TRACK REVIEW: Katy Perry – Never Really Over

Os álbuns “Teenage Dream” e “Prism” marcaram a Katy Perry como uma artista dedicada ao pop-chiclete e com estética colorida, jovial, campy eescrachada(mas ainda assim um tanto… provocativa). Esses lançamentos, de longe os mais bem-sucedidos da gata, foram os responsáveis por pavimentar todo o imaginário do público sobre a Katy, o que dificultou o caminho da cantora rumo a um amadurecimento sonoro e imagético: como alguém levaria à sério um trabalho mais ~maduro e sóbrio~ de uma mulher que até dia desses fazia clipes em cenários temáticos de parques de diversões como “Roar” e “Dark Horse”? Perante esse contexto, o “Witness”, projeto definitivo de amadurecimento da artista, se mostrou quase como uma falha criativa e comercial, criando uma sensação de estranhamento sobre tudo o que a Katy Perry se propunha a fazer e até minando a boa relação que o público-comum costumava ter com ela.

Algumas decisões no caminho do “Witness” foram essenciais para que essa situação indesejável se desenvolvesse, especialmente quando a Katy decidiu, na época, que deveria investir suas fichas em um grande single de cunho político-social – algo que nem ela estava preparada para escrever e nem o seu público estava preparado para ouvir. É muito provável que a cantora tenha levado os percalços dessa época como um aprendizado, entendendo os erros cometidos e analisando quais seriam os contornos que ela deveria fazer para finalmente mostrar uma imagem madura que pudesse ser assimilada de forma harmônica pelo público e pelos seus fãs. O resultado dessa possível reflexão está em “Never Really Over“, single que encabeça as divulgações do quinto álbum da Katy e que dá quase um reboot na imagem dela: é como se a faixa fosse a transição certa do “Prism” para um novo patamar da sua carreira, tornando o “Witness” uma espécie de anomalia no meio do caminho.

Com batidas e parte da composição assinada pelo Zedd (que já havia trabalhado anteriormente esse ano com a artista na ótima “365“), “Never Really Over” é um número de synthpop gradativo e rapidamente digerível, feito na medida certa para ter alta rotatividade nas playlists de streaming ao redor do mundo mas também esbanjando uma aura de refinamento na sua produção, temática e interpretação. A letra versa sobre o exercício malsucedido de autocontrole da Katy para suprimir um romance que já acabou, dando um salto interessante quando o direcionamento lírico muda em certo ponto e mostra como esse romance vai lentamente retornando e se remendando, anulando qualquer tentativa de supressão. Na faixa, a artista acaba aceitando essa questão na transição entre a ponte e o refrão – que é catártico e entoado quase na velocidade de um trava-línguas por cima de sintetizadores tão borbulhantes quanto a trilha sonora de um comercial de refrigerante. É notável como a letra é confiante em sua temática e escrita com certo esmero, tendo uma sensibilidade e precisão imensas e se diferenciando de forma monstruosa das letras meio desleixadas que preenchiam 2/3 das faixa do “Witness”.

O mais legal do single é como ele é construído de forma a parecer que vai se utilizar da tática genérica de “beat drop” no lugar de refrão – pense em qualquer música de DJ que vai crescendo até culminar em uma batida instrumental dançante onde deveria ser a parte principal -, mas acaba dando uma guinada de direção logo a seguir e investindo em um rumo bem singular. A faixa formula toda uma tensão na sua ponte, com percussões estrondosas e um clímax vocal, que leva o ouvinte a prever a parte instrumental que verá a seguir, mas no fim das contas somos agraciados com um refrão cantado de verdade, que é dinâmico o suficiente para se firmar como o grande fator-surpresa que eleva o single em vários aspectos. O próprio trabalho vocal da Katy Perry na canção parece bem mais afiado que em ocasiões anteriores, demonstrando uma amplitude de texturas e um alcance suficientemente abrangente nas partes mais exigentes (e felizmente sem os exageros que poderiam deixar a faixa meio over ou exporiam as alardeadas falhas vocais da gata).

Um retorno tão agradável de uma artista grande que parecia perdida depois de um trabalho equivocado é sempre algo bem-vindo, e “Never Really Over” deve ganhar o público por não forçar uma suavização de imagem meticulosamente planejada (mesmo que ela seja planejada em algum nível), tendo um ar de “progressão natural” do trabalho da Katy e sendo uma brisa otimista de ar fresco no catálogo dela – com uma boa pitada de fuga da zona de conforto como se o pop-chiclete dela finalmente tivesse encontrado um meio-termo entre a sacarina e o xilitol.