A democratização do LEMONADE é o melhor acontecimento de 2019 até agora

Parando para refletir sobre a Beyoncé, se existe algo que ela soube mais do que qualquer artista nessa última década foi fazer com que cada um de seus lançamentos virasse um verdadeiro acontecimento na cultura pop – um processo gradativo que começou no seu quarto álbum de estúdio, o “4”, e foi escalando de formas cada vez mais inesperadas até conseguir elevar a cantora ao patamar atual… nada mais que uma das maiores popstars dessa geração (!). O produto mais notável desse processo foi o álbum “Lemonade”, de 2016, um êxito criativo sem precedentes que conseguiu reunir temáticas socialmente relevantes, storylines aparentemente pessoais, músicas ressonantes de qualidade ímpar e visuais impactantes em um só projeto, hoje amplamente considerado como o magnum opus da artista.

Como toda a perfeição sempre tem algo pra atrapalhar, o disco passou bons três anos disponível apenas parcialmente ao público: a única plataforma de streaming onde o álbum se encontrava era o TIDAL, conhecido fracasso empresarial do marido da estrela, o Jay-Z. Esse problemão finalmente foi sanado agora no último dia 23 de abril, com o hype do filme Homecoming levando à liberação do trabalho em todas as plataformas realmente populares de música, dando uma chance para que o público finalmente possa redescobrir o Lemonade – mesmo que ele mal tenha tido tempo hábil para ser esquecido. Claro que essa é a oportunidade perfeita para que o impacto e o legado do disco sejam reavaliados pela equipe do JESUSWORECHANEL – que ama um buzz em requentamentos da indústria pop e também ama ganhar views da beyhive – , afinal, não é todo álbum que rende um burburinho tão grande com um simples acontecimento depois de três anos de seu lançamento oficial.

ANTECEDENTES

Embora em ritmo mais espaçado e com um semblante bem menos alardeado, o trabalho da Beyoncé nunca foi isento de posicionamentos sociais de qualquer tipo. Mesmo que timidamente, a artista, ainda em seu início de carreira no girlgroup Destiny’s Child, já abordava assuntos como liberdade e empoderamento feminino (expressão que até então nem sequer era empregada): “Bills, Bills, Bills” e “Independent Women (Pt. 1 e 2)” eram hinos sobre independência financeira direcionados a um público jovem feminino, especialmente negro, que via no grupo um role model de vida adulta e uma inspiração comportamental. Já canções como “Girl“, “Hey Ladies” e “Survivor” lidavam com tópicos como a sororidade e a resiliência feminina perante adversidades, especialmente oriundas de relacionamentos que hoje em dia chamaríamos de tóxicos. Esses pedaços da discografia das Destiny’s Child, hoje um tesouro inestimável do R&B do final dos anos 90 e começo dos anos 2000, estavam anos-luz à frente do pop feminino feito na época, mas ainda assim a Beyoncé não era amplamente celebrada pelo seu trabalho avant-garde nas ondas do feminismo do início do milênio e do empoderamento de uma juventude negra feminina – talvez porque esses assuntos ainda não fossem analisados com as lentes e o peso que eles recebem hoje em dia ou talvez porque a mídia na época não quisesse levar à sério o fato de que uma integrante jovem de girlband estava fazendo um trabalho socialmente relevante sem abandonar as estéticas mainstream… mesmo que a própria Beyoncé assinasse como compositora principal na maioria das faixas citadas.

Partindo em uma carreira solo já inicialmente muito bem-sucedida em 2003, talvez esses assuntos tenham ficado de fora das primeiras empreitadas de sucesso mundial da Beyoncé, já que não vimos uma progressão das temáticas de empoderamento da época dos Destiny’s Child no primeiro disco solo da artista, o “Dangerously In Love“, por exemplo, que tinha seu foco muito específico em baladas sobre amor e uma ou outra faixa single-ready. Já no “B’day” os temas voltados ao universo do feminino são retomados, mas dessa vez tão diluídos em concepções senso-comum sobre isso, quase sempre elencando interesses amorosos e discutindo conflitos unicamente a partir deles (ou falando de coisas tipo… vestidos). A grande volta do empoderamento feminino no material da artista se deu em “Run the World (Girls)“, no álbum “4”, que serviu consideravelmente para que ela fosse mais levada à sério como musicista e abriu espaço para que a Beyoncé voltasse a abraçar esse tipo de tópico social com mais firmeza já no álbum seguinte. Com o timing certo pra aproveitar uma época em que o engajamento social na dimensão virtual crescia cada vez mais, a cantora apostou todas as suas fichas em uma imagem agora oficialmente feminista (com menções bem explícitas, imagéticas e auditivas sobre o movimento) no álbum “Beyoncé”, rendendo músicas como “***Flawless (feat. Chimamanda Ngozi Adichie)” que deixavam claro que a mulher tinha a possibilidade e cacife de cantar sobre pautas progressivas e fazer isso de uma forma contundente e comprometida. Todo esse panorama, misturado com a forte ligação da cantora com as suas raízes na comunidade negra (visto que, por exemplo, ela nunca se afastou da música negra R&B e já até gravou um álbum todo inspirado em sonoridades Africanas que eventualmente foi engavetado), serviram como progressão natural para que o “LEMONADE”, em seu âmbito temático e conceitual, pudesse acontecer.

O primeiro contato que tivemos com a obra foi com o lançamento relâmpago de “Formation” em fevereiro de 2016, com um clipe poderoso e repleto de iconicidade disponibilizado de forma não-listada no youtube da cantora. Esse lançamento foi logo engatado com o show de intervalo do Superbowl de 2016, em uma performance que reuniu também Bruno Mars e o Coldplay – e o que se deu a seguir facilmente contrastou com as músicas pacifistas vanilla que esses dois atos apresentaram. No meio da performance, Beyoncé surge de surpresa com um batalhão de dançarinas e uma imagem que mostrava uma cantora completamente diferente do que a sociedade norte-americana branca costumava interpretar. Beyoncé, fazendo menção ao grupo Panteras Negras, embarcou em uma viagem hip-hop/trap que rendeu uma repercussão escandalosa e com impacto até maior do que ela provavelmente imaginava alcançar. A performance e a canção em si causaram uma evolução completa na relação da cantora com as pautas sociais, que agora se firmaram como uma grande bandeira de sua artisticidade mais do que uma mera temática no meio de diversas outras como costumava ser anteriormente. Enaltecendo a cultura negra, sonora e visualmente dávamos início ao ciclo musical de uma nova Beyoncé, onde ela não reconhece apenas o passado da sua comunidade, mas também aborda o presente e quem sabe até mesmo o futuro da experiência afro-americana.

Muito se questionava sobre qual seria o próximo passo na carreira de Beyoncé. O silêncio especulativo da produção de seus trabalhos é quase assustador, já que ela possui maestria na arte de produzir seu trabalho de forma extremamente discreta e sem grandes pistas. Claro que depois do lançamento de seu álbum visual, ato que marcou para sempre a cultura pop e a carreira da própria, um momentum ainda mais grandioso deveria ser feito por Beyoncé e sua equipe. Para superar o “BEYONCÉ”, a vencedora de 22 grammys deveria pensar muito bem como seria a progressão dele, afinal foram vários clipes de músicas cheias de personalidade, tendo impactos individuais em cada uma delas. O “LEMONADE” surgiu dessa necessidade de ser ainda maior do que antes, um projeto ambicioso de documentário que seria exibido na HBO e um álbum conceitual nos moldes de grandes trabalhos de artistas de David Bowie, Kate Bush ou Prince.

DISPOSIÇÃO MUSICAL

Para esse álbum a Beyoncé resolveu apostar ainda mais na diversificação de estilos musicais que a sua artisticidade pode englobar, algo que já vem de herança do seu disco anterior. Toda a variedade de gêneros encontrada nas músicas é carregada por duas linhas conceituais: a primeira mais lírica e narrativa, com uma história de abandono, traição e perdão sendo desenvolvida do começo ao fim nas canções, e a outra linha mais imagética e iconográfica, como empoderamento da população negra norte-americana sendo o destaque, pontuando suas origens e as batalhas enfrentadas que essa população ainda enfrentava no contexto social-político de 2016. A miríade de sons no disco (que vai do rock ao country e às baladas mas sempre traz em sua fundação o R&B) é bem-planejada e ajuda na fluidez dele, que começa nas camadas sonoras sutis de “Pray You Catch Me”, fica mais agressiva à frente com “Don’t Hurt Yourself” e vai gradativamente se acalmando no turbilhão de faixas mais atmosféricas próximas ao final, como “Love Drought” e “Sandcastles”. Essas características fazem o “LEMONADE” possuir uma identidade muito própria apesar da variedade de coisas que abarca – o álbum parece “vivo”, com suas contradições, humores e decisões sendo justificáveis e com uma capacidade de complementaridade incrível.

Claro que essas questões devem ser creditadas à forma de trabalho quase cirúrgica que a Beyoncé possui de organizar seus discos. Neste ela elencou um batalhão de colaborações e foi lapidando o trabalho de diversos artistas talentosos até conseguir extrair aquilo que comunicasse da melhor forma suas intenções narrativas – já parou para pensar como o “LEMONADE” é um disco extremamente acessível, cuja história consegue ser facilmente assimilável pelo público (ao menos o falante de inglês) sem muitas cambalhotas intelectuais e ainda assim consegue manter sua validez artística intacta sem parecer algo genérico ou raso demais? A precisão com que a artista traduziu um elemento denso da arte musical como o concept album num contexto amplo e mais direto da indústria musical mainstream mostra como ela já domina com maestria a linguagem da música pop, utilizando as disposições desse recorte do entretenimento ao seu favor.

Samples (que vão de Solja Boy a Led Zeppelin), colaborações (com nomes da música alternativa ou da música negra) e composições ressonantes são os elementos que ajudam a viabilizar a história planejada pela Beyoncé. Ao longo das canções vamos ela discorrer sobre seus sentimentos confusos em relação ao marido: primeiro navegando pela desconfiança em “Pray You Catch Me” – “Você pode provar a desonestidade / Está em todo o seu hálito” -, e depois passando pela ofensa em “Hold Up” até chegar à realização da possível traição entre “Don’t Hurt Yourself”. Nisso, cada música também simboliza um “sentimento” nessa história – como, por exemplo, “Don’t Hurt Yourself” sendo o sentimento de cólera sobre a descoberta da traição, uma raiva que é traduzida nos sons de rock intenso de cortesia do músico Jack White. Já “Sorry” é a apatia, o sucessivo desprezo da artista pelo homem que a traiu e a desprezou, onde ela reflete sobre ser maior que isso e que, apesar da dor emocional que toda a questão traz, ela precisa ter uma atitude mais dura para superá-la. Para se reinventar e aprender com a adversidade, Beyoncé volta às raízes para reafirmar sua personalidade (“Deddy Lessos“, uma faixa surpreendentemente Country) e reavalia sua ligação amorosa com seu marido (“Love Drought“), o que encaminha o álbum para todo um arco de redenção do homem até a celebração de uma reconciliação esperada entre os dois em “All Night“. Outras faixas não dizem respeito de forma intrinsecamente a essa narrativa, mas complementam o objetivo do disco, como “6 Inch” sendo um hino do apoio à independência financeira feminina (Destiny’s Child estariam orgulhosas) e “Freedom” e “Formation” deixando mais claro a abordagem do disco sobre o empoderamento negro.

O público nunca vai saber se a história de traição do álbum é diretamente baseada em acontecimentos reais entre a Beyoncé e o Jay-Z ou se tudo não passa de um enorme media play promovido entre eles. O fato é que, mesmo que a narrativa trazida pelo “LEMONADE” seja totalmente ficcional, ela continua sendo válida e interessante. A ficção é aceitável no universo da arte, mesmo que a música muitas vezes acabe sendo vista como uma subdivisão da arte que preza pela autoria, autenticidade e transparência do autor com o público – essa transparência não precisa existir e a Beyoncé entendeu muito bem que histórias podem ser criadas, manipuladas e dispostas da maneira que ela bem desejar. Caso tudo seja ficção, o importante ali é a dimensão performática da coisa, e nisso a artista em questão sabe se desenvolver com maestria… o disco afinal é a prova de que a Beyoncé sabe trabalhar o seu material com um poder de interpretação impecável.

DISPOSIÇÃO VISUAL

O álbum visual “Beyoncé”, de 2013, de certa forma deu um novo gás à dimensão imagética na música pop. O clipe voltou a ser importante, virou um elemento de batalha de marketing como nunca antes e provou que pode aparecer em dimensões bem mais diferentes do que os entrecortes curtos de 4 minutos que eles costumavam tomar forma. Enquanto naquele disco todos os clipes apareceram de uma vez só mas em suma eram produtos separados, bem divididos e diferentes entre si, no “LEMONADE” a Beyoncé tomou uma abordagem mais ambiciosa com esse elemento, fazendo clipes para cada música que seguiam uma narrativa e uma coesão visual do começo ao fim (com exceção talvez de “Formation” que é quase um vídeo “bônus” aparecendo durante os créditos), transformando tudo numa espécie de filme. O visual do “LEMONADE” engloba uma série de ideias que se seguem de forma suscetiva intercalados por transições que dão liga à massa e fazem tudo ficar conectado. Monólogos, poesia, personal footage ou mesmo apenas títulos para seções específicas firmam a multiplicidade de ideias em uma coisa unificada e que consegue traduzir as intenções líricas do disco mas também trabalhar a dimensão social dele – e é especialmente na parte visual que os temas sociais do álbum são melhores exploradas.

Com iconografia fortemente inspirada na África ou no contexto sulista da época da escravatura negra dos Estados Unidos, o filme passeia por visuais de orixás, tribos e aspectos culturais de matriz negra. Esses elementos se traduzem em pinturas corporais, participações de artistas diversos e até em looks da Beyoncé, como o maravilhoso vestido amarelo de “Hold Up” e sua referência visual à Oxum – também reprisada em outro vestido na sua performance do Grammy de 2017. Entre uma canção e outra também paramos para ver referências mais recentes à vivência negra norte-americana, como cenas que remetem à luta dessa parcela da população por direitos civis ou mesmo depoimentos de familiares de vítimas da onda cada vez mais sufocante de brutalidade policial contra os negros no país. Algumas canções são privilegiadas com tratamentos visuais mais completos enquanto outras aparecem de formas mais parciais, porém todas possuem sua própria força dentro da disposição “cinematográfica” do “LEMONADE”, o que consegue fazer com que elas fiquem facilmente marcadas na mente do público, contribuindo para aquela sensação de que o álbum é um corpo de trabalho completo, onde tudo apresentado por ele é consideravelmente importante e nada está ali para encher linguiça.

O “LEMONADE” não é apenas sobre empoderamento – mesmo que boa parte de seu material seja voltado para esse aspecto – ele é um exercício de entendimento de narrativa e também a solidificação do status de uma das maiores popstars do cenário atual. O disco prova que a Beyoncé não diminuiu a sua ambição à medida em que foi envelhecendo e, após 20 anos de carreira, ainda consegue apresentar um material de qualidade e com potencial para ser o trabalho com maior apelo cult de sua jornada artística (mas sem deixar de lado um ótimo apelo pop e radiofônico). Com a recente disponibilização do disco nas redes de streaming, felizmente o legado da obra vai começar a ser replicado e democratizado com o público – o que já pôde ser conferido pelo fato de que esse simples movimento de adicionar o disco no Spotify e Apple Music rendeu todo um momentum e inclusive a inspiração para esse texto. Talvez o único ponto negativo do álbum é que agora ele elevou o trabalho da Beyoncé a patamares tão altos que as expectativas para o seu sucessor talvez sejam irreais ou impossíveis de serem atingidas com precisão… se bem que não existe outra pessoa com potencial maior para subverter essas expectativas fazer algo totalmente fora do imaginável do que a própria Beyoncé.