BICHAFORK: Billie Eilish – "WHEN WE ALL FALL ASLEEP, WHERE DO WE GO?"

Se tem uma coisa que é perceptível sobre a Billie Eilish é como ela é uma artista “ame ou deixe”: ou você se sente incomodado pela mera existência dela ou você cai nas graças do hype estrondoso que anda acompanhando a garota já há algum tempo. Isso pra mim é um bom indicativo: é sempre interessante quando os artistas causam certa impressão, por mais que não seja a mais positiva possível, afinal, quem realmente se importa com artistas neutros e que não evocam os mais variados tipos de sentimento ao redor deles?

Esse aspecto divisivo (proveniente do combo personalidade + letras de músicas + comportamento nas redes sociais) foi importante para que a Billie angariasse um enorme cult-following ainda na metade da adolescência e pavimentasse o caminho para a aclamação e burburinho colossais em torno de seu álbum de estreia, o “WHEN WE ALL FALL ASLEEP, WHERE DO WE GO?“. É válido pontuar também que a forte atenção que a artista passou a receber não é fruto unicamente de como ela se expressa online ou como ela gosta de ser percebida pelo público, mas principalmente do fato de que ela andou apresentando um material sólido single após single desde seu primeiro EP em 2017, criando sua própria linha musical no meio de gêneros em voga atualmente (como o electropop e o trap) e mostrando um ótimo tato para produções e composições ao lado de praticamente um único colaborador, o seu irmão e produtor Finneas O’Connell.

Essas qualidades musicais louváveis da Billie são frequentemente desconsideradas por vários aspectos externos que não deveriam importar e pela própria condição dela como adolescente “prodígio” no contexto da música mainstream americana. Se pensarmos que a última artista feminina nesse papel foi a Lorde, aclamada por mostrar uma maturidade notável em sua música mesmo antes de chegar aos 18 anos, a Billie parece ser um exato contraponto a isso: sua musicalidade é bem menos comprometida com a seriedade reflexiva de um “Pure Heroine“, sua personalidade é caótica e suas letras não possuem interesse em seguir parâmetros de maturidade – exatamente uma sequência perfeita de justificativas que o público pode usar para deslegitimar o seu trabalho. Felizmente nada disso impede que a garota surpreenda com um material sólido e que usa a oscilação entre a maturidade e a imaturidade como um de seus fortes, retratando a adolescência de uma forma singular mas com implicações bem universais.

“WHEN WE ALL FALL ASLEEP, WHERE DO WE GO?” é bastante construído por cima das flutuações de seriedade e loucura da artista, canalizando toda a forma excêntrica como ela gosta de se mostrar nas redes sociais mas usando isso de um modo natural – você entende que aquela é a Billie Eilish, sem tirar nem pôr, e ela abraça essas contradições sem pudores em prol de um corpo de trabalho coeso. A rotina do disco vai de extremos a extremos líricos, onde podemos experienciar a acidez satírica e boba focada em estilo do hit eletrônico preenchido de graves “bad guy” e em seguida cairmos nas reflexões introspectivas e sensíveis sobre a ordinariedade do uso drogas na adolescência em “xanny“… tudo isso sem parecer que saímos do mesmo álbum. As produções privilegiam distorções e redefinições de sons da música eletrônica, com glitches rolando aqui e ali em instrumentais que parecem quase “táteis”, pulsando de um ouvido para o outro e servindo como terreno perfeito para que a Billie faça também experimentações com seus vocais, explorando tons que estão entre o cantado e o sussurrado, saturações e construções melódicas que podem ser extremamente assustadoras ou extremamente agradáveis.

Claro que, como uma adolescente em plena construção de sua personalidade, a artista presenteia o ouvinte com vários momentos extra no disco. Algumas letras aparecem aqui simplesmente com a intenção de chocar ou de deformar certos temas para os ressignificá-los no contexto do universo musical da Billie. “all the good girls go to hell” por exemplo usa “My Lucifer is lonely” como frase de efeito e mistura simbolismo cristão numa clara proposta de parecer inquietante, enquanto “listen before i go” é um grito desesperado por atenção e “wish you were gay” joga uma visão meio simplista e realmente imatura sobre sexualidade e atração sexual apenas para externar os sentimentos de garota rejeitada da artista. Já os momentos mais equilibrados e “sóbrios” do álbum surgem quando a temática principal dele é explorada. O “WHEN WE ALL FALL ASLEEP, WHERE DO WE GO?” é uma espécie de análise sobre os demônios internos e “monstros do armário” da Eilish, e em certo ponto do trabalho ela realmente se debruça por cima desse mote ao descrever sentimentos sobre não se sentir suficiente em “8” e seu medo de perder pessoas próximas em “ilomilo“, ou escrevendo diretamente do ponto de vista do seu “monstro debaixo da cama” em “bury a friend” como forma de tentar lidar com ele.

Nessa altura do campeonato você percebe que a maturidade da Billie existe e pode ser usada quando ela quer ou acha necessário. A seção de músicas finais do disco é a prova disso, com o destaque sendo “i love you“, uma balada acústica que descreve as complicações de um relacionamento amoroso de uma forma muito mais profunda, autoconsciente e realmente madura do que qualquer outro adulto no pop mainstream vem descrevendo recentemente. Seria um grande clichê apontar que o disco é um retrato sincero das ansiedades, medos, necessidades e sentimentos conflitantes que surgem durante a adolescência. Ele é tudo isso e ao mesmo tempo não é. A grande certeza que o “WHEN WE ALL FALL ASLEEP” traz é que a adolescência é terreno-fértil para criações musicais tão ambiciosas quanto as da vida adulta, mas com um pouquinho menos de medo de cair no ridículo – até porque a grande sacada da Billie Eilish é transformar o ridículo em uma marca, um estilo desejável e algo que vai destacá-la de todas as outras sensações adolescentes que precisaram ser maduras demais para o seu próprio bem.


Billie Eilish, “WHEN WE ALL FALL SLEEP, WHERE DO WE GO?” (2019)
Gêneros:
Pop, Eletrônica, Trap
Destaques: “bad guy”, “xanny”, “ilomilo”, “bury a friend”

Nota: 8.3