A Uffie criou o mundo onde garotas festeiras podem virar princesas do pop

Muito antes dos hits virais surgirem em plataformas como instagram, soundcloud, TikTok, ou de algoritmos ferozes do Youtube e Spotify (que rendem carreiras para artistas como Cardi B, Bhad Bhabie, Cupcakke, Pabllo Vittar e Selena Gomez), a internet ainda engatinhava em suas soluções de divulgação de artistas online, com um único site sendo o grande catalisador disso tudo: o Myspace. Dali surgiram artistas que teriam carreira solidificadas como a Lily Allen, eternas promessas da música pop como a Sky Ferreira e, claro, atos musicais trash que marcaram os anos 2000 como Tila Tequila, Millionaires e especialmente Jeffree Star.

No meio disso existia a Uffie, que trafegava entre esses três “aspectos” dos artistas do Myspace: ela possuía um som que era um tanto trash mas ao mesmo tempo soava como algo novo e diferente no circuito da música pop eletrônica, além de ter uma carreira que parecia bem mais sólida e menos efêmera do que a maioria dos outros nomes que povoavam o site. A Uffie também foi, junto com a Princess Superstar, a gênese moderna das rappers brancas, algo que depois impactou no surgimento de gente como a Kreayshawn, Dev e Lil Debbie e também abriu espaço para que artistas como a Bhad Bhabie, Qveen Herby ou até a Charli XCX com suas rimas rápidas em “Vroom Vroom” pudessem existir.

Nascida Anna-Catherine Hartley e com uma biografia extensa que indica que ela morou em pelo menos três continentes antes dos 16 anos, a Uffie se firmou na França na metade da adolescência e lá começou a se envolver com música meio que por brincadeira e meio que por influência do namorado dela à época, o produtor Feadz. Juntos, eles produziram uma adaptação de “Top Billin’” do Audio Two chamada “Pop the Glock”, que rodou o circuito underground francês em 2005 e pavimentou o caminho para que ambos assinassem com a gravadora Ed Banger Records, responsável por nomes fortes da música eletrônica francesa como Justice e SebastiAn. “Pop the Glock” foi posteriormente lançada de forma oficial em 2006 em um single duplo com a faixa “Ready to Uff”, sendo o lançamento responsável por todo o hype, seguidores e apelo bloghouse que a Uffie teve na década passada.

Mesmo tendo sido lançada há 13 anos, “Pop the Glock” continua soando fresh até hoje, com uma batida que basicamente previu o que seria o hip-hop eletrônico “minimalista” da era pós-Spotify e um uso preciso de vocoder/autotune que imprime facilmente uma aura futurista à canção (a única coisa que talvez não tenha envelhecido tão bem na faixa é o sotaque britânico falso que a Uffie usa durante o rap inteiro). Os singles que se seguiram ainda entre 2006 e 2007 (“Hot Chick/In Charge” e “First Love/Brand New Car”) ajudaram a firmar a imagem da artista como uma festeira incorrigível, com letras frequentemente sobre sexo e drogas, e seu som como uma música urbana contemporânea que pegava elementos da música synthpop dos anos 80 – o que acabou classificando a Uffie no gênero “electroclash”, povoado por artistas como Peaches, Ladytron e CSS.

Nesse meio tempo a Uffie também fez outros trabalhos interessantes, como uma participação na faixa “Tthhee Ppaarrttyy” do álbum de estreia do Justice (que posteriormente renderia comparações com “Tik Tok” da Kesha), além de algumas faixas avulsas como “Dismissed” para a segunda coletânea da Ed Banger Records e “Robot Oeuf”, que integrou a trilha sonora de Abraços Partidos do Pedro Almodóvar (!). O (adiadíssimo) álbum de estreia da artista só veio em 2010, nomeado “Sex Dreams and Denim Jeans” e precedido pelo relançamento de “Pop the Glock” como single no final de 2009, agora com um clipe filmado na mansão utilizada no filme Boogie Nights e com uma rápida aparição da também quase-promessa-do-pop Sky Ferreira.

Apesar de lidar com algo parecido com o rap, já que a Uffie nunca foi exatamente uma cantora (ela mesma fala que mal consegue cantar direito na faixa “Our Song”), a gata não pegava influências do rap e hip-hop em voga nos anos 2000 e sim de origens mais “excêntricas” desses gêneros, como a apropriação do rap por bandas de new wave (a exemplo do Blondie e o Tom Tom Club), além da cultura de MCs dos anos 80 e a forma como ela não era limitada só ao rap e transitava por outros gêneros. Melhor do que isso, o disco de estreia da artista, apesar de ser um tanto divisivo, expandia o som da Uffie para muito além desses gêneros citados, contando também com samples do The Velvet Underground na faixa título e do Giorgio Moroder em “MCs Can Kiss”, e de um cover da música “Hong Kong Garden” do Siouxsie & the Banshees.

O “Sex Dreams and Denim Jeans” não conseguiu suprir muito bem as expectativas e o hype em torno de um primeiro disco completo da Uffie, e isso é bem perceptível pela forma rude como ele foi recebido pela crítica, com uma amarelíssima nota 48 no metacritic que só não deve ser pior que a nota 42 do álbum da Kreayshawn. Apesar disso, o disco possui ótimos momentos como o rap sintético e descompromissado da supracitada “MCs Can Kiss” e o synhtpop fervoroso de “ADD SUV”, com participação do Pharrell Williams. Boa parte do álbum também possui uma sinceridade lírica notável e intercala o lado festivo da artista com alguns takes mais sensíveis, como em “Difficult” e “Ricky”. A produção, toda assinada por nomes da Ed Banger Records, privilegiou sons retrô com roupagens contemporâneas e um quê avant-garde, sendo o único grande defeito do disco o fato de que nem todas as composições parecem entender muito bem a voz da Uffie e talvez isso se dê pelo fato de que ela mesma só compôs uma minoria das faixas do trabalho.

A Uffie continuou ativa até meados de 2011, onde lançou um remix de “Illusion Of Love” para o filme Sucker Punch e um cover de “Wordy Rappinghood” para um comercial de água mineral (!). Depois disso… bom… a Uffie sumiu por quase 7 anos.

Apesar de abrupto, esse sumiço não foi realmente acidental: a artista não conseguia lidar com a pressão da pseudofama no circuito underground e a rotina pesada de shows, o que inclusive ocasionou um breakdown e um check-in voluntário numa clínica de reabilitação. Optando por levar uma vida “normal” nos anos seguintes, ela se casou, teve dois filhos e deixou a música como uma espécie de projeto paralelo em última prioridade, o que rendeu inclusive o descarte de um segundo álbum inteiro que já estava em pré-produção. Boa parte disso pode ser conferido no documentário “Fuck Fame”, que registra o longo período de hiato da artista e foi exibido no início desse ano no Festival Internacional de Conteúdos Audiovisuais da França (e provavelmente vai ficar limitado ao nicho dos festivais ainda por algum tempo visto que não disponibilizaram nem o trailer dele na internet).

Voltando a morar nos Estados Unidos, a Uffie então passou a se comunicar esporadicamente com os fãs restantes pelo Facebook, onde jogou algumas promessas falsas de retorno no ar bem ao estilo Sky Ferreira. Após dois divórcios, anos de foco na maternidade e um momento de limbo criativo, a artista voltou a entrar em estúdio em 2016, onde começou a desenvolver suas próprias habilidades como compositora e eventualmente trabalhar em faixas próprias e também para outros artistas. O comeback verdadeiro só viria mesmo em 2017 quando ela participou da faixa “Babygirl” da mixtape “Number 1 Angel” da Charli XCX – que não só a recolocou no mapa mas também serviu como uma espécie de prelúdio para as músicas que ela lançaria dali para a frente.

Em 2018 veio o primeiro single oficial em sete anos, “Drugs”, que foi o início de uma sequência que continuou com “Your Hood”, “Sideways” (#48 na lista de 50 melhores músicas de 2018 do JESUSWORECHANEL) e “Papercuts”. Já no início desse ano ela lançou mais um single, “Sadmoney”, que foi o abre-alas para o EP “Tokyo Love Hotel”, primeiro trabalho “completo” da artista em quase nove anos. A sonoridade que a Uffie explora nos singles e no EP dialoga muito mais com o pop atual, mas ainda mantendo aquele ar quirky que sempre foi a marca registrada da artista. Outra questão importante é que as novas canções sabem trabalhar de forma bem mais interessante a voz dela: as construções melódicas são planejadas de forma a abarcar mais confortavelmente os vocais infantis da Uffie e as produções também não abrem mão de filtros e camadas de autotune que são certeiros para fazer a voz dela funcionar diante do que é pedido, sem obrigar a artista a cantar além do que o registro dela pode alcançar.

Apesar de ainda ter uma ou outra música com um estilo mais “falado” do que realmente cantado, muito do pseudo-rap que povoou o “Sex Dreams and Denim Jeans” ficou para trás, extinguindo de vez a idealização de “rapper branca” que a Uffie tinha. Já o hip-hop contemporâneo, que não era muito explorado na época em que ela fazia rap, agora aparece nessa nova fase com sua vertente democratizada (e higienizada): a trap music. Boa parte das faixas novas pegam emprestadas as baterias pulsantes e percussões entrecortadas do trap como elementos básicos, mesclados com guitarras e um quêzinho de synthpop, o que é destaque em faixas como “Sadmoney”, “No Regrets” e “Your Hood”.

Letras sobre festas e álcool também sumiram para ceder espaço a temáticas mais pessoais e delicadas, que colocam a artista num âmbito muito mais próximo da realidade do público do que antes (além de trazer frases altamente quotáveis sem precisar forçar a barra para isso). Tendo crescido aos olhos da internet, a Uffie ainda consegue expressar musicalmente uma visão singular sobre a vida hiperconectada e suas implicações como ela já fazia uma década atrás, mas dessa vez com uma maturidade notável e uma autoconfiança artística muito maior.

O “Tokyo Love Hotel”, apesar de curto (é muito curto, dá até uma raivinha), é um trabalho bem-acabado lírica e sonoramente e que vai servir de cartão de visitas para essa nova fase da carreira da Uffie, divulgando o talento dela como compositora e também o fato de que ela ainda é um nome destacável na indústria musical mesmo depois de uma trajetória tão irregular. A gata diz que tem um álbum completo sendo preparado e que, como artista totalmente independente, ela agora tem a liberdade de lançar singles novos sempre que der na telha (e eu espero sinceramente que isso aconteça com bastante frequência).