bibliopoc #8: "The Diviners" – O diálogo entre a fantasia e o thriller policial

Quando uma série de crimes mirabolantes tomam conta dos grandes noticiários de Nova Iorque, medidas ainda mais mirabolantes tem que ser tomadas. E para o inexplicável, “The Diviners” (série de livros que ainda está para ser terminada) tem a explicação necessária para desvendar crimes com a ajuda de médiuns carismáticos e uma narrativa um tanto conspiratória. Libba Bray viaja para a década de 1920, onde as redes sociais ainda não tomavam conta da nossa rotina, escrevendo em uma obra extensa todo o seu amor pela grande maçã norte-americana através de personagens marcantes, e um thriller-policial que evolui naturalmente para uma obra ainda mais fantasiosa.

A série de Bray, conta hoje com 3 livros já publicados e um prestes a ser lançado. “The Diviners”, “The Lair of Dreams” e “Before The Devil Breaks You”, são capítulos de uma história só que mesmo com os elementos de um livro jovem-adulto, tem a extensão dos livros de George R. R. Martin. No livro, encontramos nosso mundo real sendo imerso em mediunidade e uma América recém-formada que tem problemas de receber sua diversidade – o que ainda é uma herança do país. Por conta disso, tudo que acontece desde o primeiro livro com nossa personagem principal Evie O’Neill, até o terceiro com personagens novos, parece ser muito palpável, até porque há também no livro uma diversidade de pessoas, narrativas e etnias incomparável. Todos esses elementos contribuem para Bray ter criado uma peça inigualável e inovadora dentro do ramo em que está inserida.

Meio “Scooby-doo”, meio “X-Men” e até mesmo meio “Justice League Dark” – esse último por todo seu aspecto underworldly de mediunidade -, a série jovem-adulta que também é um thriller fantasioso conta em seu primeiro livro a história da recepção desses “diviners” na sociedade norte-americana. Com ajuda da narrativa de Evie O’Neill, uma jovem que sonha em sair de sua cidade natal e consegue indo morar com seu tio em Nova Iorque, esse por sua vez detentor de um museu de ocultismo, onde ele também dá aulas sobre o assunto. Mas o que nossa protagonista não sabe, é que temos um assassino em série a solta pelas ruas da cidade, usando e abusando de simbolismos ocultista de uma religião. Evie, por sua vez, consegue “ler” objetos só de tocar neles, e depois de seu tio ser chamado para ajudar na resolução do caso, a personagem ambiciosa por uma nota em jornais importantes, se mostra preparada para participar dessa missão.

Para quem gosta de um bom thriller “The Diviners”, o livro 1 da série de mesmo nome, não irá decepcionar. O mistério feito através da construção do enredo é envolvedor e assustador ao mesmo tempo. É como se fosse um passado sujo de uma celebridade que você gosta, você quer muito saber sobre ele mas também tem medo do que está por vir. E quando se trata de “medo”, Libba Bray comanda muito bem o gênero. Extremamente explícita com sua escrita “gorey”, a autora da série não poupa palavras em criar uma atmosfera que realmente faça o leitor se sentir imerso nela, é grandioso, tenebroso e viciante ao mesmo tempo. Eu não costumo ter medo de algum livro, achava que as coisas que não são visuais são menos marcantes, mas em “The Diviners” me peguei tomando sustos em diferentes ocasiões. O que diz muito sobre a escrita de Bray.

Poética e lírica, Libba Bray nos oferece um prato cheio de citações quando se trata dos seus livros, e ao longo da série vamos percebendo muito bem isso. Principalmente porque temos um poeta no elenco de personagens, chamado Memphis. Vindo do Harlem, sendo a figura negra que não poderia faltar nesse contexto histórico, o personagem é um curandeiro ao mesmo tempo que poeta, e ao mesmo tempo que se apaixona por Theta Knight, uma showgirl da época. Por essa razão – e claro que por ser seu tipo de escrita também – Libba não poupa prosas quando se trata das suas páginas. Ela é tão rica no que faz que todos os seus personagens são extremamente humanizados, tridimensionais e profundos, cheios de narrativas diferentes que vão se conectando de uma forma ou de outra.

Os conflitos de “The Diviners” são diversos, o que também diz muito sobre a diversidade que a autora está interessada em imprimir em seus trabalhos. Com personagens de diferentes sexualidades e diferentes etnias, ela faz um contraponto que falta em “X-Men” – quadrinhos da Marvel. Essa última trata os “poderes” de seus personagens como o único fator que afasta-os da sociedade, claro que existem sim alguns que fazem partes de minorias oprimidas, mas para uma série que bebe diretamente dessa fonte é chocante que maior parte de seu “elenco” não seja formada assim, diferentemente de “The Diviners”, uma série que consegue linkar a mediunidade como “poder mutante” e ao mesmo tempo fazer uma dualidade de grupos minoritários detentores dessas mutações.

É por isso que a série que continua prosseguindo em seus passos deveria receber mais atenção de sites e mídias que usam o mesmo argumento para enaltecer séries meia-bocas, mal tendo uma representatividade e extremamente mal escritas. Diferentemente delas, “The Diviners”, tem tudo que um livro precisa ter para aumentar sua leva de fãs e amantes da obra. Além disso, seu aspecto fantasioso é extremamente inovador para o jovem-adulto.

O drama policial de seu primeiro livro não foi feito antes. Claro que há varias obras “urban fantasy”, onde narrativas que envolvem elementos mais “críveis” são postas em pauta ao lado da ficção, mas “The Diviners” coloca a mediunidade na mesa como algo a ser celebrado. Esses poderes mediúnicos bebem diretamente de uma fonte de crenças em religiões diversas que ainda estavam chegando nos Estados Unidos e foram apagaras completamente, mas que também sempre estiveram ali do lado deles como Libba Bray muitas vezes explicita em seu universo literário.

Mesmo com alguns erros ao longo da série como algumas coisas terem seu desenvolvimento só no livro seguinte – algo que eu particularmente não aprecio -, os três tem seu valor indiscutível para a carreira da autora e para o enriquecimento narrativo-fantasioso da série. O drama policial, evolui para algo mais “grandioso”, evoluindo para um problema ainda maior que se conecta com uma figura que Libba Bray não deixou de menciona em algum momento. Acaba que tudo fica bem fechado, com pouquíssimas margens pra erro. E como na série “The Raven Cycle”, aqui também temos os personagens que carregam muito bem a dinâmica de tudo.

Como um livro de fantasia, “The Diviners” é muito bem sucedido. E o mesmo funciona se analisarmos a obra em um gênero de terror, ou suspense policial. São temas que dialogam entre si de varias formas diferentes e que fazem sentido serem tão diferentes por conta dos entrelaçamentos narrativos. Cada livro nos dá uma resposta, e Libba Bray não deixa de nos presentear com uma boa escrita. O último livro da “The Diviners”, se chamará “The King Of Crows”, e sairá no próximo ano (2020), mas enquanto ainda não temos data definidas, ainda dá tempo de acompanhar esse final épico.