bibliopoc #7: "All Out" – O amor queer escondido ao longo dos séculos

Passeando através das eras do mundo, desde que a sociedade existe como unidade, o amor proibido sempre inibiu e sufocou seus envolvidos. Sendo LGBT esse tema é ainda mais recorrente. Há quem diga que antes da colonização não tínhamos casos tão tenebrosos de homofobia, a vinda do homem branco causou destroços não apenas nos costumes de cada continente, mas também na vida de milhares homens e mulheres que se relacionavam com o mesmo sexo. A ternura, companheirismo e acima de tudo, o amor, são temas permanentes dos contos em “All Out: The No-Longer-Secret Stories of Queer Teens Throughout The Ages” – ainda sem tradução brasileira -, fazendo uma viagem após o momento em que o “Homem Branco” reformulou o que era um “relacionamento”.

De um reconto da “Chapeuzinho Vermelho” onde tudo se passa em um cenário de guerra, e o soldado é na verdade um homem trans, até a história de amor de duas meninas que se apaixonam enquanto lamentam a morte da estrela Kurt Cobain, o livro traz uma gama seleta de contos LGBT’s que por vezes são fantasiosos e se passam na idade média, mas que sempre tendem a retratar um relacionamento na sua forma mais pura, mesmo que muitas vezes ele seja sufocado. Em “All Out” a mensagem preterida é uma que faz com que os corpos de jovens queers sejam vistos, da forma que eles tem que ser, normalizando nossas histórias e mostrando que estivemos aqui desde antes do “Homem Branco”, e principalmente que estaremos depois também.

Agrupados pela editora e autora Saundra Mitchell, os contos de “All Out” vem de dezessete diferentes autores no espectro LGBT da literatura, convidando seus leitores para fazer uma viagem através do tempo. Os contos mostram jovens rapazes e meninas, moldando o mundo ao seu redor, em segredo, mas ainda assim adaptando-se para as questões difíceis que aparecem na sua frente. A diversidade de gêneros – tanto na leitura quanto nas histórias – é uma grande chave-mestra para o funcionamento dessa curadoria de contos necessários em tempos onde querem tanto nos apagar. Não só por questões políticas, mas também porque conseguimos ver as mais variadas narrativas que se encaixam na nossa vivência em contos diferentes. No sobrenatural, nos mistérios, nos romances comuns ou até mesmo na sua forma mais vilanesca.

O conto de abertura, “Roja”, escrito por Marie Mclemore, define o tom da proposta quase-mirabolante de Saundra Mitchell ao unir todas essas histórias. Sendo esse a abertura do livro, Marie faz um reconto da história do clássico Chapeuzinho Vermelho e coloca em seus próprios moldes, um romance no meio de uma guerra. Em “Roja” vemos um soldado transexual e uma menina que se apaixonam, mas com vários segredos fantasiosos ao redor de ambos que deixa tudo mais interessante do que seria se fosse realmente um drama comum. A essência “fantasia-lgbt” não aparece somente no primeiro conto. Ela também está presente em diversos outros como “Three Witches” (Tessa Gratton), “The Coven” (Kate Selca) e “Healing Rosa” (Tehlor Kay Mejia), todos com uma temática de “bruxas” que conversa muito bem com a agenda progressista do significado de ser “LGBT” antigamente, e como que essa questão era uma das razões para todos serem considerados bruxas.

Mas não só da fantasia vive “All Out”. Mesmo que seu ponto mais alto esteja nos contos que puxam para esse lado, o livro não se alimenta apenas dessa esque de quase-terror. As histórias normais de décadas passadas do Século XX também estão presentes aqui. Na melhor forma “jovem-adulta”, “All Out” oferece uma gama de histórias interessantes sobre jovens normais que tem que lidar com homofobia dentro de casa. Em histórias como “The End Of The World as We Know It” de Sara Farizan, vemos o resgate de uma amizade entre duas meninas no momento da passagem de séculos XX para o XXI, fazendo uma metáfora muito interessante sobre os sentimentos de aceitação da personagem principal ao redor disso. E essa aceitação aparece em outros contos como “The Secret Life of a Teenage Boy” (Alex Sanchez), onde o nosso personagem principal, na década de 50, se depara com uma visita inesperada de um menino de uma outra cidade. O conto fala sobre ter seu próprio tempo, e resistir às tentações de largar tudo para trás.

As mensagens de “All Out” estão todas escondidas na fantasia e nos temas “mundanos”. Em busca de uma reafirmação de que, enquanto LGBTs, estamos em todos lugares, presentes desde décadas passadas e de grandes impérios, a diversidade de personagens é essencial para o funcionamento de todos esses contos. Mesmo com alguns contos que não compensam muito bem, mas que mesmo assim não anulam a grandiosidade de outros, Saundra Mitchell conseguiu reunir em “All Out” uma prova quase-concreta de que ainda há muita história para ser explorada, muitas narrativas LGBTs para serem contadas e também que esses contos deveriam ao menos receber o destaque merecido deles.