Rocketman é tudo o que Bohemian Rhapsody queria ser

Elton John vem tentando desde o início dos anos 2000 produzir uma cinebiografia sobre a sua carreira. O projeto chegou a passar pela mão das mais diversas produtoras hollywoodianas e somente agora, partindo da aposta cega em Bohemian Rhapsody e do sucesso estrondoso que o filme foi, que a biopic de Elton John chega ao grande público. É por conta exatamente de Bohemian que fica quase que impossível não comparar os dois filmes, principalmente se tratando de ícones da cultura pop e LGBTQ+. Dirigido por Derek Fletcher, o diretor contratado para finalizar as gravações de Bohemian após Bryan Singer ter sido demitido, Rocketman é tudo que Bohemian gostaria de ter sido e não chegou nem perto de ser. É curioso perceber como um projeto que nasce inteiramente com a visão de um diretor acaba por ser bem diferente de um outro que ele teve que socorrer as pressas, por mais semelhanças que ambos possam ter.

O filme é extremamente bem sucedido ao nos contar a história de Elton John, interpretado (na maior parte do filme) pelo talentosíssimo Taron Egerton. O estilo narrativo adotado aqui é quase que de um musical surreal, onde grande parte dos números musicais estão também nos dizendo sobre algo que está acontecendo na tela, fazendo com que a conexão entre as músicas de Elton John e sua própria história tomem proporções ainda maiores. O fato de Rocketman não querer somente contar a história como se fosse qualquer outra biopic mas sim conecta-la com músicas que o cantor lançou durante a sua carreira acabam sendo uma incrível sacada. Isso acaba dando oportunidade para que as músicas que foram selecionadas para a trilha sonora sejam um show à parte, tendo em vista que muitos números musicais são extremamente coreografados, cheio de gente por todo lado, com muito glitter e lantejoula, sendo espalhafatoso e gay do jeito que Elton John é e merece ser visto como.

Aliás, não fugir de questões extremamente importantes, sejam elas “tabu” ou não, na vida de John acaba sendo um dos pontos mais fortes do roteiro de Lee Hall. A descoberta da homossexualidade é tratada de forma completamente delicada e sensível e muito disso é transmitido em cenas com quase nenhum diálogo, como os shows em que John participa da banda de apoio. Todo o resto de “polêmica” em volta desse tema, como seus relacionamentos ou sua saída do armário, são naturalizadas e inseridas em ótimos contextos, como de onde sai a performance de Your Song. É ótimo ver que há gente corajosa para quebrar tabus e trazer novos contextos para filmes grandes de estúdio e que não se acovardam em colocar cenas de sexo gay, que são necessárias para o andamento da trama.

Não só isso, como também Hall é eficiente ao mostrar todos os problemas que o cantor enfrentou durante sua vida e a construção de personagem é incrível. Há uma sinceridade muito maior ao mostrar diversas facetas de Elton John em diversas fases de sua vida, em seus bons momentos e em seus momentos péssimos. Não há nada que escape ou que tente fazer com que o cantor seja visto apenas na sua melhor forma, algo que poderia claramente acontecer tendo em vista que John é um dos produtores do filme e o projeto surgiu a partir do próprio. Pelo contrário, vivenciamos tudo em sua vasta trajetória e a performance de Egerton ajuda, já que ele é extremamente convincente com seu Elton John, especialmente nesses momentos que exigem mais da carga dramática dele. O resto do elenco também está incrível, com destaque para Jamie Bell, que faz um carismático Bernie Taupin, e Bryce Dallas Howard, como a fria mãe de Elton John.

A trilha sonora acaba sendo um destaque a parte. Taron Egerton é um excelente cantor e suas melhores performances estão nas que ele pode provar isso, como no repertório mais lento e de baladas de Elton John. Não há uma música que tenha ficado deslocada do filme ou de seu contexto e todo o trabalho afiado do time por trás de Rocketman é algo deslumbrante de se ver. Como já dito antes, muitos dos números acabam trabalhando em cima do “quanto mais, melhor” e acabam sendo partes extremamente divertidas do filme e que com certeza convencem como um filme musical sobre um dos maiores astros da música pop.

Em suma, Rocketman é gay, majestoso, surreal, espalhafotoso e magnífico na medida certa. Os números funcionam, o elenco é carismático o suficiente e a história te prende do início ao fim. Estreia hoje, dia 30 de maio, nos cinemas e vale a pena conferir na telona.