BICHAFORK: Ariana Grande – thank u, next

Em um arranha-céu nova-iorquino, Ariana Grande nos convida para dentro de sua mente conflituosa com seu mais recente trabalho, “thank u, next”. Sem fazer nem mesmo 6 meses desde seu último álbum de estúdio, a cantora achou um refúgio na criação de conteúdo enquanto sua vida pessoal não andava muito bem – o que não pode ser dito para sua carreira. Com uma pegada r&b, Grande viaja do sultry ao pop que fazia em “The Way”, reescrevendo sua originalidade artística para padrões mais sofisticados, naturalizando seus desejos e pensamentos, mesmo que esses nem sempre sejam saudáveis para ela. “Thank u, Next” é uma experiência honesta, onde a cantora compartilha com seus ouvintes todos os seus grandes desejos.

Com produções de Max Martin e TBHits, composições da própria Ariana Grande e a participação inusitada da drag queen Shangela – do reality RuPaul’s Drag Race – em uma das faixas , a cantora abraça a sua “maturidade” ao máximo. Grande transcreve seu crescimento artístico, e pessoal, como uma variedade de sentimentos conflituosos, da menina mais “dócil” na faixa “needy”, “slow-tempo” flertando com o pop-r&b até a femme fatale interior de “break up with your girlfriend, i’m bored”, acompanhada por synths e um trap surpreendentemente não-datado. Não importa em qual ritmo, ou qual “forma” Grande está assumindo, em “thank u, next” ela é bem sucedida em todas as que se propõe.

O “Sweetener” foi um grande passo para a carreira de Ariana Grande. Desde “no tears left to cry” até “breathin”, as composições presentes nele pareciam exatamente aquilo que ela propôs no nome da obra: um adoçante nas cobranças salgadas da vida. Tudo presente nas letras representavam Ariana em seu melhor entendimento de que tempos ruins não são permanentes. Grande, recém-ferida, por um término e as tragédias que sondavam sua vida, necessitava de um adoçante e tentou dar aos seus fãs o mesmo. Bem sucedida no que fez, acompanhada pelo seu r&b com influências claras dos anos 90, repaginado nos padrões do produtor Pharrell Williams, a honestidade que o seu atual álbum nos trouxe fez uma grande falta no seu antecessor. Todas as faixas do álbum parecem como um grande lembrete da cantora para ela mesma de que tudo iria ficar bem, onde ela tenta balancear o “ruim” da sua vida pessoal com o “bom” da sua vida profissional – “successful”.

Comparado ao “thank u, next”, a celebração monogâmica de “sweetener” parece não ser a verdadeira densidade das nuvens carregadas que pairam sobre a mente da cantora. “Thank u, Next” é a verdade de Ariana Grande, nua e crua. Ouso a falar que esse quinto álbum, foi o que a própria tentou passar com o seu antecessor- sem tirar nenhum mérito da qualidade dele. Mas Grande ainda tinha uma “expedição” criativa dentro de sua cabeça pendente, ou até mesmo uma conversa consigo mesma encarando seu reflexo, onde ela se pergunta: isso é o que eu quero ouvir, ou estou sendo verdadeira comigo mesma?

“Thank u, Next” é bem sucedido nas suas falhas e impecável nos seus acertos. É sobre Ariana conectar-se consigo mesma e perceber as expectativas que ela tem sobre si, o peso das expectativas de terceiros sobre você e também as expectativas que desenvolvemos sobre um companheiro. Em “NASA”, Ariana Grande transcreve seu antigo hit “The Way” perfeitamente em um r&b-pop, nos entregando uma explosão criativa em um pedido de espaço (“Eu preferiria ficar sozinha essa noite/Você pode me dizer “eu te amo” pelo telefone essa noite”). Grande assume também que ela precisa de atenção, mas “depois de tanto dano, quem não precisaria?”, na segunda faixa – “needy” – do disco, seguindo um r&b “slow-tempo” mais sultry do que o normal, com acordes bastante atmosféricos, uma confissão sobre seus próprios sentimentos e o quão estamos dispostos a aguentar. Tema que retorna no exato momento em que “fake smile” começa a tocar, uma faixa que flerta com reggae – muito parecido com o de “Come On Then” de Lilly Allen -em que Ariana desabafa não aguentar mais ter que segurar a “pose”. Ao mesmo tempo confessa ter se apaixonado por uma versão inexistente de seu companheiro – talvez até o próprio Pete – em “in my head”, onde Ariana diz: “olhe para você garoto, eu te inventei/com seu tênis Gucci, fugindo dos seus problemas”.

Seu quinto álbum de estúdio também é sobre assumir para si mesmo desejos problemáticos, mesmo sabendo que não são saudáveis. A honestidade que Ariana Grande atribui à músicas como “bad idea”, “bloodline”, “break up with your girlfriend, i’m bored” e “7 rings” pode até mesmo ser vista com olhos tortos, mas a verdade é que todos os seres humanos estão passivos a sentir uma vez sobre o que essas músicas querem mostrar. Grande canta como ela não quer um companheiro que esteja na sua “linha de sangue”, deixando claro que ela só quer uma noite de diversão com o parceiro, sem nenhum outro tipo de compromisso. Enquanto “break up with your girlfriend, i’m bored” é extremamente e “bad idea” traçam a mesma linha perigosa de traição, a última deixando claro que ela é “temporária” e pedindo para seu interesse sexual que “esqueça de tudo” ao se juntar com ela, diferentemente da primeira onde Grande é uma “predadora” que só reconhece que sua vítima é comprometida depois de nutrir todos os sentimentos sexuais possíveis pelo homem. Muitos também leem essa última como uma carta de amor próprio, onde Ariana pede a ao seu namorado para terminar com ela mesma, sustentando-se em synths muito bem planejados que pintam a música como algo mais “pesado”, casando muito bem com a ideia de que estamos adentrando os pontos mais baixos dos desejos da cantora, sendo os sentimentos que Ariana nutre resumidos em uma palavra: perigosos. Como eu havia dito, “thank u, next” é uma grande viagem pelos pensamentos mais “obscuros” e “honestos” de Ariana Grande, sua persona “femme fatale” cujos interesses são por muitas vezes egoístas também estão presentes aqui. Independentemente disso, as músicas citadas acima são pop da mais fina qualidade. A dualidade desses sentimentos conflituosos aparecem muitas vezes ao lado de músicas como, “ghostin”, onde Ariana encara um relacionamento com uma pessoa onde ela mesmo ainda se interessa pelo outro, o que pode ser associado com o falecimento de seu ex-namorado e rapper, Mac Miller, cuja música “2009” também está sampleada aqui talvez até mesmo como uma maneira de manter viva a memória do companheiro.

Voltando a trabalhar com o mesmo time de produção do seu “Dangerous Woman”, Ariana Grande aparece em “thank u, next” com a perfeita fórmula entre o r&b e o pop, conseguindo refinar o que foi feito no álbum favoritado pelos seus fãs. A excelência das produções pop de Max Martin, ILYA, TBHits e Pop Wansel fez com que Ariana pudesse entregar uma diversidade sonora que não ficasse marcada como uma tentativa de repetir as fórmulas de hits antigos. O pop de “Greedy” e “Be Alright” é transcrito de outra forma, onde Ariana Grande infecta as produções com o r&b característico que a cantora já é conhecida por fazer, além de não deixar o hip-hop/trap ser um gênero datado aqui.

Todos os seus singles até então revelados trouxeram aclamação universal para a cantora, e Ariana Grande prova mais uma vez que seu nome está se tornando um dos maiores na indústria, e as pessoas tem que começar a aceitar esse fato. Em “thank u, next” Ariana Grande flerta com o pop-r&b atual, deixando claro que é “ok” se sentir irritada, querer espaço, não suprir as expectativas que os outros tem sobre você e até mesmo que pensamentos problemáticos vão acontecer, mas não serão permanentes. Sendo um bom e honesto álbum “r&b”.

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Ariana Grande, “thank u, next” (2019)

Gênero: r&b, pop, trap, hip-hop

Destaques: “break up with your girlfriend, i’m bored”, “bad idea”, “needy”, NASA”.

Nota: 9,1