'Suspiria – A Dança do Medo' e a linguagem secreta das bruxas

Visceral, tenso, assustador e cru são palavras geralmente usadas para descrever a perspectiva de Luca Guadagnino sobre a obra de Dario Argento, “Suspiria – A Dança do Medo”. Divisor de opiniões entre muitos da sua audiência, a versão que estamos presenciando nos cinemas esse ano (2019) destoa fortemente da base em que se deu origem, mesmo que mantendo muito de seus elementos. Com a ajuda de uma exuberante Tilda Swinton – aqui sendo três personagens ao mesmo tempo – e a igualmente talentosa Dakota Johnson no papel principal, Guadagnino cria uma linguagem secreta em danças, colocando os corpos das mulheres que compõe todo o elenco como as suas maiores armas, contribuindo para uma atmosfera intimidadora para arrancar suspiros de qualquer um que esteja assistindo-as.

E quantos suspiros. Guadagnino deixa claro que quer expandir a mitologia de Dario Argento – tão pouco explorada em suas primeiras obras – e faz isso não desrespeitando a estética que o criador propôs, mas sim criando uma paleta de cores frias, acompanhando a conjuntura política divisiva de uma Guerra igualmente fria. Os temores das pequenas grandes dançarinas indiretamente cúmplices de um sistema de bruxaria que as corrói de fora para dentro, expõe as ansiedades do ramo de ser dançarina – quase como uma crítica – e tira o fôlego por diversas vezes ao recorrer à elementos de terror da linguagem própria que “Suspiria” conseguiu criar nesse remake, através de corpos contorcidos.

Sendo um longa metragem que divide-se em seis atos e um epílogo, como eles mesmos sugerem no começo do filme alá Lars Von Trier, essa versão de Guadagnino leva a inquietude do local onde se passa o original, uma pequena cidade Freirburg, para a conflituosa capital da Alemanha. Em 1997 – o mesmo ano em que o original foi lançado – uma jovem americana Susie Bannion (Dakota Johnson), com seu talento ainda cru, para participar da audição na mundialmente renomada academia de dança Helena Markos Dance Company. Quando ela assume o papel de dançarina principal, Olga (Elena Fokina), a antiga liderança do grupo, tem um surto e acusa as diretoras da companhia de serem bruxas. Com os ensaios intensos para a apresentação final da peça autoral da companhia, Susie e Madame Blanc (Tilda Swinton), coreógrafa reconhecida no mundo todo, se aproximam muito, sugerindo que o propósito de Susie na companhia vai além da dança.

“Suspiria” – Play Arte

Enquanto isso, o psicoterapeuta Dr. Klemperer (Tilda Swinton) descobre um perturbador diário de sua paciente Patricia (Chloë Grace Moretz), uma antiga dançarina da Markos, contando sobre uma religião antiga demoníaca praticada pelas Mães. Depois que Patrícia desaparece misteriosamente, o doutor tenta alertar a polícia sobre suas descobertas, mas não chega a lugar algum.

A partir daí encaramos o script de David Kajganich tomando uma direção completamente diferente da obra em que se inspirou – nas próprias cenas dos créditos iniciais onde somos imersos em uma série de sequências que fazem alusões à símbolos ocultistas ao som dos acordes assustadores de Thom Yorke em “Volk”. Fica claro que o que veremos daqui para frente é uma versão completamente nova sobre o filme “Suspiria”

De fato as diferenças entre a obra e a recriação são diferentes em diversos aspectos. Exploramos muito mais profundamente as instalações sórdidas do “castelo” da Markos Dance Company, com cores frias, neutras e “sufocantes”, sendo essa uma das escolhas destoantes do original mas perfeita em seu propósito. “Suspiria (2019)” lida mais profundamente com a sua “mitologia” do que seu material de base, criando uma atmosfera que cresce com Susie ao longo de suas duas horas e trinta e dois minutos.

O desenvolvimento de nossa heroína – se é que podemos encaixá-la nessa faixa – é tão impactante quanto as mudanças de cores para tons mais quentes, ou a vigia próxima de Madame Blanc (Tilda Swinton) acontecendo no momento em que a superior sente o potencial de Bannion. É logo quando Susie se dispõe a simular a dança de Olga que nos deparamos com uma linguagem secreta, baseada nos movimentos do “Volk”, onde todas conseguem transmitir uma mensagem mesmo que por vezes ela seja aterrorizante. O potencial da protagonista é posto na mesa para que as outras vejam o que a “novata”, sem nenhuma “experiência em dança” é capaz de fazer com poucos movimentos.

E tudo é tão sutilmente colocado que mesmo em suas sequências “normais” estamos esperando pelo pior. A dança de Susie Bannion – e de todas as outras personagens – nos aterroriza com poucos movimentos das mãos e dos ombros, é uma linguagem própria que nos pega pelo pescoço, tirando nosso ar e por vezes até ocasionando nossos olhos a fechar. A sequência principal é um legado passado para a protagonista, movimentos que são formas de dominação, arte que é possessão e dança que nos questiona se realmente há um limite para essa versão de “Suspiria” quebrar.

Luca Guadagnino também levanta questões metalinguísticas sobre o seu remake ser ou não uma versão válida, através de uma fala muito específica de Madame Blanc: “quando você dança a dança de outro, você se faz na imagem do seu criador”. Em sua versão ele mantém apenas os aspectos essenciais para a obra, assim como preserva a inclinação da visão original para o “gore”. Guadagnino parece entender que o aspecto do terror do seu predecessor é provido por uma série de momentos de “choque” que envolvem minhocas, cachorros e mofo de outros alimentos, mas ainda assim decide explorar um outro lado.

O terror vem muito mais do fato dos corpos que vão se contorcendo, em diversas sequências, do que de onde vinha o original. Ossos, membros e músculos são explorados como elementos-chave para fazer a atmosfera do filme realmente acontecer. E no final de tudo, consegue ser ainda mais imersivo para sua narrativa.

Todos esses elementos vão construindo um terceiro ato completamente extravagante, onde toda a ausência de um terror mais “explícito” é mostrado de uma vez. Ao mesmo tempo que tira sua respiração, também pode ser frustrante para aqueles que gostaram tanto da versão final de Dario Agento. Guadagnino está interessado em explorar o lado mais fantasioso de Suspiria, com uma perspectiva radical que mudasse um pouco os rumos que as personagens tomaram em sua primeira versão. “Suspiria (2019)” é banhado com energia feminina, em um elenco formado inteiramente por mulheres que passam duas horas e meia na tela do cinema elaborando passos de dança, reconhecendo seus corpos como armas poderosas e montando uma narrativa própria para eles, uma que toma consciência própria.

Independentemente das opiniões divididas, Guadagnino propõe algo completamente diferente sendo bem sucedido na sua investida. Aos que esperavam “Me Chame Pelo Seu Nome” em versão pós-terror sinto-lhes informar que serão surpreendidos por uma obra diferente até mesmo da fonte direta de inspirações. “Suspiria (2019)” escreve suas mensagens através de sangue e suor, sendo bem direto com o que quer passar. Em uma Berlim dividida, o filme dança suas aspirações e cria uma linguagem secreta, colocando o corpo das mulheres como uma grande arma. “Suspiria – A Dança do Medo” estreia nos cinemas do Brasil dia 11 de Abril.