'Alita' é um anjo em busca de identidade

Quando James Cameron se interessou pela série de mangá Gunnm, ou Battle Angel Alita aqui no ocidente, de Yukito Kishiro (publicado aqui no Brasil em 2003 e republicado em 2017), o cineasta estava pronto para encarar uma viagem nem um pouco desconhecida. Dono de uma filmografia regada de sucessos e efeitos visuais, incluindo as duas maiores bilheterias da história do cinema, Avatar (2009) e Titanic (1997), a adaptação de Alita: anjo de batalha podia ficar despreocupada quanto a sua produção. E foi isso que aconteceu. James Cameron largou a cadeira, pegou a caneta (e o dinheiro, é claro) e entregou a direção para Robert Rodriguez, diretor de Sin City (2005). Na adaptação de mundos fantásticos, ambos, exploram ao máximo a tecnologia para criar histórias universais. Em Alita não é diferente.

Você já ouviu essa história antes: menina desaparecida é encontrada por alguém que a acolhe, mas ao questionar sua origem, vai em busca de identidade. A diferença é que a protagonista é uma ciborgue encontrada em um ferro velho por um médico cibernético de um mundo pós apocalíptico. O longa se passa 300 anos após A Queda, o mundo é dividido entre Zalem, uma metrópole próspera nos céus, e a Cidade de Ferro, onde povos de diferentes etnias e ciborgues lutam para sobreviver. Dr. Ido (Christoph Waltz) é uma figura importante, já que é responsável por consertar e otimizar os corpos híbridos da cidade. Aqui os limites entre homem e máquina não existem, tudo pode ser consertado, desde que tenha um cérebro intacto. Foi o caso de Alita (Rosa Salazar), encontrada só com a cabeça, mas suas respostas mentais funcionando. Logo, Idu a reconstrói em um novo corpo e passa a funcionar como uma garota (quase) normal, a não ser por sua força imensurável.

Como todo bom roteiro de ficção, os conflitos se tornam evidentes logo de cara e Alita começa a questionar sua identidade. E dessa vez com ajuda de Hugo (Keean Johnson). Mais do que um par romântico, o garoto de caráter duvidável insere com sucesso a garota no mundo, lhe apresentando, além do chocolate, o Motorball, uma espécie de jogo estilo gladiador. Alita quando posta em perigo ou situações de violência consegue retomar lembranças importantes para seu processo de identificação.

Em uma trama de muitos vilões, todos os personagens são duvidáveis, parte da estética cyberpunk de um futuro que não deu certo, onde todos buscam sobrevivência, ou melhor, alcançar Zalem. A moeda local é o que eles chamam de crédito e podem ser adquiridas por atividades nem um pouco tradicionais, como a de caçadores de recompensa, uma espécie de justiceiros que substituíram as atividades da justiça e da polícia. Como também por crimes que envolvem a retirada de peças de ciborgues para venda. As hierarquias são muito evidentes, médicos e justiceiros são respeitáveis, assim como Vector (Mahershala Ali), um mafioso que controla a indústria do motorball.

Em tempos onde se discute empoderamento e representação feminina em Hollywood, ter uma protagonista mulher (e ciborgue), guerreira e sem dó de matar humanoides homens já é um grande alívio. Ainda que o arco narrativo da personagem pouco seja diferente do que já estamos acostumados. Alita, apesar de forte, é ingênua e daria o coração, literalmente, ao seu amado. A sensibilidade computadorizada é carregada pelos olhos, como se falassem por ela. As cenas de ação, como de costume, são o ponto forte. É glorificante o ritmo que o filme consegue manter durante duas horas nem um pouco exaustivas de duração.

Como um filme de James Cameron e Robert Rodriguez, não esperamos menos que uma ótima sessão pipoca. Sem a pretensão de ser cult, ou ousar demais na linguagem, o resultado é um misto de violência muito bem colocada com elementos narrativos próprios ao gênero. A heroína tem tudo para ser pop em um universo carente de novas imagens, acostumadas demais com reboots e spin off de quase tudo. Alita é o Frankenstein de uma geração onde monstros não mais assustam, mas se ressignificam.