TRACK REVIEW: ionnalee – SOME BODY

ionnalee, projeto atual da cantora sueca Jonna Lee parece uma força incansável desde que começou a bombardear o público alternativo com múltiplos singles em 2017, consequentemente engatando o aclamado (pelo menos aqui pelo blog) álbum “EVERYONE AFRAID TO BE FORGOTTEN” no início do ano passado. Sem muito tempo para enrolação, a artista já agendou um segundo álbum do projeto para esse ano, o “REMEMBER THE FUTURE”, que teve sua primeira amostra lançada em fevereiro na forma do single “Open Sea”. Enquanto “Open Sea” não agradou tão bem inicialmente o público da mulher, já que a faixa é mais musicalmente grower do que realmente um single de impacto (além de não se diferenciar muito sonoramente do disco anterior), a cantora agora apresenta “SOME BODY” como segundo single do LP e dá uma luz de esperança de que o novo trabalho vai alcançar sem muitos problemas o nível de qualidade que a carreira dela vem apresentando desde sua época de iamamiwhoami.

“SOME BODY” traz a especialidade da ionnalee: o synthpop misterioso e obscuro que complementa a imagem mais enigmática e de certa forma “experimental” que a artista foi agregando ao longo dos outros. Os versos são sóbrios, com synths atmosféricos e um bass eletrônico pululante que preenche as linhas entre as frases espaçadas da cantora, tudo para desembocar em um refrão que é bem mais suave, com inspirações descaradamente nu-disco, mais ou menos como se o Daft Punk estivesse produzindo uma faixa pro The Knife (por mais bizarra que essa comparação possa parecer). O contraste entre os versos e o refrão é ainda mais amplificado e explorado por causa das pausas pontuais e retornos que permeiam a estrutura da canção, enriquecendo a experiência auditiva que ela traz. O single é no geral um grande pedaço de retrofuturismo que dá total sentido ao título do novo álbum da ionnalee: elementos nostálgicos surgem durante toda a construção da faixa, mas ainda assim você possui a certeza de que está escutando algo que ainda soará contemporâneo mesmo daqui a alguns anos.

O interessante da letra de “SOME BODY” é como ela também segue o anacronismo do título “REMEMBER THE FUTURE”, indo de trás para a frente e de frente para trás em uma narrativa com temporalidade afetada mas que no final parece ser positiva. Apesar de frases e construções vagas, liricamente a canção parece lidar com o fato de que as relações amorosas trazem consigo uma única certeza: a de que vão render, em algum ponto de seu desenvolvimento, o sentimento de tristeza. Mesmo assim a ionnalee ainda quer que os aspectos positivos dessas relações sejam levados em consideração apesar da tristeza latente, e isso fica claro pelo clima otimista que o refrão traz ao entoar “And we remember the good times / Leaving splendour at all times / See the sun on blue new sky” em um pastiche-disco sintetizado e brilhante como papel alumínio.

Como complementaridade interessante, Jojo (de Jonna Lee, para fins de praticidade) engatou um visual hipnótico para “SOME BODY”, traduzindo na canção um pouco da identidade imagética do novo álbum e preenchendo o clipe com formas redemoínicas que tomam conta dos óculos escuros de homens padronizados e cobrem corpos desnudos com projeções de sombras. O que isso quer dizer especificamente sobre o álbum? Sei lá. A certeza é de que o “REMEMBER THE FUTURE” finalmente parece estar indo para uma linha promissora e nós poderemos conferir se essa trajetória de cronologia quebrada da ionnalee vai dar certo quando voltarmos alguns meses atrás e lembrarmos dos eventos inesquecíveis do dia dia 31 de maio de 2019.