Os 10 anos de Glee e sua influência na geração Tumblr

10 anos atrás, em um buraco de representatividades televisivas e quando esse assunto nem sequer era colocado em discussão, Glee surgia para sanar a vontade de todo “outcast” que não se encaixava em nenhum grupo de pessoas. Com uma narrativa de inclusão e um elenco cheio de problemáticas – afinal ou estão presos, ou envolvidos com polêmicas políticas brasileiras -, a série de Ryan Murphy conquistou uma legião de adolescentes que estavam ainda em formação, ao lado da ascensão da rede social Tumblr, que ficou povoada por esses grupos. Glee queria contar a historia de um grupo do coral feito de pessoas “normais”, com muito talento e que fizessem parte de minorias oprimidas, porém, seus enredos eram por vezes vazios e mal acabados.

É claro que Glee foi um marco na cultura pop da pré-década de 2010, estamos chegando ao final dela e ainda percebemos jovens que descobrem, redescobrem e se identificam com aquelas narrativas postas em mesa e com o carisma e conflitos dos personagem. Mas a realidade é que muitos viam em Glee o único bote salva-vidas em meio a um naufrágio audiovisual. A indústria não se importava com representatividade, essa pauta não estava ainda tão protagonista das produções, e isso acabou por ser o fator inovador da série musical. A questão toda é que a própria formou uma geração de pessoas que buscavam o tempo todo, de forma superficial, os mesmos enredos.

Com um elenco de personagens compostos por um cadeirante, uma menina negra plus size, um gay e uma menina punk asiática, comandados pela judia que sempre sonhou em ser estrela da Broadway, Glee lançou seu apelo a uma massa que não se enxergava nessas produções, e o problema todo parte do princípio de que varias pessoas só tinham essa mesma série como comparativo. Os discursos vazios, as representatividades falhas e os mil casos horríveis do elenco no set, deixavam essa legião de “gleeks” – como se chamavam na época – reproduzindo cada vez mais esse tipo de coisa, formando um caráter que mesmo que tenha sido bom pra muitas pessoas nos estagnou em uma mentalidade rasa.

Ryan Murphy cresceu seu nome com a série que abraçava todas as minorias, fez disso sua única marca original – tirando a parte do musical – e mordeu além do que sua boca conseguia mastigar. Depois da primeira temporada, que ao meu ver é perfeitamente bem escrita, Murphy resolveu atender à legião de fãs que alcançava até então e pôr o temido “fanservice” em questão, e foi nessa relação de troca que a série perdeu completamente a linha narrativa. Um plot atropelava o outro, quase nenhum chegava a uma conclusão. Esses remendos que faziam Glee sobreviver com pouquíssima credibilidade já em sua época.

Mesmo que o show tenha se tornado um “atendimento ao fã do Tumblr, com possibilidades incríveis de histórias bem fechadas, Glee ainda servia muito bem como um musical, se destacando no gênero pelas suas vozes marcantes como Lea Michele e Naya Riveira – rivais no set. Afinal de contas, a própria série que fazia covers de músicas famosas de todas as épocas – dependendo da temática do episódio -, ficou reconhecida por 207 entradas no chart da Hot 100 da Billboard.

Para aos que se agarraram em Glee, como eu fiz em uma época sombria (risos), a série sempre vai ser aquele cantinho especial que teremos na nossa adolescência. Mesmo com todos os defeitos, ainda nos víamos naquelas personagens, cantando os sucessos da vida real e sendo encorajados a seguirmos os nossos sonhos independentemente do que achariam dele.