A Ressurgência bruxa: das fogueiras para a Cultura Pop

Antes queimadas nas fogueiras da inquisição, hoje aclamadas em diversas formas de mídia. As bruxas que agraciam a internet com seus “virais” de hoje em dia nunca estiveram tão em “alta” como estão agora. Enquanto obras como “Suspiria”, “Malévola” e “A Feiticeira do Amor” pintam um padrão fora da caricatura no cinema, “O Mundo Sombrio de Sabrina” e “American Horror Story: Coven” fazem o mesmo nas séries de televisão, atribuindo características completamente diferentes para essas “criaturas”. Ainda assim, enquanto via essas obras algo sempre me chamava atenção: a clara necessidade de portar essas personagens em padrões tão modernizados, glamourizando seus rituais e as colocando sempre a frente de sua “época”. Por quê esses traços parecem ser uma regra de todas essas obras citadas?

Há quem diga que é mera escolha estética em prol das obras que estão criando, mas eu duvido muito que isso seja apenas uma coincidência. Mesmo com anos de separação entre uma e outra, é quase impossível não perceber as semelhanças entre “O Mundo Sombrio de Sabrina” e “Coven” – terceira temporada da série antológica American Horror Story -, nas formas de diálogo entre as bruxas, suas personalidades e principalmente suas roupas. O mesmo pode ser percebido no remake de 2018 de “Suspiria”. A narrativa das bruxas queimadas em Salem, ou aquelas outras que morreram com a inquisição, recebe uma redenção merecida para que possamos entender o que realmente são bruxas e as particularidades em suas histórias únicas, além de sempre vermos retratadas com as melhores roupas e/ou gritando “BALENCIAGA” minutos antes de serem queimadas.

As “bruxas da vida real” foram muito menos cultuadas em suas respectivas décadas de vidas ao redor do mundo. Caçadas, assassinadas e julgadas de todas as maneiras, essas mulheres que eram vistas como “bruxas” atravessaram o tempo conseguindo reviver na cultura pop como conhecemos hoje. Todas as bruxas das mídias já fizeram papéis importantes na vida de qualquer criança que consumia esse tipo de conteúdo, porém a realidade não fez esses símbolos serem tão cativos na vida real. O “ser bruxa” era condenado fortemente na Idade Média e nem significava fazer todo aquele tipo de bruxaria representada, segundo alguns julgamentos arquivados dessas eras do mundo muitos “crimes” de bruxas eram na verdade coisas comuns que fazemos hoje em dia.

A demonização das bruxas na Idade Média

O “ser bruxa” da Idade Média – uma ideia que viajou por muito tempo pelo mundo – era simplesmente não seguir as regras da sociedade em geral. Isso tudo teve seu início no século XV, atingindo seu auge durante os séculos XVI e XVIII, principalmente em países como a Alemanha, Escandinávia, Escócia, Inglaterra e Suíça. Mas na realidade os castigos à “feiticeiros” existem desde antes das Grandes Navegações, em sociedades nativas nos anos de antes de Cristo.

Durante o período da Idade Média “clássica”, o ceticismo em relação às bruxas havia aumentado de tal forma que proibiram as famosas “caça às bruxas”, em prol de um apagamento social. Em 1080 foi escrito um decreto que proibia a aniquilação dessas mesmas bruxas, pois os homens da igreja estavam com medo das tempestades, falhas na colheita e outras maldições que essas mulheres causariam à eles após as suas mortes. Foi a partir daí que essas “bruxas” se tornaram as pessoas mais respeitadas entre suas sociedades, entre elas estavam curandeiras, parteiras, terapeutas, advinhas, enfermeiras e entre outras posições de respeito na sociedade Medieval. Mas como nem tudo são rosas, a Igreja Católica começou a ser culpada por deixar bruxas serem integradas nos seus ambientes de “deus” e pensaram na maneira mais rápida de impedir que elas estivessem integradas na sociedade: culparam-as de conspiração para acabar com reinos cristãos através de magia. As inquisições começaram tímidas, mas aumentaram ao longo dos anos até se tornarem o que nós hoje em dia temos como referência da “Caça às bruxas”, desde os julgamentos de Salem até o Iluminismo chegando com novas crenças.

O conceito de “bruxas” foi muito mais amplo nos séculos XVII e XVIII. Curandeiras e benzedeiras eram os primeiros alvos de tudo, já que eram abertas sobre o que faziam e o Estado começou a não distinguir os tipos de bruxas existentes. Isso porque em 1468 foi criado um livro que se chama “Malleus Maleficarum” pelos dominicanos Heinrich Kraemer e James Sprenger, na Alemanha, dizendo como que eles poderiam combater as heresias. Esse livro atribuía a imagem de “instrumento do diabo” unicamente à mulher. Até então execuções de ambos os sexos aconteciam ao redor da Europa, ninguém além desses dois inquisitores atribuíram bruxaria ao sexo feminino. E não só apenas isso, mas também ao “desvio sexual” das mulheres. A condição de ser “bruxa” era só das delas e das liberdades que muitas dessas tinham em seus diversos núcleos, porque também tinham capítulos onde os autores descreviam como eram o caráter da mulher-bruxa, marcando todas elas como detentoras do “pecado original” de Eva, descrito na bíblia em algum versículo que eu realmente não ligo sobre.

Mesmo que não tenha sido aceito como uma obra respeitável – muitos dos padres tinham medo de julgar as bruxas -, o “Martelo das Bruxas”, como é chamado em português, foi o maior culpado na demonização dos corpos das mulheres e da imagem das bruxas na época. Sem sucesso na Europa, o mesmo martelo que tentou demonizar as mulheres de toda maneira, conseguiu cumprir sua missão durante os tribunais das Bruxas de Salém, evento na história responsável pela prisão de 200 mulheres, com a execução de 19 pessoas (5 delas sendo homens). A demonização da mulher perpetuou-se também pelos movimentos políticos do Século XX, onde o feminismo era demonizado ao lado do comunismo, colocando mulheres livres no papel de seres extremamente demoníacos que iriam causar um grande mau estar no mundo como conheciam.

Diferentemente de seus finais trágicos na vida real, a inserção dessas figuras na cultura pop começou nos anos 90 mas viajaram solidamente até o presente, onde temos diversas histórias que contam lados diferentes delas, mas algo sempre me chamou atenção: como a caracterização dessas bruxas eram parecidas em termos de moda. Muitos desses conteúdos citados colocam mulheres mágicas – ou a maioria delas – em vestimentas diferentes dos “humanos comuns”. Elas estão sempre se vestindo a frente do tempo delas, além de terem personalidades extremamente marcantes, independentemente do rumo que tomam. Em todas essas obras, a importância da independência da mulher é marcada muito fortemente, como se elas finalmente conseguissem uma redenção através da cultura pop.

Bruxas representadas como símbolos da Cultura Pop

Mesmo que seja chocante para todos nós, a independência feminina – tanto financeira quanto no sexo – ainda é um “tabu” a ser batalhado. Em “O Mundo Sombrio de Sabrina”, estamos inseridos em uma realidade anticristã completamente surreal que consegue resgatar todo o “desvio sexual feminino” retratado em “Martelo das Bruxas” como um traço que deve ser celebrado. Há várias menções de como a nossa bruxa principal precisa sim procurar sobre sexo e tornar daquilo uma prioridade dela, além dos vários “hail satan” que são espalhados em todos os episódios. O universo criado pelos produtores da série quiseram pegar todos os resquícios de “mitos” criados sobre as mulheres-bruxas e torná-los características mundanas para elas. Mesmo assim, ainda temos o embate da nossa principal ser uma “mestiça” e ter que se entregar totalmente para o “senhor das trevas” que vocês já devem até imaginar quem é. Quando o faz, Sabrina aparece com vestimentas completamente diferentes, como se aquilo fosse uma concretização do seu “eu bruxa” – ser uma grande ninfeta das trevas que usa roupinhas na moda.

A série remake da bruxinha quirky e engraçada dos anos 90 ainda conta com várias menções diferentes sobre gênero. Com um personagem trans no elenco e alguns rituais de bruxaria, Sabrina sempre se afirma como uma mulher que não vai deitar para os “feiticeiros/bruxos” que frequentam a mesma escola de mágica que ela. Muitas vezes a personagem principal bate de frente até mesmo com o “papa” das trevas desse mundo invertido.

O mesmo acontece frequentemente em “American Horror Story: Coven”, onde todas as personagens tem como um traço principal o modo “pra frentex” de se vestir. Abrangendo também diferentes tipos de feitiçaria como o Voodoo – um dos causadores dos tribunais de Salem -, e incluindo bruxas negras que praticavam essas artes. Mesmo com seus erros de script, “Coven” consegue criar muito bem a aura de bruxaria de toda a série. Além de elas terem sua própria versão de inquisição, onde queimavam bruxas que matavam outras bruxas na fogueira, viviam com a busca de uma nova suprema para o clã ter alguém que pudesse as proteger, e recheavam o tempo de exibição da série com shots diversos das bruxas vestindo todas as formas diferentes das roupas mais caras de grifes. Uma das cenas mais populares é composta por uma personagem gritando “Balenciaga” enquanto é queimada na fogueira.

Personagens como “Madison Montgomery”, interpretada por Emma Roberts, são chave para essa inversão de desvio de caráter que a cultura pop incorporou nas bruxas. Madison é “unapolagetic”, é a típica menina malvada sem muito aprofundamento que inspirou vários gays da época, mas que independentemente disso serviu muito bem ao seu papel de ser uma mulher abertamente sexual, que pratica diversas coisas que seriam consideradas bruxarias – para além da magia obviamente. Assim como sua suprema, interpretada por Jessica Lange, Fiona Goode é uma mulher experiente que não deixou a idade tirar toda a sua vontade de ser independente e poderosa. Vestindo das mais caras grifes que conseguiram para a série, colocaram a personagem para realmente servir de mártir fashion em episódios variados.

A independência demonizada das mulheres, assim como seus caráteres, é muito claramente a mesma narrativa do filme remake “Suspiria”, dirigido por Luca Guadagnino. Um filme que era originalmente de terror, e ainda tem seus aspectos de horror, se torna uma peça completamente aprofundada se conseguirmos analisar as beiras-mitológicas que o filme nos dá. “Suspiria” acompanha a história de Susie Bannion (Dakota Johnson), americana dançarina que vai tentar sua carreira em uma Berlim banhada em guerras e ataques terroristas, nos anos 70. Ela se destaca muito claramente das outras e ninguém sabe exatamente por quê, mas é palpável a aura fantasiosa da academia de dança que ela participa, e os motivos desse destaque vão desenrolando ao longo da narrativa, para além da personagem Madame Blanc, interpretada por Tilda Swinton, carregando essas artes das trevas nas costas.

“Suspiria” mostra muito bem como essas dançarinas precisam ser independentes, até mesmo na sua produção que é majoritariamente de mulheres. As personagens fazem bruxaria com seus corpos e estão ali para servir uma “mãe” – nome dado à bruxa superior que ninguém conhece até então – que ganha forças a partir desses seus movimentos, porém nem todas elas sabem disso. Todas as dançarinas se portam de forma avançada para seu tempo, num cenário de Guerra Fria as suas vestimentas em Berlim são sempre muito bem pensadas para portá-las como “seres únicos” que realmente estão à frente do tempo delas. Luvas, sobretudos, botas e alguns penteados são muito claramente formas de mostrar que elas se destacam entre os seres humanos e pelo menos aqui elas não tem vergonha de mostrar. Há também o fato delas serem artistas, e muitas vezes na Idade Média mulheres artistas eram completamente renegadas.

De certa forma, o “ser bruxa” da Idade Média tem também suas prescrições para a contemporaneidade. Crescemos céticos ao longo do tempo, deixando de lado as crenças sobre magia negra, e tendo a certeza que as “bruxas” mostradas para nós como grandes criaturas horrendas, não passam de mulheres comuns que gostam de ter suas liberdades respeitadas. Nas mídias da cultura pop, tanto TV quanto cinema, o “ser bruxa” agora é muito mais uma questão estética do que o fato de cultuar um Deus pagão.

Em algumas dessas obras citadas, como “O Mundo Sombrio de Sabrina”, a questão de servir ao “diabo”, literalmente, ainda aparece com muita força pois seguimos nossa personagem tentando entender se é o que ela realmente quer. Mas muitas vezes esse fato é um lado meramente “bônus” para a narrativa acontecer. Os rituais, feitiços e poções já acontecem normalmente, o interessante é perceber como elas incorporam o “Martelo das Bruxas” de forma invertida, como em “A Bruxa (2016)” onde é perceptível que sua jornada narrativa gira em torno da personagem principal abraçar as suas liberdades, abraçar o “pecado original” como forma de vida e não fardo a ser carregado.

A igreja católica perdeu a sua força e a cultura pop abraçou essas narrativas como nunca antes. Tanto em filmes, quanto em séries, as bruxas estão em alta recebendo todo o tipo de redenção possível, criando mundos diferentes para que fiquemos maravilhados e consigamos explorar profundamente a razão da demonização das mulheres não ter mudado nem um pouco até os dias de hoje. Talvez sejam novos símbolos de resistência, ou só criaturas interessantes de serem exploradas, mas a verdade é que ser livre nunca as foi permitido, mas a luta continua e as bruxas ainda serão temas para muitas outras obras.