TRACK REVIEW: Sky Ferreira – "Downhill Lullaby"

Cinco longos anos se passaram desde que a Sky Ferreira começou a atiçar o público com pedaços do que seriam canções de seu segundo álbum, o até então intitulado “Masochism”. Ela cantou “Guardian” ao vivo em vários shows e festivais, revelou trechos de outras músicas em teasers online, postou pedaços de letras nas redes sociais… mas eventualmente nenhuma parte desse material sequer chegou a ver a luz do dia. Para quem acompanha a Sky, é impossível não sentir certo rancor desse hiato musical enorme, ainda mais se levarmos em consideração que o intervalo foi proveniente de uma possível falta estratégias de trabalho da artista, declarações pedantes de que “a artisticidade não é definida pelo tempo” e a própria falta de capacidade da Sky de se comunicar de forma mais sincera e direta possível com seu público.

Mas sim, as desventuras e contratempos aparentemente estão começando a ficar para trás agora que a artista voltou com o single “Downhill Lullaby”, mas a pergunta que fica é: será que a canção compensou toda a espera? Expectativas de mais de cinco anos em cima de uma só canção são extremamente desleais, e “Downhill Lullaby” ainda possui o agravante de não ser exatamente uma música feita para agradar ao público-comum ou ocasional. Como a Sky falou antes do lançamento: esse definitivamente não é um single pop e a intenção dele é retomar as coisas com um approach diferente.

Abrindo com uma introdução semi-épica de violinos que logo dá espaço para um baixo incessante e de melodia obscura e desoladora, o single é lento em desenvolvimento, não negando a sua ambição de ser mais uma experiência auditiva a ser absorvida nos mais mínimos aspectos do que só uma música facilmente consumível. A voz da Sky aterrissa na faixa por volta dos 40 segundos e pontua mais firmemente a intenção assombrosa que “Downhill Lullaby” quer passar, usando para isso um tom vocal soturno, quase rosnado e que parece ser entoado entre os dentes da artista – talvez sendo inclusive um ponto baixo para o single, visto que às vezes parece que a Sky está tentando demais ser intensa e sombria. Os vocais só ganham um tom mais amigável no refrão, que se lança em uma melodia singular apoiada pelo som destacável de violino no instrumental (mas logo alguns backing vocals barulhentos e reverberantes oriundos do shoegaze surgem na construção para “sujar” ainda mais os sons da faixa).

“Downhill Lullaby” é, para todos os efeitos, uma continuação da faixa-título do primeiro álbum da artista, o “Night Time, My Time”. Ambas possuem características sonoras similares, com o mesmo tom sombrio sendo explorado em sua construção instrumental, o mesmo aspecto de “slow-burner”, os mesmos backing vocals distorcidos e até a mesmíssima bateria (sério, o som de bateria é idêntico nas duas faixas). Liricamente as músicas também possuem uma forte conexão, com “Night Time, My Time” sendo escrita a partir de diálogos do filme “Twink Peaks: Fire Walk with Me”, enquanto “Downhill Lullaby” literalmente retoma essas inspirações e faz referência a isso abertamente em versos como “Yeah I walked with the fire / All the lifeblood and desire”. E cabe aqui um fato importante: “Downhill” é produzida pelo Dean Hurley, que trabalhou como supervisor musical de “Twin Peaks: The Return”. As letras, quando justapostas, parecem seguir uma sequência temática do êxtase do amor em suas primeiras etapas ao fundo do poço de um relacionamento complicado e abusivo, com uma linha temporal claramente identificável entre elas. É como se esse novo single fosse um prosseguimento do exato ponto onde a Sky havia parado musicalmente seis anos atrás, já que “Night Time, My Time” era a última faixa de seu último disco: uma ideia de continuidade e coesão entre o seu trabalho que pôde ser bem planejada no tanto de tempo que a cantora teve para criar seu segundo álbum.

Por mais que a ideia do crossover entre álbuns seja louvável e interessante para os fãs ou qualquer pessoa que já conhece o trabalho da Sky Ferreira, essa ideia é quase um tiro no pé na situação atual de “retorno altamente esperado” na qual Skyzinha se encontra. A dificuldade de se tragar “Downhill Lullaby” esbarra em todo o hype em torno do “Masochism” que foi criado durante esse tempo, e talvez isso inclusive afaste um pouco o público do novo material da artista (já que a primeira impressão é geralmente aquela que fica). O single aliás parece um afronte bem colocado a todo esse burburinho que seguiu a cantora durante os últimos anos, além de ser um lançamento feito para deixar bem claro ao público que o perfeccionismo artístico tão alardeado por ela nas redes sociais é mais do que verdadeiro: aqui a Sky assina pela primeira vez a produção do seu material, e a pompa de violinos minunciosamente arranjados junto com as centenas de camadas instrumentais e vocais reverberantes e ricas que preenchem a música revelam que a artista quer deixar de vez a sua marca de qualidade autoral no mundo, mesmo que isso desagrade quem quer que seja.