A hibridez narrativa de Orphan Black

*O texto a seguir contém spoilers de “Orphan Black”*

Em meio à ascensão da banda Artic Monkeys, e de uma era musical turbulenta de Lady Gaga, “Orphan Black” nascia dos resquícios sci-fi deixados de grandes obras cinematográficas. A série produzida por Graeme Manson e John Fawcett, conta com uma estrela (Tatiana Maslany) que interpretava 11 personagens de uma vez, carregando não só uma narrativa, como várias. Sarah Manning, Beth Childs, Helena, Alison e Cosima – algumas das personagens interpretadas por uma atriz só – agraciavam a BBC America e o canal Space, respectivamente nos Estados Unidos e no Canadá, com seus enredos complexos e por sua marca inegável: a força individual que cada uma personagem oferecia para integrar a série.

“Orphan Black” é uma série sci-fi canadense estrelada por Tatiana Maslay. Protagonizada por Sarah Manning, uma órfã britânica com um histórico de delitos criminais, “Orphan Black” seguia a personagem que presenciou o suicídio de Elizabeth Childs, uma policial que tinha a mesma aparência de Sarah. Ao perceber a semelhança entre as duas, a personagem principal decide investigar sua vida, furtar seus pertences e assumir a identidade de Beth. Inicialmente, Manning queria tomar posse do dinheiro da conta bancária de Childs para começar uma nova vida com seu irmão adotivo, Félix Dawkins e sua filha de 7 anos, Kira. Mas logo ao investigar mais afundo a vida de Beth, a personagem descobre uma série de conspirações envolvendo “clonagem”, e passa a viver à beira da adrenalina enquanto resolve um “mistério” e esconde sua verdadeira identidade da polícia.

A série de cinco temporadas não é uma mera narrativa sci-fi. As personagens de Tatiana Maslany ganham vida a cada episódio cruzando suas histórias, vivências e gêneros em sub-plots que resumem a experiência de assistir “Orphan Black”. Quando você assiste um episódio – assim como eu assisti quase-todos -, você não recebe uma obra sci-fi nos moldes de “Matrix (1999)” e “Eu Robô (2004)”, você está recebendo isso tudo sendo agregado à “Donas de Casa Desesperadas” e “The L World” levando de bônus questionamentos reais entre ciência e religão – e toda a moral de “brincar de Deus” enquanto cientista. Graeme Manson e John Fawcett infectam a série com suas dualidades, sempre muito perspicazes, conectando todas essas “mini-narrativas” como um entrelace genético fazendo com que uma não respire sem a outra, mas ao mesmo tempo consigam respirar sozinhas. “Orphan Black” formula e reformula seus próprios moldes.

Enquanto um produtor e roteirista canadense coloca em prática seu histórico cinematográfico – Graeme Manson fez o filme “O Cubo (1997)” -, John Fawcett ainda se mostrava um novato no processo criativo da série “Orphan Black” que começou como um longa-metragem em 2001, mas logo se tornou uma série de três temporadas e atualmente estendeu-se para cinco – todas disponíveis no Netflix, atual detentor dos direitos de exibição da obra no Brasil. Fawcett explicou que o filme de 2000, “Amnésia” foi uma grande inspiração para a série, e conseguimos enxergar isso ao longo da primeira temporada, onde Sarah Manning vive um drama policial tendo que viver na pele da Beth Childs e desenvolver a narrativa sci-fi aos poucos. A diversidade narrativa e as nuances de gênero da série começam cedo, logo nos primeiros 5 episódios encaramos Sarah Manning presenciando um suicídio e tomando a personalidade de uma policial sem ter nenhuma noção de como era a vida de Elizabeth antes de sua morte.

Ao assumir a pele de Beth Childs, uma de suas clones, Sarah Manning carregou consigo o passado da personagem: um tiro acidental em um cidadão, envolvimento com conspirações de clonagem, uma organização que a perseguia e o fardo de proteger as suas irmãs-clone. A partir de então somos mergulhados em uma eletrizante sequência de episódios que tiram nosso ar, é como se a temporada inteira onde o foco era Sarah Manning fosse dedicada a tornar “Orphan Black” uma série sci-fi com elementos críveis, mesclando-os com um drama policial que fizesse o telespectador se envolver com todas as situações impossíveis que a personagem se envolvia. Manning sustentava esse plot enquanto ainda tinha a sua narrativa individual: tentar fazer o melhor para recuperar sua filha da sua mãe adotiva, Siobhan. Constantemente desaprovada pela própria, Sarah seguia sua vida de “agente dupla” – algo como uma Kim Possible para adultos -, descobrindo sobre si mesma e tentando entender até onde ela mesma iria com a identidade da outra. Não podemos esquecer que no meio disso tudo, os elementos Sci-fi cresciam sutilmente para que o espectador não se afastasse muito daquela narrativa – porque eu por exemplo amo sci-fi que eu veja e pense “podia ser comigo”. Acredito que por essa intenção de fazer tudo soar como algo que poderia acontecer com você é que esses dramas de sub-gêneros foram tão essenciais à série, uma distração que ocorria com todos nós enquanto eles solidificavam a ciência do “ser ou não ser”, com aspectos religiosos e uma assassina em série que tentava eliminar todas as outras clones: Helena.

Na primeira temporada, Helena servia mais como “gêmea assassina”, antagonista da série. Com um background não muito explicitado, a clone loira com olheiras enormes foi essencial para que o drama policial conseguisse ser palpável. Sarah Manning não podia revelar sua identidade ao departamento policial, enquanto investigava o assassinato de uma de suas clones e uma outra clone sua era a culpada de estar matando todas elas. De tirar o fôlego né? Helena foi inserida na narrativa com um arco de redenção incrível, na segunda temporada, dando para nós uma esque sci-fi-religiosa, um giro de 180 no que era até então uma série sci-fi-policial. A narrativa de Helena me lembra muito o que tentavam fazer com o personagem da Marvel, Wolverine, em todos os seus filmes: uma arma que foi criada para matar e se comportar de certas maneiras. Helena cresceu em um convento, é irmã gêmea de Sarah, serviu de antagonista e logo voltou para a segunda temporada como protagonista. As duas compartilham de um laço forte pois foram geradas pela mesma mãe, Amelia, mas se separaram na infância. O drama familiar é comum em “Orphan Black” visto que todas são tratadas como irmãs, o que é também um aspecto de uma das melhores personagens da série em minha opinião: Alison.

O núcleo “Donas de Casa Desesperada” meets “Família Moderna” é um dos fortes de “Orphan Black”. Alison Hendrix deixa as coisas bem demarcadas em uma de suas primeiras aparições: “meus filhos não podem saber que eu sou uma cópia. As coisas precisam ser faladas minimamente para mim”. Com essa fala, Alison Hendrix segue uma narrativa completamente única dando um teor humorístico à série e também servindo como um dos pilares para manter todas as outras narrativas sci-fi “críveis”. Sim, a personagem que menos tem envolvimento com o sci-fi é a mais importante para a série, e acho que o por quê disso é muito claro.

Alison Hendrix é perfeita para a narrativa. Sem envolvimento em muito do que diz respeito a ficção, sua vida foi criada de acordo com seus próprios parâmetros. Alison dançava ballet na infância, tem uma família perfeita, um marido perfeito e é assim que ela é apresentada na série. Basicamente ela não quer ser envolvida nesses assuntos, mas é carregada para eles mesmo assim. A personagem é mundana, uma “soccer mom” que aconteceu de estar envolvida com isso tudo. Ao longo das temporadas acompanhamos seu crescimento, sua “perfeição” mostrando mais profundidade e narrativas bem parecidas à série “Donas de Casa Desesperadas”. Mas não se enganem, Alison também tem mais a oferecer do que só isso. As nuances narrativas envolvendo a personagem são tantas que Hendrix já esteve envolvida em tráfico de drogas e assassinato de um grande cientista, Leekie – tudo sendo entrelaçado no futuro da série. A personagem dona de casa conservadora calha de ser também uma das que mais progride na série toda.

Não podemos esquecer também do “The L World” de “Orphan Black”. O núcleo romântico acontece de uma das maneiras mais trágicas possíveis. Cosima Niehaus, uma cientista clone e lésbica está sofrendo com a “doença desconhecida” que assombra todas as irmãs. No meio disso, ela conhece Delphine, uma cientista francesa que está chegando agora na universidade e as duas se envolvem romanticamente. É engraçado ver a evolução das duas em 2013, pois não era um ano cheio de relações LGBT’s sendo apresentadas na TV. Por questão disso, o casal foi “adotado” pela galera do Tumblr que saturava as duas até não dar mais. Independentemente disso, o relacionamento de ambas não é muito saudável. Delphine é uma “monitora” da Dyad – empresa científica que é responsável pelo experimento das clones -, então podemos inferir que ela só mantém Cosima por perto por toda a questão de pesquisa biocientífica, porque além disso ela trai a confiança da personagem em diversos momentos. Mesmo assim, Cosima também é a “cabeça pensante” de todas as clones, ela está por trás de todo o processo biológico para descobrir como curar a doença que vai aparecer em todas elas. Ao mesmo tempo que Niehaus é o que sustenta o “núcleo romântico” da série, ela também é um dos elementos essenciais do sci-fi, por nos dar termos críveis da biologia que provavelmente não vamos entender mas balançaremos a cabeça assentindo. Sua existência consegue ser um símbolo de como precisamos normalizar personagens LGBT’s em ambientes diferentes, sendo extremamente inovador colocá-la na posição de cientista.

Orphan Black tem seu sucesso devido à criação de todos esses sub-plots que vão montando com maestria uma narrativa que englobe todas as outras. A série entende a individualidade de cada personagem, a ponto de dar um cuidado especial a cada uma e também fazer com que elas sejam partes essenciais para a crença do telespectador no sci-fi. Talvez não tenhamos isso com gigantes do gênero como “Alien”, por estarem muito longe da nossa realidade. Assistimos aquilo, achamos incrível mas é só isso. Em “Orphan Black”, os criadores montam personagens críveis, nos fazem ter uma relação intimista com cada uma delas – já que as acompanhamos de perto – e depois nos jogam em situações cabulosas que não vemos outra saída, além de deixar o roteiro nos guiar.

Alison com as donas de casa, Cosima com o público LGBT, Sarah e Helena carregando o sci-fi em diferentes extremos, todos esses elementos nos pegam de surpresa, entrelaçam o grande plot de “Orphan Black” e são a razão principal pelo motivo de tanto sucesso da série: é conteúdo que se relaciona com o público. São essas narrativas que concretizam os elementos sci-fi, fazendo com que eles casem tão bem com questões como “ciência vs religião”, ou da ética moral do que é ser um cientista.

Infelizmente – ou felizmente quando falamos em saturação – “Orphan Black” teve seu fim na quinta temporada, em 2016. Tatiana Maslany ganhou seu merecido Emmy e a série teve o reconhecimento merecido. Mesmo que não tivesse, os produtores acertaram no roteiro que priorizou uma série cheia de sub-gêneros, onde tivessem espaço para uma diversidade narrativa que englobasse mulheres em seus diferentes ambientes, das suas diferentes formas. Tornou seu sci-fi mirabolante crível, e ainda nos presenteou com representatividade lésbica quando o mundo era ainda escasso delas. Em um ano de decadências musicais, “Orphan Black” nasceu de um cruzamento cinematográfico bem pensado.