BICHAFORK: Carly Rae Jepsen – Dedicated

É seguro dizer que o synth e o revival dos anos 80 salvaram a vida da Carly Rae Jepsen: anos atrás ela apostou todas as fichas em um álbum baseado nessas sonoridades, com o produto disso sendo o inescapável “E•MO•TION”, que fez a crítica musical olhar com mais seriedade para a artista, tirou o estigma de “one hit wonder” da Carly (embora ela realmente não tenha conseguido nenhum hit massivo após “Call Me Maybe”) e realizou o importante papel de fidelizar um grupo de fãs em torno da cantora. O disco foi trabalhado e re-trabalhado (vide o “Side B“) por anos e deixou sua marca por unir o pop brilhante e sentimental já desenvolvido pela Carly com produções apuradas e nostálgicas de gente do cacife do Ariel Rechtshaid, Dev Hynes, Mattman & Robin, Shellback e Greg Kurstin.

Bom, a fase E•MO•TION passou e deixou suas marcas. Agora cada passo da artista seria seguido com ânimo pelo público fã de música pop “fora da curva” em uma eterna ansiedade pelo material que sucederia um disco tão ressonante. Os passos pareciam promissores: Carlyzinha colaborou com gente interessante da música alternativa (como na retribuição de favor em “Better Than Me” do Blood Orange e com nomes envolvidos com a PC Music em “Super Natural” do Danny L. Harly e “Backseat” da Charli XCX), lançou a faixa de trilha-sonora “Cut to the Feeling”, uma das suas músicas mais “imediatas” e dançantes, além de anunciar que estava escrevendo mais de 100 músicas para o próximo trabalho (!).

O caminho até o “Dedicated” começou a ser trilhado com mais afinco em novembro do ano passado com o lançamento do single “Party for One”, que infelizmente pareceu uma escolha pouco eficiente para um retorno tão aguardado. A faixa, que funciona bem no contexto do álbum, não parecia a coisa certa naquele exato momento – nada nela evocava um impacto inicial forte o suficiente para chamar a atenção do público e nem o seu refrão possuía os altos níveis de melodias grudentas amplamente explorados em carros-chefes anteriores da Carly como “I Really Like You” e a lendária “Call Me Maybe”. O problema pareceu sanado meses depois quando ela passou por cima desse primeiro lançamento e soltou as faixas agregadas “No Drug Like Me” e “Now That I Found You”, que trouxeram de volta aquele pop eufórico e infeccioso pelo qual a artista havia conquistado as massas (risos) anos atrás. Apesar do potencial das canções, nada ali parecia chegar perto dos melhores momentos do “E•MO•TION”, o que deixou uma pulga atrás da orelha: será que viria um material fraco e derivativo por aí, algo que tentaria fortemente emular o trabalho anterior mas não chegaria nem perto?

O “Dedicated” no final das contas não é de todo mal. Talvez o que mais pese inicialmente sobre ele seja a forma como o disco decide manter a quase exata sonoridade oitentista-moderna do “E•MO•TION”, só que sem um brilho ou polimento similar ao seu antecessor e também sem uma lista de colaboradores igualmente relevante. Esse tipo de revival sonoro dos anos 80 parecia fresh logo quando o “E•MO•TION” saiu, mas agora em 2019 meio que todo mundo faz isso seja no alternativo ou no mainstream, o que torna um tanto arriscada (pra não dizer pouco acertada) a escolha da Carly em manter esse padrão musical como sua espécie de “assinatura” instrumental.

Ignorando esse fato e pulando para o conteúdo do álbum, apesar de nada aqui beirar a perfeição synthpop de “Run Away With Me” ou a entrega emocional nostálgica de “Your Type”, o material dispõe de números dançantes agradáveis e ganchos vocais fáceis que guiam o ouvinte em uma viagem suave e sem grandes momentos de brusquidez ou estranhamento. Poucas faixas realmente se destacam no percurso do disco mas nada é nele parece desagradável: a rápida impressão que fica é de que o “Dedicated” entrega uma tracklist redondinha e eficaz, capaz de entreter sem muita dificuldade qualquer pessoa que queira ouvir um pop bem-acabado e que não exija grandes esforços intelectuais (mas que também não soe enjooso e insincero que nem os exemplos desse tipo de música no pop mainstream… cof cof).

Só que… sei lá… quem disse que pop inofensivo e pouco ambicioso é bom? Aqui o que salta os olhos é a contradição sobre como um material tão inofensivo acaba irritando um pouco exatamente por ser inofensivo demais. Nos momentos mais decentes do álbum o ouvinte se depara com números que poderiam facilmente ter saído do catálogo de melhores deep cuts da Kylie Minogue, como as supracitadas “No Drug Like Me” e “Now that I found you“, mas até esses pontos altos do “Dedicated” parecem ter sido feitos no piloto automático – a energia e otimismo amoroso meio-inocente-meio-provocativo da Carly estão ali, mas você sente que as faixas não possuem mais nada a entregar além dessa diversão de 3 minutos e 20 segundos. Nada é apoteótico, nada parece como uma evolução do “E•MO•TION” ou como o fruto do amadurecimento artístico da artista nesses quatro anos de intervalo de um disco para o outro, nada grita para o mundo que o “Dedicated” existe com seu mérito próprio.

Tudo piora quando você percebe a tendência de letras quase monotemáticas e bastante enfadonhas da Carly: as músicas dela sempre abordaram pesadamente o tema amor, mas aqui a temática é explorada de forma tão repetitiva e preguiçosamente criativa que nada consegue se destacar liricamente no disco INTEIRO. São várias músicas sobre o sentimento palpitante de um início fervoroso de paixão ou sobre alguma situação desinteressante no meio de um relacionamento e nada de fato parece grudar. Os momentos líricos de importância do cd surgem em respiros raros, como na declaração de intensidade exagerada de “Too Much” (com um dos refrões mais “moderninhos” do trabalho) ou na letra de fim de relacionamento que dispensa a fossa e mira na valorização do amor próprio – e da masturbação feminina – em “Party For One” (que sem muitas surpresas acabou sendo reduzida somente a uma faixa bônus, relegada a uma disposição um tanto quando infeliz na tracklist).

O tanto de coisa a ser reclamada no “Dedicated” ainda assim não consegue apagar a aura de “sentimentos conflituosos” que o disco emana. Primeiro que é quase impossível odiar a Carly Rae Jepsen, já que o carisma dela é inegável e isso transparece por quase todas as 13 músicas, mesmo nas sequências menos inspiradas dessas faixas. Segundo que o disco não está nem perto de ser irritante ou só grosseiramente ruim, e ele ainda por cima apresenta alguns surpreendentes momentos de genialidade sutil em canções como “Everything He Needs“, com um refrão groovy e cheio de vocoder que sampleia a música “He Needs Me” da trilha sonora de um live action de Popeye (sim), e “Julien”, que possui aquela energia pop automática que preenche algumas das faixas do “E•MO•TION” e ainda revela um dos instrumentais mais funky e refrões mais cantáveis do álbum inteiro.

Sendo ou não sendo o disco que o público esperava, o fato é que ele firma as bases da Carly no tipo de música pop que ela deseja fazer… é uma zona de conforto extremamente doce e afável, e por isso não dá muito pra julgar a escolha da cantora em permanecer ali. Talvez essa inércia sirva para que a artista posteriormente se lance em aventuras sonoras mais arriscadas agora que ela possui um terreno sólido para poder decolar. Talvez não. O álbum, na forma como está apresentado, é até bastante ciente da própria condição – ele não possui a validade a longo prazo que o disco anterior possuiu mas ao mesmo tempo não vai parecer um erro de percurso daqui a alguns anos.


Carly Rae Jepsen, “Dedicated” (2019)
Gêneros:
Pop, Synthpop, Bubblegum pop
Destaques: “No Drug Like Me”, “Too Much”, “Julien”, “Everything He Needs”

Nota: 7,3