TRACK REVIEW: Halsey – Nightmare

Eu particularmente nunca simpatizei muito com a Halsey: na minha concepção ela sempre representou aquele tipo de produto midiático meticulosamente promovido por grandes gravadoras pra vender rebeldia jovem e estéticas atreladas a isso fingindo ser algo autêntico. A atitude pseudo-revoltada, os cabelos com cores berrantes, a aura de “artista alternativa” e os posicionamentos pós-modernos em relação a sexualidade e saúde mental – tudo parece ser pensadamente colocado para dialogar com as ansiedades e necessidades de um público jovem-adulto que está crescendo na era do Spotify. Tirando essa primeira impressão imagética e comportamental que eu tive da artista (e que no final das contas é a que fica), o material dela também nunca me convenceu por ser raso em quase todos os sentidos, com um trabalho vocal sofrível, sonoridades desinteressantes e letras quase sempre estúpidas. Os assuntos apresentados no primeiro álbum dela, por exemplo, são interessantes pela pertinência perante ao seu público – e cobrem áreas como cultura pop, questões sociais, sexo, amor, drogas, representatividade – mas sempre acabam sendo desenvolvidos de maneiras datadas, genéricas ou no mínimo mal executadas.

Ok, no fim das contas a Halsey começou a evoluir numa velocidade vagarosa mas notável. Sendo ou não sendo um produto de gravadora, a cantora deve ter aprendido com o universo da música ao redor e começou a dar passos rumo a um melhoramento de seu trabalho, uma espécie de lei do esforço mínimo que começou a funcionar para ela e render material bem menos medíocre. Se o seu segundo álbum, o “hopeless fountain kingdom“, já exibia uma ou outra faixa promissora (especialmente quando ela resolveu abandonar a forçação de cantora pseudoalternativa, que era um fato que contribuía para que ela fosse julgada por “falta de autenticidade”), os últimos singles mostraram mais claramente que a música da Halsey pode ser plausível, até meio agradável – o trap insosso de “Without Me” não é algo que eu ouviria com devoção mas é uma faixa muito eficaz e identificável, enquanto o single mais recente, “Nightmare”, representa talvez o maior acerto da cantora até agora.

Nightmare” é planejada para ser uma espécie de hino de empoderamento feminino em tom agressivo. A letra cobre terrenos como a não-submissão à dominação patriarcal, o reconhecimento de que as personalidades femininas podem ser conflituosas, a dificuldade de lidar com autoimagem etc, tudo jogado num liquidificador e definitivamente fragmentado ao ponto de parecer meio genérico como os esforços anteriores da Halsey quase sempre soaram. Enquanto essa parte é cheia de deméritos, a tentativa de mensagem da canção consegue ser salva pelo fato de que a sonoridade de “Nightmare” é provavelmente a coisa mais interessante que cantora já manufaturou até agora. Produzida por nomes já conhecidos de quem acompanha música pop como Benny Blanco e Cashmere Cat (responsáveis por um ou outro hino subestimado), a faixa intercala a quase onipresente trap music com um rock bem colocado em seus refrões e que remete diretamente ao rock adolescente feito no início dos anos 2000, especialmente os melhores momentos da discografia da dupla russa t.A.T.u., como “All The Things She Said” e “Loves Me Not“.

A Halsey incrivelmente consegue vender a música com uma performance interpretativa interessante, passando os sentimentos certos em cada uma das partes “fragmentadas” da música, como o tom confessional dos versos ou a voz irônica e cheia de rancor que começa vulnerável e progride até um grito arranhado na seção do “Come on, little lady, give us a smile (…)“. O refrão é entoado com intensidade e com a urgência de uma sirene enquanto as guitarras distorcidas são abafadas hora ou outra por uma bateria forte e oriunda do hip-hop – que é com certeza a cereja no topo do bolo. Claro que com um single desse tipo nada funcionaria caso os visuais não fossem impactantes o suficiente, e o clipe de “Nightmare” consegue elevar apropriadamente as ambições da Halsey. Com uma dezena de tentativas imagéticas feitas para ressoarem com o público jovem, indo de cenários de prisão, brigas de gangues femininas a footage da ideia mais básica de um show de rock, o tratamento visual do single é uma bagunça acertada e com a iconicidade que os lançamentos anteriores da artista andavam em déficit.

Não sei se eu ainda dou o braço a torcer pela Halsey, mas pelo menos agora eu tenho menos justificativas para continuar antipatizando com a gata. A não ser é claro que eu resolva ler o que ela posta nas redes sociais vez ou outra. Argh.