BICHAFORK: Anitta – KISSES

Depois de vários singles farofentos com batida de reggaeton sendo lançados de forma avulsa, contando com uma gama de colaborações que misturavam o inglês, português e espanhol, a superestrela Brasileira conhecida pela alcunha de Anitta precisava lançar um trabalho sólido que conseguisse chamar a atenção de seu público internacional prematuro e dar seguimento às suas ambições de fama global. Assim surgiu o “Kisses”, quarto álbum da carreira da cantora e que aterrissa quase quatro anos depois do seu último projeto completo e em meio a um turbilhão de polêmicas, feuds e notas plantadas em território nacional. Os objetivos do “KISSES” são claros, mas é difícil imaginar que eles consigo ser atingidos dignamente visto que, dado o material apresentado, nada ali consegue nos remeter ao fogo nos olhos da mesma cantora de “Downtown”.

Com direito a participações de Snoop Dogg, Ludmilla, Caetano Veloso e Becky G, Anitta tenta de todas as formas estender seu hype por cima da febre de música latina que vem se espalhando pelos mercados musicais afora com o lançamento de 10 faixas e 10 clipes. O que seria uma ótima ideia no papel, com ares de álbum visual e promessa de diversidade musical, na prática acaba se saindo meio cansativo e enfadonho – mesmo que a maioria das faixas nem chegue aos 3 minutos. Na meia-noite do dia 05 de Abril, o álbum foi liberado no Spotify, mas seus clipes só vieram ser revelados 12 horas depois. Perdendo totalmente o impacto “visual” que ajudaria bastante a pataquada toda lançada aqui, restou para Anitta se sustentar apenas de suas produções em inglês, espanhol e português. Com o título de “álbum trilingue”, a intérprete de “Vai Malandra” parece não saber o que fazer com todas essas participações, entregando um álbum cheio de composições desconfortáveis (a intro de Onda Diferente sendo a maior prova), sem nexo e com uma sonoridade extremamente bagunçada, algo que Jennifer Lopez lançaria sem muitas dúvidas caso ela tivesse um acesso artístico menor.

Não é de hoje que Anitta flerta com a ideia de um álbum. Depois de dizer que o mercado fonográfico brasileiro não precisava de trabalhos assim, e que ela mesmo trabalharia apenas com singles avulsos – como vinha fazendo -, a cantora pareceu perceber o sucesso de vários outros nomes como IZA e Pabllo Vittar e voltou atrás em sua decisão. O EP “Solo” foi o primeiro passo nessa reconsideração da artista de voltar ao estilo de lançamento “completo” que ela havia abandonado anos atrás. Com três músicas, em três línguas e três clipes diferentes, o EP é como se fosse um protótipo do “Kisses”, com a diferença que Anitta ao menos sabia o que fazer para cada público internacional. “Kisses”, no entanto, é estendido para outras sete faixas, e em todas parece ser nítido o desespero da cantora por um top 1000 lá fora nem que seja com a faixa mais internacionalmente genérica para que esse objetivo seja atingido, esquecendo que o que a deu tanto destaque foi exatamente sua “brasilidade”.

As misturas de idiomas e menções às suas polêmicas brasileiras preenchem as lacunas vazias de personalidade artística no álbum. A ex-residente de Honório Gurgel se vê na necessidade de reiterar isso em Aténcion, onde ela tenta sempre se reafirmar como a funkeira do “Show das Poderosas”, em uma música cansativa em espanhol que vai se repetindo o tempo todo, e ainda começa com uma intro completamente fora de tudo que Anitta já lançou algum dia – não que isso seja bom, parece mais a intro de um dos episódios do reality show “A Fazenda”. A mistura de idiomas também é interessante pois conseguimos perceber o quão apagada a nossa superestrela brasileira fica quando canta em “inglês”. O único destaque nesse idioma se dá a parceria com Becky G onde ambas tentam emplacar uma piada viral com a palavra Banana – também nome da faixa – em um clipe fetichista e colorido. Já em músicas como “Get To Know Me” – produção do dj Alesso -, Anitta está completamente apagada, sem força para realmente sustentar a fantasia de ser uma cantora internacional e fazendo o papel que qualquer vocalista de faixa de DJ faria.

A pior parte do disco é certamente a fantasia “gangster” constrangedora que ela jura conseguir vender decentemente em faixas como Sin Miedo, em um clipe bagunçado, beirando a estética de pornôs amadores e que conta com várias provas da “bissexualidade” da cantora, e Juego penúltima faixa e que parece um gangsta reggaeton tão desnecessário quanto qualquer reggaeton do álbum, além de jogar um clipe com o batidíssimo tema boxer (que venhamos e convenhamos, foi muito melhor explorado pela Pabllo Vittar em K.O.). A ideia de bancar a bad girl não é de todo ruim, afinal, em meio às polêmicas em que Anitta vive envolvida, bancar o papel de vilã por diversão a la Taylor Swift na era Reputation é uma ideia divertida e comercialmente interessante, mas a MC faz isso de forma tão pouco natural e jocosa que o conceito não consegue render.

Em “Kisses”, Anitta tenta justificar a ausência de coesão para o álbum como uma escolha artística de mostrar vários lados musicais (o mito da “versatilidade”) e provar que eles podem coexistir. O problema é que algumas de suas “personalidades” são muito semelhantes entre si – e muito além disso, verdade seja dita, a curadoria de demos e produções para o disco parece que selecionou o pior possível de um catálogo já meio limitado de opções. Talvez essas questões fiquem perceptíveis por estarmos de frente com uma artista que conseguiu balancear ritmos e “personalidades” diferentes no projeto Checkmate, onde Downtown e “Vai Malandra” foram lançadas em um curto intervalo de tempo e essa sequência soava natural – ambas faixas que respeitavam a vivência da própria como artista, mostravam a progressão do seu discurso a favor do funk carioca e ainda a colocavam como “precursora” do reggaeton no Brasil, tendo em vista que o ritmo é o correlativo latino do funk. Talvez essa personalidade hitmaker da Anitta que ainda sabe o que fazer com a carreira apareça em algumas músicas do trabalho aqui e ali, como “Rosa”, colaboração com Prince Royce, mas no geral nós só conseguimos captar o quanto a MC parece estar num piloto automático.

Também conseguimos ver Anitta unindo o inglês ao espanhol em “Poquito”, uma faixa mid-tempo que se mistura ao R&B, saindo completamente do circuito reggaeton que já recheia o álbum quase todo. As coisas soam mais naturais na faixa, apesar de seu potencial ser um pouco minado pela decisão de fazer um clipe modesto e só com projeções de datashow. Outro destaque é “Tu y yo”, um R&B ensolarado e sensual que finalmente mostra uma experiência auditiva em espanhol da MC que não parece tão forçada. Ainda assim nem os pontos altos desse disco deixam ele ser visto como uma experiência “aceitável” para uma artista do porte e ambição da Anitta. Tudo parece ter sido feito às pressas, e ela mesmo confessa que não teve budget para alguns dos clipes, o que é visível quando muitos parecem terem sido feitos sem nenhuma identidade visual bem bolada, só um monte de imagens editadas juntas e sem nenhuma apuração ou direção artística muito decente.

No meio de tantos features, não conseguimos ver a estrela internacional brilhar como ela fazia antigamente. Anitta era algo diferente pro Brasil, uma popstar tipo exportação com capacidade de alcançar um patamar de outras cantoras globais surgidas de países não centrais, e tudo que ela fazia parecia certo, mesmo quando suas faixas eram cantadas em espanhol e até flertavam com o inglês. Infelizmente esse potencial foi vertido em algum momento dada a incapacidade da MC de encontrar sua própria personalidade rumo a um caminho internacional, onde ela se perdeu no mar de possibilidades que a música pop fácil e digerível pode oferecer.

Anitta parece esquecer sua origem no funk, algo que nem um áudio da própria falando que é de Honório Gurgel vai fazê-la lembrar disso. O “furacão Anitta” – nome dado à biografia não-muito-não-autorizada da artista – é visto completamente fraco em “Kisses”, provando que ela devia ter continuado com sua estratégia saturada de lançar singles avulsos, ou ao menos ter contratado um time de relações públicas com mais critérios na hora de catar demos de produtores internacionais.

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Anitta, “KISSES” (2019)

Gênero: Pop, R&B, Reggaeton, funk

Destaques: “Banana (feat. Becky G)”, “Poquito (feat. Swae Lee)”, “Rosa (feat. Prince Royce)”

Nota: 4,6

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