BICHAFORK: Tyler, The Creator – IGOR

Depois de um breve retiro de produção artística, Tyler, The Creator volta com a narrativa de seu personagem “IGOR”. Mais “pesado”, sombrio e ácido do que seu antecessor, o último álbum do rapper preferido do núcleo alternativo nos presenteia com uma imersão em vários ritmos diferentes, colaborações com La Roux, Kanye West e até mesmo Solange Knowles – sua amiga pessoal, e uma participação especial esperada por muitos. Diferentemente do suave “Flower Boy” onde o próprio artista se colocava em diferentes dedicatórias à um par romântico, ou até mesmo suas faixas que puxavam bastante para esse meio, “IGOR” ainda tem bastante romantismo, mas é muito mais ácido e honesto, uma vez que até sua bissexualidade é colocada como tema. Escrito, arranjado e produzido pelo próprio Tyler, The Creator , ele prova em seu sexto álbum de estúdio que ele é uma das maiores forças a ser reconhecidas na indústria fonográfica misturando seus lançamentos passados com novas referências.

Passando por vários movimentos da música trap/hip-hop dos Estados Unidos, Tyler coloca em seu trabalho o suor do seu mérito “solo”, confiando em si mesmo e levantando questões sobre um homem negro dentro da sociedade norte-americana, através da história de seu personagem, IGOR. Fica muito claro a tentativa de expor uma narrativa quando percebemos que somos introduzidos ao próprio com “IGOR’S THEME” – uma faixa onde a voz de Lil Uzi Vert e Solange aparecem constantemente – nos synths que parecem trazer um pouco dos anos 80 e me lembraram até mesmo da famosa “Sexual Eruption” de Snoop Dogg, até o momento onde Tyler pergunta “ARE WE STILL FRIENDS?” referenciando essa jornada profunda, sobre as incertezas de IGOR em um relacionamento não superado.

Tyler, The Creator explora as suas próprias questões românticas através de um personagem criado por si mesmo durante 12 faixas de pura excelência. Reservado para as mídias em que é entrevistado, quase nunca falando de sua vida pessoal, Tyler usa suas plataformas musicais para realmente explorar seus sentimentos e suas dúvidas. Muito disso fica claro em “IGOR” quando o rapper segue sua narrativa inventada com vários fundos de verdade, onde podemos muito bem nos relacionar com o que ele está cantando em versos rápidos e bem rimados, como de costume. “EARFQUAKE” e “I THINK” se complementam muito bem, tanto tema quanto sonoramente, ambas tendo cordas de piano animadas ao fundo e um sentimento retrô impossível de não se sentir. Sem contar a perfeita “bridge” de “I THINK” que o próprio Tyler diz ter recriado 9 vezes, alcançando uma perfeição incrível.

O intérprete de “See You Again” está realmente interessado em mostrar a complexidade de um relacionamento envolvendo profundidade entre duas pessoas um tanto complicado. IGOR – ou Tyler – está sempre interessado em fazer o outro amá-lo, afirmando que está ficando cada vez mais sem tempo para que isso concretize-se. Conflituoso como qualquer ser humano em um desses momentos, o rapper está sempre dizendo como está apaixonado e em um momento seguinte ele segue implorando para a pessoa não largá-lo de vez. As inseguranças em geral, não deixam de tocá-lo em algum momento. “NEW MAGIC WAND” é acompanhada de uma bateria pesada que sustenta os sentimentos obsessivos de Tyler, The Creator nessa faixa que por vezes, soa um tanto sinistra no meio das outras faixas.

Ainda sobre relacionamentos, ou apenas um relacionamento, Tyler dá até a entender uma ambiguidade sobre sua sexualidade que já foi constantemente posta na mesa. “BOY IS A GUN” e “PUPPET” saem um pouco do curso distorcido dos synths e baterias pesadas que dominam a maioria das faixas, e ambas se complementam quando Tyler dá a entender que ele também se sente atraído por um garoto. Com interpretações variadas que ficam realmente abertas, os personagens passam a não ser tão convencionais quanto achávamos. E isso não é uma temática apresentada apenas nessas duas sonoramente parecidas. Também ouvimos o rapper expondo que sabe os “segredos” de uma pessoa na faixa de seis minutos “GONE, GONE / THANK YOU”.

Agradecendo talvez aos ouvintes de “IGOR”, em uma faixa que eu achei que seria o final do álbum, Tyler, The Creator faz uma música multi-estrutural que alcança níveis transcendentais no ouvinte. Exatamente por explorar e mudar muitas vezes sua sonoridade, trazer de volta alguns samples de músicas de antes, mas sem deixar de mostrar que a décima faixa tem seu próprio destaque. Sem contar também com o pedaço de “City pop” – sub-gênero do pop japonês dos anos 80 – que ele coloca aqui, usufruindo da letra e da melodia de Tatsuro Yamashita. Essa “Track 10” do Tyler, The Creator é um elemento que ele vem trazendo em todos seus álbuns desde “Bastard” e tem dado certo até então.

Como toda boa narrativa, Tyler também dá um final à sua. Em “IGOR” o vemos batalhando com questões românticas profundas que só podem ser resolvidas por ele próprio, através desse personagem que ele criou. E em todo término passamos pelo último estágio do luto onde finalmente superamos um amor arrebatador como “IGOR” enfrentou. Além disso, também vemos o personagem ainda querendo manter uma relação de amizade com seu “former lover”.

Para alguns “IGOR” foi “muita coisa” para ser processado. Toda a sonoridade, letras e melodias que às vezes parecem um tanto bagunçadas foram na verdade um grande mergulho na mente criativa do rapper. Dizer que ele entrega trabalhos pobres seria uma inverdade, desde o começo de sua carreira o esforço colocado pelo mesmo em suas obras é inegável, e quase sempre ele entrega uma obra extremamente perfeita. “IGOR” tem todos os elementos de um grande álbum, a narrativa começa consistente e termina da mesma forma, tendo Tyler, The Creator como um grande aventureiro não só nos seus sentimentos, mas também na música negra dos Estados Unidos, na sua sexualidade e também na sua carreira, visto que ele literalmente mistura elementos de seus lançamentos passados nessa obra de 12 faixas.

Complementando muito bem a sua mensagem, contando sua história para o mundo todo, “IGOR” consegue alcançar todos os seus objetivos de ser uma obra milimetricamente pensada e produzida. Tendo gravado uma bridge nove vezes, modificando de várias formas, acho que é seguro afirmar que Tyler, The Creator tem um cuidado extremo com suas produções e está sempre interessado em se superar, além de superar as expectativas de seus fãs – e obviamente surpreender a crítica especializada que ainda não entendeu o artista. Se ainda não estava claro para algumas pessoas, “IGOR” chega na carreira de Tyler, The Creator para mostrar mais uma vez que ele é um dos maiores nomes no rap no momento.

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Tyler, The Creator, “IGOR” (2019)

Gênero: Rap, hip-hop, r&b

Nota: 9,2

Destaques: “I THINK”, “EARFQUAKE”, “BOY IS A GUN”