TRACK REVIEW: Madonna & Maluma – Medellín

É a décima-quarta vez que Madonna está entrando em um ciclo musical novo. Marcando o nascimento de sua persona “Madame X” – que vem sido divulgada por meio de teasers e fotos nas suas redes sociais -, “Medellín” é uma faixa puramente pop que não se distancia muito do que temos na dominação latina do mainstream atual, e Madonna como boa marketeira que é, vê no reggaeton mais uma tentativa válida de emplacar um hit de verão. A sensação “veraneia” e dreamy da faixa são interrompidos por todo o falatório de Maluma em espanhol, rapper que também não foi uma boa escolha para tomar de vez o refrão. Madonna tenta nos fazer viajar para a cidade colombiana que inspirou o nome de seu lead single, mas mal consegue nos lembrar de sua essência latino-americana deixada em seu auge com “La Isla Bonita”.

Tirando as esperanças de seus fãs por um material conciso e “diferente” do que ela vem fazendo, Madonna reforça mais uma vez sua vontade de se firmar na era dos streamings. “Medellín” pode parecer uma carta de amor de Madonna aos ritmos latinos que estão ditando as novas tendências, mas não supera as expectativas que colocamos no material novo da rainha do pop que volta de um hiatus de quatro anos – depois de uma tentativa quase desesperadora de arrecadar streams no Spotify com o “Rebel Heart”. A música é inofensiva, mas cansativa e repetitiva, conta com mais falas do Maluma do que da própria dona da música e não consegue dialogar com todo o impacto que o nome “Madonna” carrega com si mesma.

Durante sua carreira – de mais de 20 anos -, Madonna já entregou hits pop influenciados por ritmos latinos e tendências musicais em alta, “La Isla Bonita” é um marco em sua carreira, além de ser uma faixa impactante que repercutiu ao redor do mundo. Naquela época, ainda “novata” na indústria, parecia ser mais destemida do que a Madonna de “Medellín” que tenta de todas as maneiras desfazer os boicotes das maiores rádios norte-americanas lançando uma música feita nos padrões radio-friendly para que eles sejam de alguma forma “obrigados” a tocá-la. É óbvio que esse boicote é culpa deles mesmos, afinal vem de percepções machistas, com concepções de idade terrivelmente preocupantes, mas a rainha do pop não pode deixar seu reinado mal alimentado com colaborações feitas apenas para hitar.

Sim, Madonna sempre experimentou novos ritmos. Sim, Madonna sempre desagradou a muitos com suas escolhas. Mas “Medellín” não figura uma cantora ousada que gosta de aceitar que sua carreira é pautada em ritmos musicais, muito pelo contrário, parece mais uma cantora normal que está aceitando as tendências ditadas pela indústria fonográfica e as próprias rádios que a boicotam constantemente. O reggaeton nada mais é que a batida que está tomando todas as plataformas de streaming, e a intérprete de “La Isla Bonita” parece querer fazer parte desse auê musical.

Co-escrita por Madonna, com “cha-cha-cha’s” espalhados ao longo da duração da faixa, a composição sustentada por um alguns elementos eletrônicos é provavelmente um dos pontos altos da faixa. Com referências à Venus de Milo, e uma brincadeira quase-latinofóbica com os cartéis de droga da Colômbia, Madonna canta sobre como ela quer ser teletransportada para um lugar diferente, onde ela se sinta novinha de novo e possa encontrar o seu amor, amor esse que também conta com a ingestão de várias substâncias químicas. No seu refrão, a rainha do pop convida ao seu ouvinte, em espanhol, a viajar com ela para esse lugar mágico. Por isso talvez a faixa pareça ter seu pézinho nos comerciais da “CVC” de viagem.

O mais chocante é perceber que nem as batidas synth de Mirwais Ahmadzaï conseguiram carregar o lead single para uma experiência envolvente e realmente life-changing. Suas mãos são responsáveis por músicas como “Die Another Day” e “American Life”, e nem todo esse histórico exemplar conseguiu fazer de “Medellín” uma faixa aceitável como lead single. Talvez tenha sido a péssima ideia de deixar o Maluma tomar o refrão inteiro, com rimas pobres em espanhol que parecem mais versos de demos rejeitadas do Danny Blanco, ou o fato de que a faixa se repete muitas vezes, quase assumindo que é cansativa.

Mesmo assim, ainda acredito que a parceria com Maluma, cheia de erros e quase nenhum acerto, tem alguma personalidade maior que os lead singles de seus álbuns passados mais recentes. “Living for Love” e “Gimme All Your Luvin’ “ foram faixas que só seguiam a tendência edm-dance-trap que ela queria se inserir. O toque “latino” da produção, e uma perspectiva diferente – mas não diria tão diferente assim – da cantora no reggaeton, deram alguma originalidade artística que ainda pôde ser mantida pela rainha do pop. Mas ainda assim, o lead single do “Madame X” poderia ter se beneficiado de muitas outras coisas, agora o futuro para a persona é um cheio de incertezas.

Para um hiatus de quatro anos, dando as caras em apenas alguns eventos selecionados e lançando teasers de conceitos extremamente interessantes, a nossa Madame X não conseguiu suprir as expectativas para uma música diferente do que tá acontecendo nos top 10 das plataformas de streaming. Porém, faz sentido que a música tenha um ritmo parecido com o que está fazendo sucesso na Europa, visto que a rainha do pop estava morando em Portugal durante o processo criativo de seu álbum. Só esperamos encarecidamente que os próximos lançamentos não sejam tão decepcionantes.