A crítica social de 'Noir' da SUNMI não é isenta de autorreflexão

É seguro falar que a Sunmi é a solista com o material mais animador do K-pop desde que ela se solidificou com cantora-compositora ano passado com o EP “WARNING”, produto de um crescimento artístico que já vinha sendo brilhantemente construído desde seu re-debut em 2017 com “Gashina”. A variedade de sons, humores e abordagens do EP instigou o público em relação aos próximos passos da Sunmi – afinal, o que ela andou fazendo é algo que supera as expectativas para uma solista comum de K-pop, ainda mais em um circuito musical que desprivilegia atos desse tipo.

Uma coisa importante que o “WARNING” fez pela Sunmi foi abrir espaço para que ela pudesse focar em temáticas que vão muito além das músicas sobre interesse amoroso (“oppa saranghae”) que preenchem os lançamentos da maioria das solistas e grupos femininos, já que agora ela é encarada com mais seriedade pelo público coreano – e “Noir” é o primeiro pedaço de experimentação nessa possibilidade de ir conceitualmente mais longe. Tudo o que envolve a canção surpreende de cara pela escolha da artista em abordar um tema sensível e capcioso como a cultura de perfeição imagética e busca por atenção nas redes sociais. E eu falo “capcioso” porque a canção, e especialmente seu clipe, possui um cunho de comentário social que pode ser facilmente contestado pelo fato de que a Sunmi vive uma realidade de uso de redes sociais que a equipara ao seu objeto de crítica. Mas essa dimensão contraditória recebe outros desdobramentos quando o contexto é melhor entendido.

Músicas de comentário ou crítica social, apesar de pouco frequentes, não são impossíveis de se achar no mainstream recente do K-pop, onde elas oscilam por níveis de sucesso e penetração variados, vindo de forma direta (geralmente por artistas que já são levados à sério pelo público coreano) ou de forma discreta nas entrelinhas (afinal, ninguém daria crédito ao TWICE caso a abordagem de “Likey” fosse mais explícita). Uma questão que rege a maioria das músicas de crítica social na superfície da indústria musical oriental (e também ocidental) é que quase sempre o ponto de vista promovido pela música é distanciado, com o artista observando o objeto de crítica “de fora” e dificilmente se incluindo como parte do fenômeno ou acontecimento sobre o qual ele está discorrendo – um exemplo interessante é como a Lee Hyori comenta sobre o estereótipo de beleza-comum na Coreia em “Miss Korea“, criticando sutilmente inclusive a fortíssima indústria da cirurgia plástica no país, mas não parece se incluir como parte da questão apesar do fato de que por muito tempo ela representou a imagem de beleza e perfeição assimilada pelas garotas coreanas… felizmente a lição foi aprendida só anos depois quando a Hyori endereçou certas contradições sobre sua imagem em “Black“.

Claro que isso varia de tema pra tema (e às vezes a crítica é direcionada a algo em que o crítico realmente não se inclui), mas no geral é difícil ver um padrão de artistas “comentaristas sociais” (risos) que tragam uma sensação de self-awareness sobre a sua parcela de participação e envolvimento naquilo em que eles criticam. É muito mais fácil apontar os erros sobre determinada questão do que promover uma reflexão sobre ela – muito menos quando isso envolve se colocar como parte da problemática, já que isso significa estar exposto. Talvez esse seja o elemento-chave que diferencia “Noir” de outras canções de crítica social no K-pop e que ajuda a esclarecer as leituras de hipocrisia que podem ser acionadas pelo fato de ser a Sunmi abordando essa temática. Em tweets prévios ao lançamento da música, a cantora explicou que era irônico o fato de uma pessoa como ela, que adora receber atenção na internet, falar justamente sobre redes sociais em tom de crítica. Isso abre a dimensão de que “Noir” não é simplesmente um comentário ácido sobre o assunto, mas uma espécie de ferramenta de autorreflexão utilizada pela Sunmi para avaliar seu próprio comportamento nesses meios virtuais e perceber que ela faz parte desse fenômeno da busca danosa por atenção tanto quanto qualquer outra pessoa.

O aspecto de autoanálise em si não é novo na carreira da Sunmi, visto que sua “faixa-título” anterior, “Siren”, já flertava com essa ideia, onde ela se julga como uma pessoa inconstante no âmbito amoroso e que de uma forma ou de outra vai acabar machucando o seu parceiro caso ele comece a se envolver mais profundamente no relacionamento. A música ganha também uma dimensão “imagética” quando ela solta a frase “O ‘eu’ bonito das suas fantasias não existe”, que é uma referência ao fato de que o público coreano vê a Sunmi como um padrão de perfeição feminina, especialmente estética, mas que ela não se julga correspondente ou confortável com esse padrão. A autoanálise, muito além de ter um aspecto relatable e garantir uma proximidade do público com o artista quando este último se avalia/critica abertamente, consegue explicitar como a música é uma ferramenta com uma infinidade de implicâncias psicológicas e sociais e também aberta a várias capacidades de significação, usos e leituras… a música pode ser um dispositivo sensorial e comercial devotado ao entretenimento tanto quando pode ser um dispositivo com objetivos mais densos e ambiciosos – mesmo a música pop.

Isso é importante na hora de analisar “Noir”, já que esses movimentos de autorreflexão da Sunmi, uma artista de K-pop no mais mainstream e popular de seus sentidos, contrariam certas noções sobre a música pop coreana – que tem suas camadas significativas negadas pelo senso-comum e sua eterna mania de ver esse tipo de produção como algo incapaz de apresentar profundidade ou acionar questionamentos mais extensos pelo seu caráter fortemente manufaturado e elaboração quase “industrial”… a velha ideia de que a música pop é feita apenas para fazer com que as pessoas se sintam bem. Não que “Noir” seja uma grande revolução em comparação ao que já é timidamente feito em termos de crítica social no K-pop, mas a maturidade artística observada na faixa e a sua capacidade de instigar pensamentos fora da caixa sobre um estilo musical que não costuma ser julgado como algo propenso a isso é no mínimo louvável.

No geral, apesar das camadas de significados de “Noir” e de seu tom mais sóbrio, a música ainda continua aproveitável como um número puro e consumível de K-pop, seguindo algumas das diretrizes que a Sunmi explicou sobre o seu trabalho em entrevista à Billboard, onde ela preza pelo balanço entre fazer música pop acessível a um público amplo mas que também preserve aspectos de autoria, artisticidade e capacidade de abordar temáticas variadas de forma crítica. O fato de que o single balanceia esses aspectos de forma exímia só prova que ele é facilmente o maior êxito criativo da cantora até agora.