O esperado inesperado 'Nós' de Jordan Peele

Jordan Peele sempre foi um exímio comediante, desde os tempos primórdios do MadTV, série de esquetes no estilo de Saturday Night Live que ele fez parte do elenco por cerca de 6 anos. Quando Get Out (2017) foi anunciado como o seu debut diretorial no cinema houve muito questionamento sobre o que Peele estava querendo fazer. Não tínhamos sido apresentados em nenhum momento ao Jordan Peele, o contador de histórias de terror, e a curiosidade era imensa.

Foi então que, da água ao vinho, Peele provou que sempre soube o que estava fazendo, quando Get Out se tornou não só um sucesso de público mas também de crítica, dando um novo frescor ao gênero do terror/suspense, além de ter quebrado o hiatus de filmes de terror sendo indicados pela academia – conseguindo 4 indicações e levando a estatueta de Melhor Roteiro Original. Um marco para quem antes era conhecido apenas por fazer comédia.

A expectativa para um segundo filme do diretor e recém premiado roteirista começaram a crescer e foi então que Nós finalmente foi anunciado como sua nova empreitada pelo gênero do terror. O filme, que chega aos cinemas de todo o Brasil nessa quinta-feira, dia 21 de março, juntamente com a estreia norte-americana (uma prova de todo o sucesso que Get Out teve, já que esse só veio estrear por aqui cerca de 4 meses depois de sua estreia norte-americana), conta a história de uma família norte-americana, composta por Adelaide (Lupita Nyong’o), Gabe (Winston Duke) e seus dois filhos Zora (Shahadi Wright Joseph) e Jason (Evan Alex), que vai passar um fim de semana em uma casa de veraneio que é arruinado quando eles se tornam reféns de uma família de clones… deles mesmos.

Antes de tudo, é importante ressaltar aqui que, por mais que as comparações com Get Out sejam inevitáveis, principalmente sendo produtos do mesmo diretor e roteirista, os dois filmes são diferentes nos mais diversos aspectos e portanto ambos são válidos da mesma forma.

Por mais que pareça simples, a premissa do filme se desenrola de uma maneira bastante imprevisível e eficaz ao mesmo tempo. Em Get Out nós sabemos que há algo de estranho com a família, as coisas são muito suspeitas mas tudo é bem claro desde o início. Em Nós, nada é o que parece ser, ou tudo é o que parece ser e Peele parece gostar de brincar com isso em seu roteiro desde o momento em que a história começa, dando dicas sutis sobre o que pode vir (ou não!) a acontecer até o momento em que a família se depara com a situação dos clones pela primeira vez, e o caos é instaurado. “Nós” trata exatamente sobre o que o título sugere, que é sobre nós mesmos e sobre nossos medos, anseios, traumas e delírios, de uma maneira horripilante e brilhante. Soa como um pesadelo sem fim, ou, nesse caso, um fim de semana que parece que não vai acabar nunca mais.

Há, é claro, uma crítica social (que não é sobre raça, como Peele mesmo já disse) adentro de todo esse mistério que envolve esses clones, chamados de tethered (ou amarrados, no português) e Peele trabalha muito bem em cima disso, e de como tudo o que está acontecendo ali é reflexo de nossa sociedade, principalmente quando brinca em diversas cenas, com jogo de espelhos, em cenas de tirar o fôlego, como em uma na sequência inicial. É intrigante acompanhar como os tais tethered (os clones) tomam conta da história e qual o seu papel fundamental para a narrativa. Eles são ao mesmo tempo tão parecidos mas tão diferentes de suas versões reais e isso torna tudo muito mais divertido. Por ser uma história com muito mais nuances e camadas que Get Out, somos convidados a tentar interpretar o que ele está tentando passar de uma maneira muito mais ampla, a partir de tudo o que estamos vendo na tela desde então, o que torna a experiência de assistir o filme ainda melhor. O final, ou os 15 minutos finais, acaba sendo a coisa mais divisiva de “Nós”, mas é extremamente eficiente e surpreendemente divertido. Muito provável que algumas pessoas não gostem do que seja mostrado, mas não há como negar que Peele é um gênio por ter chegado lá e elevado tudo ao máximo possível.

Aliás, o cuidado de Peele é extremamente palpável. A trilha sonora original é impecável e consegue ajudar a construir o clima necessário, especialmente a música que toca nos créditos iniciais, em uma sequência especialmente tensa e confusa que dá um toque ainda maior de mistério do que vem por aí. As músicas escolhidas também são ótimas e uma em especial (além da icônica I Got 5 on It que já dá o ar de sua graça no trailer oficial do filme) traz um dos melhores momentos musicais do longa. A atenção para os pequenos detalhes é minuciosa, já que dicas sutis são sempre dadas, desde a primeira cena até quando tudo é finalmente revelado e posto em pratos limpos (ou sujos de sangue, você que decide). É importante ficar atento a todos os sinais visuais que Peele traz, principalmente no que diz a cor vermelha, que é essencial para o entendimento de um plot twist gigantesco da história.

As performances são um show a parte. Ninguém tinha dúvidas que Lupita Nyong’o seria capaz de entregar uma Adelaide extremamente convicente e torcível, mas o que ela faz nesse filme é simplesmente brilhante, especialmente em cenas de confronto com o seu próprio clone. A história é centrada nela que domina a sua personagem, e às vezes consegue fazer tudo o que precisa fazer para que o público entenda o que ela quer transmitir somente com o seu olhar. Winston Duke está ótimo como o pai e tem as melhores punchlines, trazendo toda a essência humorística de Peele consigo, e Evan Alex não decepciona fazendo o papel do menino Jason, especialmente nas partes que demandam mais emoção dele. Elisabeth Moss também brilha no pouco tempo em que aparece, mas quem surpreende mesmo é Shahadi Wright Joseph, que possui cenas e momentos fantásticos, fazendo de sua personagem (e também de sua double) uma das melhores coisas do longa.

Nós é tudo o que esperávamos, ao mesmo tempo que não é nada do que se espera. É um filme instigante, intrigante do começo ao fim, misterioso e extremamente divertido, além de ser audacioso e inteligente. Jordan Peele provou mais uma vez ser um excelente diretor-roteirista e estamos já na espera do que ele trará em seguida.