A história de Capitã Marvel contada no banco de trás

Há dez anos a Marvel atingia as grandes telas dos cinemas. Isso significa que dez anos atrás as pessoas estavam prestes a presenciar e a conhecer um catálogo de heróis que fariam parte desse universo – e mais tarde se uniriam para um grande ato final. O que ninguém esperava é que eles só lembrariam dez anos depois que esse catálogo conta com uma série de personagens femininas. “Capitã Marvel” é um fruto dessa lembrança repentina da empresa, e por vezes o filme mostra ser o resultado dessa amnésia quando Carol Danvers (Brie Larson) senta no banco de trás do seu próprio longa e tenta recuperar as memórias de quem ela já foi um dia. Ao mesmo tempo que ele esquece de mostrar quem a primeira personagem feminina a figurar um filme solo realmente é.

Carol Danvers (Brie Larson) é uma ex-agente da Força Aérea norte-americana, que é recrutada pelos Kree ao perder completamente a memória de quem ela já foi algum dia. Fazendo parte de um exército de elite poderoso dos Kree, ela dedica sua vida para ter um grande ato de heroísmo e se provar como uma grande soldada. Inimiga declarada dos Skrull, ela acaba voltando ao seu planeta de origem para impedir uma invasão de metamorfos, e assim acaba descobrindo a verdade sobre si ao lado do agente da S.H.I.E.L.D., Nick Fury (Samuel L. Jackson) e da gata Goose.

Independente das expectativas – muito altas, por sinal – e aparências, “Capitã Marvel” parece não ter o mesmo cuidado que “Black Panther” teve em sua produção. A saga sci-fi “épica” é a primeira da maior mega-franquia de cinema de 10 anos a colocar uma mulher como protagonista solo de seus filmes. O fato de demorarmos mais de dez anos para ter um título como esse é sem dúvidas um motivo exaustivo para comemoração, como se alguém estivesse esperando uma festa há dez anos e quando conseguiu uma já tinha superado a ideia. A mensagem que o duo indie (Anna Boden e Ryan Fleck) quis passar foi clara desde a primeira fala do personagem de Jude Law (Yong-Rogg), um soldado que tem emoções demais pode ser um soldado falho, mas Vers vai ver que a sensibilidade de uma mulher pode se tornar um super-poder, e vulnerabilidade pode ser uma das melhores armas de uma pessoa. Tudo bem ter uma mensagem importante como essa, mas a questão toda gira em torno do roteiro em si tratar disso como se fosse na verdade uma “profecia” da personagem principal a ser cumprida ao invés de ser um ciclo fechado que começa logo na primeira cena e termina na última.

Mesmo que um passo na direção certa, o filme é frustrante ao mesmo tempo que inofensivo, quase como um desapontamento em uma época onde todo o blockbuster que quer ser “inclusivo” ao menos luta incansavelmente para conseguir chegar na sua “terra prometida”. Em “Capitã Marvel” essa terra prometida é tão esperada que o roteiro parece tropeçar nas próprias empreitadas que tem. E toda essa caminhada parece ser ainda mais desapontante quando vemos que o Boden e Fleck são os nomes por trás disso (pior ainda se levarmos em conta seus filmes como “Perseguindo Um Sonho” e “Parceiros de Jogo”), cujos trabalhos contam com uma colherada de humanidade que por vezes é ausente aqui.

Por isso, a “terra prometida” dessa guerra cultural em prol de filmes mais progressistas parece nunca chegar aqui, e é um grande desapontamento de conclusão, pois nunca sai do seu “portão incial”. A Marvel tem uma série de outras personagens femininas e uma fórmula de fazer filmes muito peculiar. Filmes como “Homem de Ferro (2008)” e “Capitão América: O Primeiro Vingador (2011)” tem lá suas diferenças mas no seu “centro” são parte da mesma fórmula. O que parece acontecer em “Capitã Marvel” é que ela não se encaixa nesse padrão estabelecido, sua personalidade é um derivado do que já aconteceu em vários outros filmes colocados em um pacote só. Diferentemente de “Pantera Negra (2018)” cujo trabalho e cuidado nos detalhes para mostrar que a Marvel estava realmente tentando foram priorizados a todo momento. Em seu primeiro ato, Boden e Fleck nem nos oferecem uma coreografia de luta memorável, plantam uma ideia que é “mal trabalhada” – ou esquecida – durante todo o resto do filme e mesmo assim não conseguem dizer para Carol Danvers que o filme é dela, e ela deve tomar as rédeas de volta.

Quando caída em outro planeta por fugir de seus inimigos, Brie Larson faz um ótimo trabalho como atriz – com o script que foi dado a ela. Infelizmente a versão que nos é mostrada de Carol Danvers é uma personagem que não lembra de sua história e está entre o paradoxo de se lembrar de quem ela é e lutar contra a infestação alienígena dos Skrull. O roteiro se resume em uma amnésia total que mesmo entendendo aonde querem chegar com isso, e o que quiseram passar, não ressoou tão bem com a Capitã. É como se quisessem sair de um circuito-clichê de histórias de origem mas se prendendo automaticamente a um roteiro clichê, onde a personagem principal que devia tomar as rédeas do pacing do filme simplesmente vai sentando no assento do carona e deixa tudo ao seu redor ser mais “interessante” que sua presença. É uma história de origem que tenta desesperadamente esconder o fato que é uma história de origem, ao invés de trabalhar às margens disso para ser A história de origem que vamos lembrar do universo cinematográfico da Marvel.

Essa não é a primeira vez que um herói da Marvel “perde sua memória” do que ele já foi antes de ser o que ele é, mas ainda assim foram adicionados alguns plots “centrais” para tais personagens não parecerem perdidos em seu próprio filme. E falando sobre outros filmes, aqui temos até um gato chamado Goose que tenta simular uma versão menos saturada do “Groot” em “Guardiões da Galáxia”.

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No Planeta C-53 (como resolveram chamar a Terra) tudo parece ser ainda mais fácil para Carol Danvers, encontrando personagens secundários como Nick Fury (Samuel L Jackson) e Maria Rambeau (Lashana Lynch) que parecem segurar o filme inteiro por um fio emocional de conexões que não tinham sido apresentadas até então. A vencedora de um Oscar, Brie Larson parece estar com tanto fogo nos olhos para fazer sua primeira personagem super-heroína acontecer que parece – por muitas vezes – que seu script não a acompanha. As cenas de luta do segundo ato do filme – assim como o primeiro -, não são ruins mas elas necessitam de muito mais para de fato exercerem seu trabalho como um “original da Marvel”. Talvez pelo fato dos diretores não estarem tão familiarizados com o gênero quanto gostaríamos.

Mas no terceiro ato, Carol Danvers e Brie Larson parecem recuperar o que era pra ter acontecido desde o começo. O momento carregado de emoções acontece verdadeiramente por conta de seu elenco secundário, estando ao lado da Capitã que por vezes parece funcionar mais como uma passageira. A nossa heroína é posta em uma posição aonde ela realmente necessita recorrer ao seu posto de personagem principal e ganhar mais uma vez seu espaço no universo cinematográfico da Marvel. Independentemente de não ser portada como vulnerável, ela aprende que isso não é uma fraqueza, independentemente de não ser portada como fraca, ela aprende que ela não precisa de permissão para ser forte, independentemente de demorar 10 anos para fazer um filme com uma mulher no centro, a Marvel chega atrasada para um marco que deveria ter sido seu, se ao menos eles se importassem com seus personagens e não com um apagamento do impacto cultural de outros personagens, de outros estúdios.

Para uma atriz que passa metade do seu tempo lutando por causas reais na internet e em outras ONGs, “Capitã Marvel” quase nunca chega lá – e “lá” sendo uma série de políticas sobre gêneros que raramente são citadas ao longo do filme. Óbvio que por uma questão de não assumir os seus erros – a Marvel -, ou orquestrarem tudo para parecer como se não fosse uma festa de aniversário atrasada – com 10 anos de atraso. Mas ainda assim, para quem gosta de filmes do estúdio, é uma boa diversão, com atuação fervorosa de Brie Larson. Infelizmente as expectativas para esse marco no catálogo deles estava no topo de qualquer outra, esperando um cuidado nos detalhes e na história geral tal qual o de “Pantera Negra”, talvez se tivessem de fato engajado em uma produção solo de “Viúva Negra” pudessem fazer a história original não-clichê que tentaram maquiar aqui. “Capitã Marvel” se encontra em cartaz em todos os cinemas do Brasil.