BICHAFORK: A mudança de ângulo musical do LOONA no "[XX]"

No primeiro álbum do LOONA como grupo completo, o “[+ +]”, as garotas tiveram a missão de firmar a identidade unificada do projeto e mostrar um pouco de variedade musical, o que resultou em um produto-final bem acabado mas ao mesmo tempo com algumas impressões mistas. Seria realmente aquela dualidade entre o som cheio de sacarina de “Hi High” e as batidas funky poderosas de “favOrIte” o melhor indicativo do tipo de linha musical que o projeto seguiria dali pra frente?

A resposta a essa pergunta aguardou um espaço de meses (que no caso do K-pop é um tempo considerável) para ser respondida após o grupo anunciar que o “[+ +]” teria uma continuação direta, inteligentemente intitulada como “[X X]”. Pontuado por teasers inacabáveis e uma espera que entediou os fãs coreanos do grupo – a ponto de abandonarem fansites e criarem todo um ar de #drama dentro da fanbase -, o “[X X]” finalmente deu o ar da graça após o segundo concerto do LOONA e, de cara, já redefiniu alguns parâmetros sobre a identidade musical do grupo e o provável caminho sonoro que ele deve seguir de agora em diante.

Se o disco anterior se valia de sons mais imediatos e “vibrantes”, com gêneros musicais que iam do tropical house ao miami bass, o “[X X]” concentra o som do LOONA em uma atmosfera mais sutil e lânguida, evidenciando gêneros como o R&B e o EDM e soando como se fosse uma mistura precisamente planejada dos melhores aspectos de algumas faixas que já foram lançadas anteriormente pelo projeto em solos ou em units, especialmente “Eclipse”, “Egoist”, “Love Letter”, “Everyday I Love You”, “Puzzle” e “Chaotic”.

O impacto do novo direcionamento musical do LOONA pode ser sentido já na intro do EP, “X X”, que, diferente da intro anterior (“+ +”), é bem mais funcional na tracklist, vindo com um som eletrônico que abre caminho para que o público entenda a sonoridade que está sendo proposta e faz uma transição quase que perfeita para “Butterfly”, que é até então a faixa mais pesadamente EDM que o grupo já lançou até hoje.

Já “Butterfly” soa como uma celebração do histórico do LOONA até agora enquanto também mira para algo novo. A faixa se desenvolve com um som delicado de R&B marcado por uma bateria pesada, evoluindo de forma atmosférica até atingir um refrão cheio de notas agudas e depois cair em um drop fortemente eletrônico que une elementos do deep-house e sintetizadores metálicos do future bass. O future bass em si é um gênero que já foi altamente explorado por diversas instâncias do projeto, aparecendo pela primeira vez na dançante “Singing in the rain” e posteriormente nos sintetizadores incessantes de “Stylish” – mas em “Butterfly” esse tipo de sonoridade modernosa (e barulhenta) ganha todo o destaque, sendo privilegiado como elemento principal nas partes mais marcantes da música a ponto de quase dispensar acompanhamentos vocais. Os quatro minutos de duração da faixa (longos demais pros padrões do pop sul-coreano) e o investimento em um som que é pouco associado a grupos femininos provam que a canção é uma aposta arriscada do grupo em prol de um diferencial na indústria supersaturada do K-pop, algo manufaturado milimetricamente para se destacar.

Saindo da união de vibes delicadas e pesadas de “Butterfly”, o álbum começa a equilibrar as coisas com “Satellite”, que em linhas gerais soa como se fosse uma mistura de faixas da unit ODD EYE CIRCLE com “Perfect Love” do álbum “+ +”. Com um som pop regado a inserções pontuais de elementos eletrônicos, como percussões de trap nos versos e sintetizadores glitchy no refrão, a música é bastante carregada pelos charmes vocais individuais das integrantes, que conseguem passear pelos humores diferentes que a faixa pede – especialmente no refrão que começa meloso e depois dá uma guinada para algo mais agitado e descaradamente bubblegum pop quando a Yeojin entoa de forma bem vivaz um “I’m talking about you / I’m talking about you”. “Curiosity” é um número de R&B eletrônico que também poderia facilmente rechear a tracklist do álbum “Max&Match” do ODD EYE CIRCLE ou servir como uma ótima b-side para o single solo da Kim Lip. Seu refrão faz o contrário das músicas até agora, tendo uma característica “decrescente” onde começa em notas um tanto mais altas e vai descendo levemente de tom até o seu término, com um instrumental synth-funk (com direito a um slap bass no finalzinho) que marca de perto essas mudanças.

Colors” é a faixa com a “cor” (risos) mais nova para o LOONA no álbum: apesar de iniciar como um R&B delicado assim como as canções anteriores, a música acaba pendendo para um instrumental de ambiência noturna, repleto de percussões orgânicas e tamboriladas que o fazem parecer quase uma versão acelerada a 140bpm e com um twist moderno do instrumental de “Shiki no Uta” da cantora japonesa MINMI. Ainda assim a canção possui espaço para elementos eletrônicos, como um bass pulsante que permeia quase toda a sua construção e um breakdown cheio de trap lá pela metade de sua duração. As vozes, e especialmente os backing vocals bem inseridos das garotas, dão vida a “Colors”, que ganha o ouvinte facilmente pela sutileza viciante do refrão, com sua repetição incessante de “I go / I go / I go”.

O “[X X]” finda com algo que estava em falta na discografia do LOONA desde que o projeto começou a ganhar completude em 2018: algo próximo a uma balada. A faixa que supre essa necessidade é “Where you at”, que também pega emprestado sons do R&B atmosférico e da música eletrônica em sua construção. Apesar de ser tecnicamente a faixa mais lenta que a discografia do grupo conjunto possui até agora, “Where you at” não perde tempo sendo melosa, e isso pode ser facilmente notável pelo seu refrão cheio de sentimentalismo mas em que nenhum momento é enjoado ou dramático demais. A melhor característica da canção é que ela consegue se destacar sozinha no final do álbum, sem parecer que foi jogada no fim da tracklist apenas por ser a faixa menos enérgica do lançamento – ela é simplesmente o tom perfeito para o encerramento do trabalho diante do desenvolvimento sonoro das faixas anteriores.

Se há algo que pode ser dito do “[X X]” é que ele no fim das contas soa como um material muito mais redondo que o “[+ +]”, com uma linha de coesão entre as faixas que é bem mais sólida e sonoridades próximas mas que ao mesmo tempo não soam repetitivas. O disco também abre espaço para certas experimentações que são bem-vindas e até esperadas em um projeto do naipe do LOONA e um ou outro elemento que vai chamar a atenção dos fãs mais atentos, como a consagração da Choerry como rapper na maioria das faixas ou as melhores divisões de linhas que fazem as canções (especialmente os singles) do lançamento anterior comerem poeira.

Apesar de ser vendido como um relançamento do “[+ +]”, com as tracklists dos dois trabalhos sendo dispostas em sequência num disco só, o “[X X]” tem poder para se firmar como algo próprio e isolado a partir de seus próprios méritos. A justaposição dele com o disco anterior só reforça como o “[X X]” é um ponto evolutivo na carreira do LOONA e uma mudança de ângulo (amo essa metáfora porque é literalmente isso que o título do álbum representa graficamente além de operações matemáticas que não vêm ao caso pois sou de humanas) musical mais do que importante para o grupo nesse começo de carreira que pretende ser longeva.


LOONA, “[x x]” (2019)
Gêneros:
K-pop, Pop, Electronic, R&B
Destaques: “Butterfly”, “Satellite”, “Colors”

Nota: 9.1