TRACK REVIEW: DIA – 'WOOWA' / MOMOLAND – 'I'm So Hot'

Os girlgroups de k-pop DIA e MOMOLAND fizeram seus comebacks essa semana de Março com a mesma temática, e basicamente, com a mesma paleta de cores. Acalmem-se na militância, esse não é um texto de militância. É na verdade sobre como a abordagem de DIA e MOMOLAND no pop-dance-edm retrô da Coreia do Sul tem lá suas particularidades, nos fazendo questionar o que realmente é um pop retrô. “WOOWA” e “I’m So Hot” – respectivamente de DIA e MOMOLAND -, destoam muitas vezes do que é considerado como “vintage” na produção de música pop em seu país natal mas também são muito semelhantes enquanto esse segundo grupo tenta emular mais uma versão do seu grande hit viral.

Para quem já é familiarizado com o pop sul-coreano sabe muito bem que a indústria fonográfica gosta muito de reiterar seu conservadorismo através da música. Com o “pop retrô” – subgênero do k-pop – isso não foi diferente. Produções que não são muito além do tradicionalismo musical do país deixam tudo mais amigável para o público geral – veja que aqui não estou falando das boybands que lançam mil e uma faixas de hip-hop e ainda estão hitando pela sua legião de fãs -, e muitas vezes os grandes produtores do país recorrem aos acordes típicos dos anos 50, com muito jazz e blues tomando conta de metade dos acordes e tentando traduzir isso à melodias mais atuais.

Grupos como Wonder Girls e Secret marcaram seus nomes por fazer faixas sempre que majoritariamente eram um híbrido de dancepop com os elementos retrôs do jazz. Assim como grandes smash hits do K-pop por vezes tendem a ser puxados para o lado vintage da música. O fato é que: fazer um conceito cheio de referências de certa época chama atenção e perpetua o nome do grupo entre fansites de outros grupos.

Com DIA o conceito retrô foi marcado desde o início do anúncio do comeback. A tão esperada line-up de 7 meninas viria com uma “festa” onde os patins da era de ouro da Disco Music seriam tratados como elemento central e um EP chamado “Newtro”. “WOOWA” acaba não sendo o hit retrô da fórmula perfeita, muito menos tem elementos disco dentro dele, é muito mais uma faixa edm do que qualquer outra coisa. Mas não é uma reclamação, ela é ótima e cheia de elementos divertidos como a flauta no final, e até mesmo o refrão dividido em duas partes.

A faixa é algo que o T-ARA – o grupo “mãe” do DIA, por serem da mesma empresa – lançaria se toda a sua polêmica não tivesse simplesmente engolido aquele grupo. “WOOWA” é divertida, despretensiosa e sem dúvidas um dos maiores lançamentos do DIA até então, afinal, esse é um dos grupos que parece não saber exatamente a musicalidade que as pertence, sua gravadora ainda está perdida no meio disso. Mas de fato o “party popper” EDM é cheio de surpresas, algo como “Sugar Free” para menores de idade, é um legado passado para o DIA. Até mesmo a composição se aproxima ao T-ARA por muitos momentos, tudo se passa em uma grande frenesi sedutora das meninas flertando com um indivíduo do outro lado de uma festa, e exatamente quando repetem “woowa” por várias vezes é que vemos a essência catchy da faixa.

Mesmo que por vezes possa parecer previsível, “WOOWA” te surpreende quando você menos espera. O break posicionado depois do primeiro refrão é uma das partes mais inesperadas de toda a produção, com flautas “étnicas” tomando conta de todo o espaço enquanto as “rappers” do grupo aproveitam o momento para se destacarem com seus versos quase falados.

“WOOWA” não tem nada de retrô, é uma música EDM recheada de elementos contemporâneos que visam mostrar ao público do T-ARA – e o seu próprio – que elas estão decididas a sustentar essa coroa pesada. Além disso, a música também faz uma brincadeira em seu título com a famosa – por ser um plágio de “Superlove”, da Tinashe – “Woowoo”, o comeback mais recente do grupo. Talvez uma música não-retrô retrô fosse o conceito por todo esse tempo.

Já com MOMOLAND a empreitada foi para outras vertentes. “I’m So Hot” faz parte do EP, “Show Me” e também marca a segunda tentativa do MOMOLAND de recriar o seu grande hit viral “Bboom Bboom”. Elas fazem exatamente isso. Com uma roupagem destoante do seu último lançamento, apostando em um nome que disfarce bem – afinal “BAAM” tava muito na cara -, a gravadora do grupo tenta novamente repetir os feitos do grupo em um popdance retrô descarado, mas que na estrutura é o mesmo.

“I’m So Hot” tem todas as mesmas coisas que “Bboom Bboom”, um break que substitui o refrão, um break logo depois do primeiro refrão, e as poucas palavras das meninas que repetem incansavelmente em um refrão cansativo. É inofensiva, um pop divertido mas que já está sendo feito pela segunda vez, será que não poderiam trazer algo de novo para a mesa?

Quando digo “novo” não quero dizer “Bboom Bboom” através das décadas, afinal os elementos-chave para o grande hit do grupo permaneceram intactos – a estrutura e os saxofones -, mas sim o MOMOLAND de fato explorando novos caminhos como grupo, em estruturas diferentes. O retrô desse novo single foi bem mais trabalhado que o DIA, mas não necessariamente é tão catchy quanto “WOOWA”. Os elementos do jazz e do “funky pop” que são muito perpetuados pelo pop sul-coreano estão todos aqui, mas é como se a música não chegasse a lugar algum.

Mesmo assim, “I’m So Hot” não é necessariamente uma música ruim. Um pop despretensioso nunca será ruim. Ele é bom para os ouvido de quem precisa, levanta quem quer ser levantado e ainda tem uma mensagem boba – no sentido de não ser tão bem explorada assim – por trás, sobre self-love, aceitação; empoderamento. Foi uma forma de reler o que a Coreia do Sul gosta enquanto retrô para os moldes de MOMOLAND, o problema é que esses moldes estão saturando cada vez mais.

Independentemente de bem trabalhados ou não, “WOOWA” e “I’m So Hot” usam o conceito retrô para espalhar o nome dos seus grupos para se estabelecerem como uma força nesse ramo quase-esquecido. O EDM de DIA não tem nada de retrô, mas mesmo assim ainda tenta com um clipe centrado em um clube de patins. A fórmula de MOMOLAND não tem nada de retrô, mas ainda assim é bem sucedido enquanto traz elementos novos para essa fórmula. No mais, os dois grupos tem 7 membros e ambos usaram a mesma paleta de cores na produção, indicando talvez mais uma nova tendência de roxos e rosas neon.