e civil. Linn é certamente a personagem mais apropriada possível para viabilizar as ambições do documentário: com uma bagagem rica de experiências, um corpo de trabalho artístico perfeito para musicalizar o filme e um carisma e atitude necessários para preencher sem distrações os 75 minutos da produção, ela consegue trazer para a tela a quebra de paradigmas e militância despudorada que um filme-manifesto como esse necessitava mostrar.

O documentário é dual, hora tendo implicações mais amplas quanto ao seu tema, hora focando mais especificamente na Linn como personagem em si e sua ótima interação com outras participações importantes, como Liniker e especialmente Jup do Bairro. O cotidiano da Linn, personal footage e demais montagens do longa também contribuem para que encaremos a artista em seus diversos aspectos, seja numa proporção mais alegorizada, performática ou pessoal.

RAFIKI (2018)

Dirigido por Wanuru Kahiu, “Rafiki” é um drama queniano LGBT focando em uma história de amor lésbico que não só quebrou as barreiras dentro de sua narrativa, mas também fora dela. Em meio a uma proibição no Quênia pelo seu teor homossexual (o país criminaliza a homossexualidade e muito recentemente vetou recursos de entidades pró-LGBT que lutavam pela descriminalização), “Rafiki” desenha com tintas claras as questões de gênero e religião dentro do país através do romance adolescente entre duas jovens mulheres, Kena e Ziki. Mesmo sendo uma história feliz, destoando um pouco das tragédias nacionais ocorrendo por lá, o filme demonstra claramente as pressões familiares sobre essas duas mulheres, e isso vai para além de sua sexualidade, já que as duas são como um Romeu e Julieta LGBT do Quênia.

Além de ser extremamente transgressor, a diretora de “Rafiki” passou por uma briga judicial para que o filme tivesse o direito de ser exibido no país mesmo com toda suas restrições. A história que mostra a pureza de uma amizade crescendo para um romance ganhou essa “luta”, tendo como resultado o reconhecimento de um grande sucesso no país através das pessoas que se identificaram com a trama.

LES GARÇONS SAUVAGES (2017)

A ideia de assistir “Les Garçons Sauvages” me fascinava desde muito antes do filme chegar às minhas mãos ̶p̶o̶r̶ ̶v̶i̶a̶s̶ ̶i̶l̶e̶g̶a̶i̶s̶, afinal, o filme possui um dos visuais mais viajados que eu já observei em longas recentes. Dirigido e roteirizado pelo francês Bertrand Mandico, que possui uma lista enorme de curta-metragens tão fascinantes quanto esse longa, “Les Garçons Sauvages” estreou no Festival de Veneza em 2017 e posteriormente ganhou fama ao rankear na primeira posição dos melhores filmes de 2018 pela revista conceituada Cahiers du Cinèma (que já incluiu entre seus críticos-escritores gente como Jean-Luc Godard e Éric Rohmer).

Com uma produção extremamente estilizada, que conta com cenários ao mesmo tempo deslumbrantes e kitsch, cores exóticas, fotografia granulada e montagem que remete aos antigos filmes de piratas e corsários, o longa nos transporta para o começo do século XX, onde cinco garotos adolescentes cometem atos abomináveis sob o comando de uma entidade oculta chamada TREVOR. Como punição pelos seus atos, os garotos são enviados por seus pais em uma viagem na embarcação do personagem “O Capitão”, que acaba rumando para uma ilha misteriosa com acontecimentos estranhos e a frequente emanação de poderes mágicos perturbadores. O filme brinca frequentemente com paradigmas de gênero, sendo provavelmente o trabalho mais “queer” de fato que apareceu nessa lista – com forte alegoria/imagética fálica e vúlvica sendo utilizada em vários momentos importantes, uma metamorfose nesse sentido sendo o mote principal do roteiro e o famoso fato de que todos os garotos que protagonizam “Les Garçons Sauvages” são na verdade interpretados por mulheres cis.

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