TRACK REVIEW: Iggy Azalea – Sally Walker

A nova empreitada da rapper digital influencer, Iggy Azealea, no mundo da música é provavelmente a sua mais fraca até agora. “Sally Walker”, lead single de um álbum que ainda irá ser anunciado, chega para contemplar esses últimos anos da carreira da australiana que já rendeu até mesmo featuring com a Anitta. Procurando uma faixa que consiga emular os mesmos números do seu auge musical, “Sally Walker” parece ter a fórmula certa para isso ,refrão catchy, batida genérica e um clipe viral-worthy com queens do reality show RuPaul’s Drag Race, mas deixa a desejar no que mais importa: um rap que mostre a evolução de Azalea em termos artísticos.

Carregada de um trap típico dos grandes sucessos de 2015, J. White Did It – produtor da faixa -, mostrou o quão empenhado ele esteve em dar a Iggy Azalea sua marca registrada no mundo da música: a necessidade de se tornar um hit viral. O single twerking-worthy mostra uma composição onde Iggy referencia a cantiga infantil norte-americana “Little Sally Walker”, fazendo desses versos um grande refrão que torna a música – por vezes – cansativa. Brincando com o fato de ser uma rima de crianças, a rapper usa seus versos para mandar a mensagem que ela tem para todos os seus haters, até citando o seu mais recente feud com a subcelebridade Bad Bhabie – tornando-se uma rapper viral pelo seu famoso bordão derivado de um “meme”, “Cash Me Outside”.

“Mo Bounce”, “Savior”, “Switch” e “Kream” foram alguns dos vários lançamentos avulsos da rapper enquanto esteve no limbo de sua carreira, tentando voltar para a relevância. Mesmo que algumas não tenham recebido a atenção do mainstream que desejava, ainda eram músicas diferentes do repertório antigo de Azalea que se marcou na indústria pelo seu smash hit “Fancy” ao lado de Charli XCX. O single de seu primeiro álbum “The New Classic” trazia para o cenário uma variedade de elementos diferentes, a produção de Charli elevou os synths da música em algo para além do que estávamos ouvindo na época mas sem deixá-lo sem sua essência “radio-friendly”. O resultado disso foi um grande hit que simulava sons dos anos 90 e referências cinematográficas da época compondo o clipe.

Com sua nova empreitada, Iggy nos dá a mão para um passeio no tempo, em uma época mais simples do que todas as polêmicas em que se meteu – antes de polemizarmos a “apropriação cultural” – onde o papel da artista era apenas servir hits hip-hop/rap com uma batida para dançar e versos simples, que podiam ser reproduzidos por todos. Muito o papel de um Macklemore feminino – esse por sua vez sem ser criticado por tudo como Iggy uma vez foi e fazendo o mesmo. “Sally Walker” tem a mesma estrutura do que um follow-up do seu primeiro álbum teria. Todos os elementos “brincalhões” e pós-irônicos estão presentes na música, ainda mais por ela parodiar uma cantiga infantil que toma o refrão inteiro na mesma repetição – por vezes monótona. É como se Iggy Azalea quisesse mostrar ao público que ela pode sim responder as demandas de trazer referências às suas músicas mais uma vez, conseguindo até mesmo “atrações” do reality show RuPaul’s Drag Race para o clipe – que também é citado nos versos.

Independente disso, “Sally Walker” não cresce para algo diferente, como “Fancy”, ela soa como uma música que seria tranquilamente um sucesso em 2016. Isso se dá também ao fato das mesmas batidas se repetirem incansavelmente ao longo da duração da faixa. O heavy bass que se junta aos outros acordes no pós-refrão é a única coisa capaz de prender algum ouvinte na experiência do single, e mesmo assim não é nada demais. Além disso, Iggy Azalea poderia também servir grandes versos durante “Sally Walker”, mas opta por repetir – muitas vezes – a estrutura massante do refrão da música, o que nos faz perguntar: por quê deveríamos ligar para essa empreitada?

Apesar disso “Sally Walker” parece ter levantado interesse de um grande público que havia deixado a rapper de lado – e nem com a parceria de Anitta, sensação dos charts brasileiros, ela tinha conseguido recuperar. O que pode ser uma prova de que Iggy finalmente conseguiu mostrar que ela poderia estar naquele papel de rapper branca inofensiva novamente, trazendo referências engraçadas e um refrão catchy para a indústria da música pop. O fato é que “Sally Walker” é despretensiosa, inofensiva, mas é tão disso tudo que se torna uma música quase sem sal.

Atirei o pau no gato, mas o gato não morreu, e Iggy Azalea é atingida por um surto de interesse do mesmo público que deixou de lado produções mais “sérias” como “Kream” ou até mesmo “Team”. “Sally Walker” não se destaca por quase nada, mas mostra que Iggy Azalea cumpre seu papel por se provar – mais uma vez – como uma rapper inofensiva, com referências que não são de queimar os neurônios, mas que sem dúvidas geram interesses das pessoas e tem potencial para serem virais.