Homecoming desconstrói a mega-estrela Beyoncé

A volta para casa de Beyoncé é o equivalente de uma deusa egípcia chegando em seus aposentos para clamar seu título novamente. Para a cantora que sempre esteve nos olhando de cima, muito diferente do “ser celebridade” na era das redes sociais, “Homecoming – A Film By Beyoncé” é muito mais que a consolidação do fato de ser a primeira mulher negra a ser atração especial dos finais de semana do Coachella. Óbvio que esse título tem um peso enorme, e tal peso é também carregado através das ideias conceituais de levar a sua cultura para milhares de pessoas celebrarem junto com você, mas em “Homecoming” a deusa egípcia que é pintada como pessoa acima de tudo, desce alguns degraus e mostra todas as suas vulnerabilidades, lembrando a todos que a celebridade “Beyoncé”, é também uma pessoa que poderia ser sua vizinha.

Isso é mostrado, analisado e dissecado meticulosamente por uma direção da própria Beyoncé Knowles de um momento onde ela quis passar por um “rito de passagem” universitário. O documentário é todo pautado na experiência da cantora de nunca ter passado por uma faculdade, e expressar através desse show conceitual o quanto ela queria fazer parte de tudo envolvendo uma universidade. Em um mar de rosas e amarelos, Beyoncé alterna os dois finais de semana em que foi atração principal do Coachella para criar sua própria república, cantar seus velhos e novos hits, lembrando a todos o que a deixou no pedestal em que ela se encontra – desconstruindo o próprio através do documentário.

Formulada pela cultura pop de simbologias o peso que o nome “Beyoncé” carrega é um tão pesado que só a própria poderia descarregar em um momento épico de sua carreira. A dualidade da diretora e “estrela” do documentário é posta à mesa o tempo todo nesse documentário. Em momentos variados conseguimos ver a superestrela dançando como uma máquina feita para comandar os palcos, mas logo depois somos lembrados dos momentos difíceis que precederam esses eventos tão majestosos de sua carreira. Em um dos segmentos, conseguimos ver Beyoncé traçando sua trajetória do momento pós-gravidez em que ela decidiu ser headline do Coachella, até o final de todo esse processo com todos os componentes no palco. Peças que nos fazem pensar que esse símbolo intocável da cultura pop, ainda tem os mesmos problemas que nós, ainda é frágil como nós e se arrisca de diferentes maneiras para que a construção do espetáculo não falhe.

“Eu nunca mais vou me forçar a ir tão longe quanto agora”, é uma das falas mais fortes de Beyoncé em uma narração por cima de imagens editadas especialmente para o filme do Netflix. De fato a estrela desse documentário atingiu novos altos em sua carreira após receber o título de primeira mulher negra a ser headliner do Coachella – evento bastante respeitável pela indústria fonográfica norte-americana -, e tudo ficou ainda mais crucial quando ela resolveu usar essa plataforma para celebrar a sua cultura. Todos os componentes do palco eram negros, da banda até as dançarinas, usando os instrumentos que a própria disse que formaram os melhores dias de sua vida quando criança. Seus limites são estendidos e sua força de vontade também, é inegável que Beyoncé tenha fogos nos olhos quando está no palco, pensando em como entregar o melhor para seu público.

O que também dialoga bastante com a construção musical que foi feita em torno de si mesma. Hits como “Crazy In Love” e “Formation” são compostos de vários instrumentos presentes nas bandinhas das faculdades, por um time de profissionais achados em vários campi de renomadas universidades norte-americanas, para parecerem que foram lançadas na mesma época e transportar quem estava ali para uma experiência universitária. O que seria a Faculdade Federal da Beyoncé toma todo o palco formando uma atmosfera infectada de toda essa sensação de que você está na verdade em seus anos de ouro, ao lado de seus amigos, curtindo um bom momento de música. Mas não qualquer música, Beyoncé deixa claro ao cantar “Freedom” e o “Black National Anthem” que sua mensagem deve ser bem clara.

A comemoração da cultura negra norte-americana traduz-se em todos os aspectos não só do “Beychella” – apelido recebido pelos fãs e reforçado por gritos da participação do DJ Khaled -, mas também do documentário “Homecoming”. O filme do Netflix não deixa de reforçar o quão é importante reconhecer seus antepassados. Beyoncé honra Malcom X e Nina Simone ao inclui-los antes, durante ou depois de performances de seus hits como “Drunk In Love” ou “Don’t Hurt Yourself”. Não é novidade que a “agenda” da ganhadora de 23 grammys tenha mudado completamente desde os ocorridos nos Estados Unidos, e o lançamento de seu álbum-filme “LEMONADE”. Exaltar e celebrar a cultura negra é a chave principal para a sua estética atual, e também as letras de suas músicas. “Homecoming” não foi diferente em nenhum desses aspectos, foi uma obra que exalou sua originalidade artística e teve a sua marca impressa em todos os momentos dali.

Seus convidados – parte de sua história – também fizeram esse evento um pouco mais interessante, e negro. A girlband “Destiny’s Child” fez mais uma aparição incrível cantando os hits dos anos 90, e sua irmã Solange Knowles fez uma participação despretensiosa, dançando com a irmã. Além de claro, os versos gritados do rapper Jay-Z que chocou à todos na plateia cujos gritos aumentaram ainda mais.

Isso também é prova concreta de que mesmo depois de 22 anos, três filhos e um casamento cambaleante – segundo suas próprias letras do Lemonade -, Beyoncé ainda consegue entregar um show eletrizante, quebrar recordes e ser o grande símbolo da cultura pop ainda que seja humana por trás disso tudo. Suas letras que gritam auto-confiança, atitude e auto-estima, são como um mantra para seu público que cresce com as mesmas convicções que a megaestrela do pop expõe para o mundo. E as faz de maravilhosamente. O Beychella foi a consolidação de que poucos nomes conseguem criar uma atmosfera performática tão boa e se safar ao fingirem ser universitárias com quase 40 anos de idade.

Com toda a dualidade que um documentário de Beyoncé possa ter, festejamos por ser um dos momentos raros que nos fazem lembrar porque gostamos tanto da mulher por trás do símbolo pop. É quando a ativista sai dos palcos, aplicando seus conhecimentos na vida real e pensando em si mesma enquanto apenas mulher, se expondo para nós dessa forma que nos conectamos realmente com Beyoncé. E enquanto esses cometas de “humanização” não passam, é sempre bom ver que a veterana da indústria ainda consegue entregar conteúdo de qualidade, com ou sem grandes produções, sendo um dos maiores nomes da cultura pop atual.

0 Comments

Comentários encerrados.